Revista Poetizando

22.11.09

POETIZANDO
REVISTA LITERÁRIA
LANÇAMENTO E SARAU POÉTICO
DIA 11 DE DEZEMBRO DE 2009
DAS 20 ÀS 22 HS, SEXTA-FEIRA
NA ALIANÇA FRANCESA
RUA RIO GRANDE DO NORTE, 98
POMPÉIA – SANTOS
CONTAMOS COM VOCÊ!

31.10.09

I CONCURSO DE POESIA POETIZANDO

REGULAMENTO

O participante poderá concorrer com até 3 poesias de sua autoria, tema livre, com no máximo 20 linhas cada uma, em 3 vias, datilografada ou digitada tamanho Arial 12, de forma legível, em papel sulfite A4, com apenas o material poético, o pseudônimo e taxa de inscrição de R$ 5,00 para despesas de concurso. O trabalho deverá ser entregue em envelope lacrado (sem remetente, somente destinatário), contendo em seu interior outro envelope menor, lacrado e preenchido por fora com o título das obras (se houver) e pseudônimo, com os dados: Nome completo, endereço completo com CEP, pseudônimo, telefone e e-mail (se houver). Serão escolhidos os três melhores trabalhos, com premiação em livros, certificado de participação e publicação na revista Poetizando e blog dos 3 primeiros colocados. Os resultados e data de premiação do concurso estarão no blog da revista Poetizando: www.revistapoetizando.blogspot.com. Todo material poético enviado não será devolvido. Não serão aceitos trabalhos nem inscrições pela internet. As decisões serão irreversíveis. Serão desclassificados os trabalhos fora do regulamento. Enviar o trabalho para: I CONCURSO DE POESIA POETIZANDO - Av. Eng. Luís La Scala Jr., 186 – CEP: 11075-150 – Santos/SP

Eunice Mendes e Walmor Colmenero
Editores da revista Poetizando

13.9.09

POETIZANDO Nº 34
(Edição de Primavera)


HAICAIS

Já é primavera -
Uma colina sem nome
Sob a névoa da manhã.

Bashô

*

Dia de primavera -
Os pardais no jardim
Tomam banho de areia.

Onitsura
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AUTORES DO MÊS

SETEMBRO

FRANCISCO DE QUEVEDO Y VILLEGAS, poeta e prosador espanhol, nasceu em Madrid a 17 de setembro de 1580 e faleceu em Villanueva de los Infantes a 8 de setembro de 1645. Poeta lírico profundo e satírico. Deixou vasta produção poética. Também extensa e diversificada é sua obra em prosa. Escreveu numerosos textos políticos. Algumas Obras: Os Sonhos, História da Vida do Buscón, chamado don Pablos, exemplo de vagabundos e espelho de velhacos.

AMOR A MENTE OCUPA-ME E OS SENTIDOS

Amor a mente ocupa-me e os sentidos;
absorto estou em êxtase amoroso;
não me concede trégua nem repouso
esta guerra civil entre os nascidos.

Espraiou-se o caudal de meus gemidos
pelo grande distrito e doloroso
do coração, em seu penar ditoso,
e afogou-me as memórias em olvidos.

Todo hoje sou destroços, ruinaria,
escândalo fatal para os amantes,
que fazem do penar sua alegria.

Os que hão de ser, como os que foram antes,
estudem seu vigor nesta agonia,
e invejem minha dor, se são constantes.

Tradução: Anderson Braga Horta
in: Traduzir Poesia
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OUTUBRO

MARQUESA d’ALORNA, poetisa portuguesa, pseudônimo usado por D. Leonor de Almeida e Lencastre, nasceu a 31 de outubro de 1750 em Lisboa, onde faleceu a 11 de outubro de 1839. Até os 18 anos viveu em convento, por determinação do marquês de Pombal, enquanto o seu pai cumpria pena. Na clausura estudou ciências naturais, filosofia, literatura, latim e francês. Tradutora e introdutora em Portugal dos poetas românticos ingleses e alemães. Seu outro pseudônimo era Alcipe. Foi considerada "perigosa" pela polícia. Seu estilo é neoclássico/pré-romântico. Exprime as "almas sensíveis", a melancolia e a liberdade.
Obra: Obras Completas (1844 – 6 volumes)

O PIRILAMPO E O SAPO

Lustroso um astro volante
Rompera as humildes relvas:
Com seu vôo rutilante
Alegrava a noite as selvas.

Mas de vizinho terreno
Saiu de uma cova um sapo,
E despediu-lhe um sopapo
Que o ensopou em veneno.

Ao morrer exclama o triste:
- Que tens tu de que me acuses?
Que crime em meu seio existe?
Respondeu-lhe: - Porque luzes?

in: Obras Completas
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NOVEMBRO

VOLTAIRE, pseudônimo usado por Francois-Marie Arouet, escritor francês, nasceu em Paris a 21 de novembro de 1694 e faleceu na mesma cidade a 30 de maio de 1778. Filho de família burguesa, estudou em Paris e freqüentou a Société du Temple, de libertinos e livres pensadores. Foi preso por insulto e só foi solto na condição de exilar-se. Na Inglaterra, participou das idéias do Iluminismo. Em 1744 retorna à Paris e em 1746 foi eleito para academia sendo introduzido na corte por Madame de Pompadour. Possuía grandes negócios financeiros, comprando em 1758 um castelo e fazenda perto de Genebra, instalando uma fábrica de tecidos e fabricação de relógios. Tornou-se rico, aproveitando para protestar contra a intolerância religiosa. Foi considerado o homem mais influente do séc. XVIII, fazendo poesia, prosa, teatro, historiografia e política. Algumas obras: Édipo (1718), Henriade (1728).

FRASES

* Deus me defende dos amigos, que dos inimigos me defendo eu.

* Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.

* Encontra-se oportunidade para fazer o mal cem vezes por dia e para fazer o bem uma vez por ano.

* Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve.

* O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá.

* Os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande.

* Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

* Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa.

* Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.
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NOTURNO

Literariamente falando,
refere-se a composição poética com característica noturna,
com tema específico
ou que retrata situação em que o escuro ou a treva,
tem conotação principal.
Vários autores compuseram noturnos entre eles:
Antero de Quental

NOTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da noite, e mais ninguém!

ANTERO DE QUENTAL
in: Odes Modernas
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LETRAS


PIERRÔ APAIXONADO

Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina,
Acabou chorando, acabou chorando.

A Colombina entrou no botequim,
Bebeu... bebeu... saiu assim... assim...
Dizendo: - Pierrô cacete, vai tomar sorvete
Com o Arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o Pierrô aconteceu assim...
Levando este grande shoot
Foi tomar vermuth
Com amendoim!

NOEL ROSA
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HERMANOS

CON LA PRIMAVERA

Con la primavera
Viene la canción,
La tristeza dulce
Y el galante amor.

Con la primavera
Viene una ansiedad
De pájaro preso
Que quiere volar.

No hay cetro más noble
Que el de padecer:
Sólo un rey existe:
El muerto es el rey.

JOSÉ MARTÍ
Poeta cubano
(1853 – 1895)
in: Poemas del Alma
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MULHER


A LARANJEIRA

Perfumada laranjeira,
Linda assim dessa maneira,
Sorrindo à luz do arrebol,
Toda em flores, branca toda
- Parece a noiva do Sol
Preparada para a boda.

E esposa do Sol, que a adora,
Com que cuidados divinos
Curva ela os ramos, agora!
E entre as folhas abrigados,
Seus filhos, frutos dourados,
Parecem sóis pequeninos.

JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida, escritora brasileira, nasceu a 24 de setembro de 1862 no Rio de Janeiro/RJ e lá faleceu a 30 de maio de 1934. Esposa do escritor Filinto de Almeida, colaborou semanalmente com A Gazeta. Com grande produção literária entre romances, contos, crônicas e literatura infantil.
Algumas Obras: A Família Medeiros (1911), Ânsia Eterna (1903).
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ERÓTICA


BEIJO ETERNO

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!

...

Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

CASTRO ALVES
in: Obras Completas
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ORIENTE

MENSAGEM TAOÍSTA

Dizem que um rio, por maior que seja, treme de medo antes de cair no oceano. Ele olha pra traz, para os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas e povoados, para todas as velhas e conhecidas jornadas. . . e depois vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre e esquecer o que se foi. Mas, não há outra maneira. . . o rio não pode voltar. É impossível voltar na existência, você pode ir apenas para a frente. O rio precisa ousar e entrar no oceano. E somente quando ele entra é que o medo some. Porque só então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano. Por um lado é desaparecer e por outro, renascer.
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PoetaS PortugueseS

285

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

1/10/1917

ALBERTO CAEIRO
in: Poemas Completos de Alberto Caeiro

ALBERTO CAEIRO, heterônimo de Fernando Pessoa, que segundo o próprio Fernando "poeta bucólico do gênero complicado, senti que havia nascido em mim o meu mestre." Foi o primeiro a nascer, é poeta das sensações puras, naturalista e cético, hostil às regras métricas e ao "vício de pensar." Obra: O Guardador de Rebanhos.
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NOVOS

LEILÃO

Vendem-se os óculos de Gandhi.
Compra-se água de Theri. Da Suez,
Água do Ganges. Brahma chopp.
Marcha do sal. Pré-sal. (Vendido!)

Vende-se o relógio de Gandhi.
Big Ben. Big Bang.
Caminho das Índias. Quit Índia.
Independência ou morte.

Compra-se amor.
Paz e amor. Guerra e paz.
Yoga sutra. Kama sutra.
Give peace a chance (Vendido!).

Compra-se a independência.
Jejum de lucros. Call centers. Tata.
Quem quer ser um milionário?
The Oscar goes to Gandhi.

Vende-se a sandália do Mahatma.
Filhos de Gandhi. Cordão de isolamento.
Sistema de castas. Apartheid.
Camiseta de Che Guevara.

Compram-se os óculos de Gandhi
O lance mínimo é de $20.000.
Satiagraha. Bomba atômica.
A liberdade de lucros e os lucros da liberdade.

A liberdade...

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in: www.mandandobrasa.blogspot.com
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A MÃO DO PAI

Eis que o menino admira ter na sua
a mão do pai, menos porque onde arrua
desenreda-se uma inteira Odisséia
do que por ser potro testando a rédea.
Também porque aquela mão, quando avulsa,
para outro menino os olhos assesta,
o menino que foi o pai e nele avulta
ao surpreender no mínimo suas festas.

De um tapume sozinho com suas nódoas,
da venda onde a fome se pesa à parte,
de um que se pendura de alegria e trastes
e outro cuja fala pijama as horas,
desses o pai sabe a fábula e glosa,
como de posse do olho de Balzac
tudo pudesse demudar em prosa
para adiar a morte daquela tarde.

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Juiz de Fora/MG
in: Um Dia, O Trem
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de lírio
em lírio
delírios

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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EXÍLIOS

A cidade se perde em seus próprios labirintos:
pelas serpentes de pedra e asfalto
corre pressuroso um rio de animais metálicos.

Não há mais lugar para os homens.
anônimos, como areia na ampulheta,
vamos caindo, atarefados,
em busca da outra margem:
a utopia.

A metrópole, como um ventre,
espera o desconhecido
e na sua imensa solidão geométrica
nascem catedrais de ausências.

O tempo, essa matéria difusa
me leva a mundos que eu sonhei um dia:

De Cataguases a Isfahan
de Brasília a Pasárgada,
quanto de mim vai ficando nos caminhos.

Quando contemplo
as montanhas nevadas de Teerã
desejo. como um pássaro,
ser vento e geografia.

RONALDO CAGIANO
São Paulo/SP
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AZUL

A infância é o fundo da memória.
Por isto é azul.

Este azul: flor de pétalas agudas
gravada a ferro-e-fogo sentimento.
Por isto não se apaga.

Esta presença:
projeção de raiz no tempo móvel.

Por isto às vezes dói como uma ausência.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/SF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
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e sinto perto
o mais ausente

sempre o indizível

neste modo mudo que se alarga
inundando feito mar

que não cabe
em lugar algum
senão dentro

e para onde vou
de olhos fechados
buscar

meus pássaros neste escuro

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
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SONHO

Deoclécio comia feijão na mesa posta do dia a dia. Deoclécio continuava comendo feijão na mesa posta do dia a dia. O feijão. . . e o sonho?

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Minicontos
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LIÇÕES DE CASA

- Minha tia, o que é milagre?

É o casamento do mistério
com a maravilha

a pérola que o alho é

a lua que faz a maré

perfume que sai da flor

ave no céu formiga no chão

criança que cai e não chora não

todo ovo que galinha bota

galo que ao sol se coloca
para em sol cantar

estrela que orienta
ar que deixa respirar

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
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DESPOJAMENTO

Não quero guardar relógios
ainda que à prova d’água,
preciso, apenas, do tempo,
mesmo que exposto à mágoas.

Não quero ter o cavalo,
ainda que todo branco,
quero, apenas, o galope,
mesmo manco.

Não finco estacas na lua,
nem quero a posse da estrela,
preciso, apenas, da luz
mesmo que de vela.

Não tenho bolso,
não guardo resto,
de tanta mão
só fica o gesto.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
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REFLEXOS

Não, você não me ama.

Apenas ama dentro de você
o reflexo que tem de mim.

Não ama a minha presença,
ama a minha companhia.

Você ama o meu sorriso,
não a minha alegria.

Os meus olhos,
nunca o que vejo.

Você em mim
ama a sua imagem,
mas meu amor não é espelho.

Não queira refletir-se nele
ele se quebrará.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
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SONETO AO MILLÔR

Não quis reescrever uma Odisséia,
mas, se reescrevesse, brilharia.
Deu peso de brilhante à ninharia.
Refiro-me ao filósofo do Méier.

Vão Gogo, comediante sem platéia,
seu público o invejava quando o lia.
Somou a gozação à rebeldia,
e um fã ganhou aqui na Paulicéia.

Já que a justiça farda mas não talha,
resolvo retratá-lo, em homenagem
quadrada, três por quatro, uma antiqualha.

Soneto, prum filósofo, é bobagem.
Não passa de acadêmica migalha
a quem faz humorismo com coragem.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia ilhada – Sonetos Tópicos
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AD LIBITUM

Toma-me
e me tome
em rápidos goles
e em grandes nacos...

Sou teu Forte
mais fraco
e, em ti, enxergo-me
ao longe, intacto...

Sou teu cravo
manso e bravo
porém,
posso ser cacto.

Devora-me
e me engula:
não engane
sua gula...

Encha-te de mim
e por fim
digere-me,
em plena fome:

minha alma,
meu nome
e pronomes.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
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INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas, você poderá encontrar na revista impressa: Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto e muita poesia...
UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO:
walmordario@ig.com.br
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OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Cerimônia das Flores
* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris

Valor: R$ 15,00 (cada)

* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio
* Nuvens de Sol

Valor: R$ 10,00 (cada)

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De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...

Valor: R$ 8,00 (cada)
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FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa

- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta

- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
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FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos

- Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog: http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
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14.6.09

POETIZANDO Nº 33
(Edição de Inverno)


PAISAGEM OUTONO – INVERNO

Foi rápido como as horas não percebidas
como o pensamento
Amanheceu folhas no chão
Coisas inesperadas do vento
chegou de mansinho
Sacudiu Fugiu

É o tempo

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
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AUTORES DO MÊS


JUNHO

ANTONIO DUARTE GOMES LEAL, poeta português, nasceu em Lisboa a 6 de junho de 1848 e faleceu na mesma cidade a 30 de janeiro de 1921. Seus poemas apontavam um caminho simbolista aparecendo nos jornais em 1866. Já em 1869, seu nome já aparecia como "poeta novo" ao lado de Teófilo Braga, Antero de Quental e Guerra Junqueiro. Foi poeta folhetinesco, panfletário e satírico, usando como temas a filosofia, a política e a religião.
Algumas Obras: Claridades do Sul (1875), História de Jesus (1883).

O VISIONÁRIO OU COR E SOM

2

Alucina-me a cor! – A rosa é como a Lira,
a Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
e é já velha a união, a núpcia sagrada,
entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, brota a flor, que não inspira,
a teatral camélia, a branca enfastiada,
muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
como a perdida cor dalguma flor que expira...

Há plantas ideais de um cântico divino,
irmãs do oboé, gémeas do violino,
há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada,
e o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
– tem notas marciais, soa como um clarim.

in: Claridades do Sul
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JULHO

EMÍLIO DE MENESES, poeta brasileiro, nasceu em Curitiba/PR a 4 de julho de 1866 e faleceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de 1918. Grande boêmio e satírico, transferiu-se para o Rio de Janeiro escrevendo crônicas para os jornais em que satirizava as figuras célebres da época. Aderiu ao Parnasianismo, produzindo rimas raras, contudo, sua importância maior foi como satírico. Depois de duas tentativas frustradas, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1914, mas não chegou a tomar posse, pois seu discurso foi considerado ofensivo aos imortais Oliveira Lima e Afrânio Coutinho.
Algumas Obras: Marcha Fúnebre (1892), Poemas da Morte (1901), Dias Irae (1906), Últimas Rimas (1917), Mortalhas – Os Deuses de Ceroula (1924 – póstumo).

ÚLTIMOS VERSOS

A arte, amigo, em noss'alma só se interna
Por caminho em que o uso é um empecilho,
É a dor, a eterna dor, a estrada eterna
Que eu, entre versos, pés sangrando, trilho,

Quantas vezes o atro fundo da cisterna
A água que dela sai mostra no brilho
É o fulgor de uma lágrima paterna
A refletir a imagem de um mau filho.

in: Esparsos e Inéditos
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AGOSTO

LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA, poeta brasileiro, nasceu em Santa Rita do Rio Claro/RJ a 17 de agosto de 1841 e faleceu em Niterói/RJ a 18 de fevereiro de 1875. Entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo, mas não concluiu o curso devido sua vida boêmia. Sua poesia teve várias fases: patriótica, lírica e religiosa. Somente depois de sua morte, a crítica reconheceu seus poemas elegíacos e a qualidade de sua literatura.
Algumas Obras: O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1866), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869).

SONETO

Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,

Beijava a onda n’um soluço mago
Das moles plumas a brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas ai! cedo fugiste!... da soidade,
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!

in: Vozes da América
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ORAÇÃO

Do português Oração,
Do espanhol Oración,
Do francês Oraison,
São derivados do séc. XII a XIV do eclesiástico Oratio, cedo popularizado na acepção religiosa. O mesmo que: discurso proferido pela boca, rezar, ler em voz alta, citar, que se obtém pela prece, rogar, suplicar. Segundo às perspectivas, através da oração, o homem é feito sujeito diante de Deus.

PAI NOSSO (EM GUARANI)
ORE RU

Orê ru, yvagape reimeva,
Tonhembojeroviákena nde rera,
Taoreanhuambá ne mborayhu,
Tojejapo ne rembipota ko yvy ári
yvagapeguaicna.

Eme’emo oréve ko ára kóavape,
Orê rembiurã opá ára roikoteveva.
Eheja reikena orêve orê mba’ê vaikuê
Rohejá re’haichá orê rapichápe hembiapô
vaikuê.
Anikena oremoingétei
Rojepy’á ra’ã vai haguame,
Há orê peákena m’baê pochy pogýgui.
Taupéicha.
___________

LETRAS


COM QUE ROUPA?

Agora vou mudar minha conduta
eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar.
Vou tratar você com força bruta
pra poder me reabilitar
pois esta vida não está sopa
e eu pergunto: com que roupa,
com que roupa eu vou
ao samba que você me convidou?

Seu português agora deu o fora.
Já foi-se embora
e levou seu capital.
Esqueceu quem tanto
amou outrora
foi no Adamastor pra Portugal
pra se casar com a cachopa

Eu hoje estou pulando como sapo
pra ver se escapo
desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo
eu vou acabar ficando nu.
Meu paletó virou estopa
eu nem sei mais com que roupa,
com que roupa que eu vou
ao samba que você me convidou?

Agora já não ando mais fagueiro
pois o dinheiro
não é fácil de ganhar
mesmo sendo um cabra trapaceiro
não consigo ter nem pra gastar.
Eu já corri de vento em popa
mas agora com que roupa,
com que roupa, eu vou
ao samba que você me convidou?

NOEL ROSA
__________


HERMANOS

SONETO XXXVII

Ayer naciste, y morirás mañana.
Para tan breve ser, quién te dió vida?
Para vivir tan poco estás lucida,
y para no ser nada estás lozana?

Si te engañó tu hermosura vana,
bien presta la verás desvanecida,
porque en tu hermosura está escondida
la ocasión de morir muerte temprana.

Cuando te corte la robusta mano,
ley de la agricultura permitida,
grosero aliento acabará tu suerte.

No salgas, que te aguarda algún tirano;
dilata tu nacer para tu vida,
que antecipas tu ser para tu muerte.

LUIS DE GÓNGORA


LUIS DE GÓNGORA Y ARGOTE (1561 – 1627). Foi ordenado sacerdote aos 56 anos, sendo capelão. Sua obra poética inclui sonetos, romances e peças longas de severa arquitetura, e é articulada numa sintaxe complexa, com riqueza de vocabulário e de construções metafóricas, que valeram ao autor a acusação de hermetismo e obscuridade. Foi admirado por Cervantes sendo chamado de "o Homero espanhol".
Algumas Obras: Fábula de Polifemo e Galatéia (1612), Soledades (1613), entre outras.
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MULHER

QUE PENSAS?

Que pensas agora, que dor tão profunda
As fibras do peito me vem estalar?
Talvez de saudades tu'alma se inunda,
Que a vida passada te faz recordar!

Também esta mente saudosa delira,
Que flor da tristeza só vem oscular,
Em pranto dorido minh' alma suspira
Sonhando contigo num doce lembrar.

As juras sagradas que em tão meigo enleio
Juraste é a fala convulsa d'amor,
Ainda palpitam aqui neste seio,
Qu' enluta amargoso, pungente tristor!

E sempre a lembrança da louca ternura
Abrasa a minh'alma de longa paixão,
Que desse passado, rosal de ventura,
Eu tenho o perfume no meu coração!

Ai doces momentos em férvido pranto,
Te digo chorando bem trêmulo - adeus...
Ai doces momentos, d' enlevo tão santo,
Ai vida d' amores tão puros, meu Deus!

(Porto Alegre, 8 de outubro de 1856)

RITA BARÉM DE MELO
(1840-1868)
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PoetaS PortugueseS

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de ouro e cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

FLORBELA ESPANCA

FLORBELA DE ALMA DA CONCEIÇÃO ESPANCA, nasceu em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894 e faleceu em Matosinhos a 8 de dezembro de 1930. De grande personalidade poética, foi autora de sonetos parnasianos que têm a exaltada sinceridade de uma confissão.
Algumas obras: Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1931 – obra póstuma), As Máscaras do Destino (1931 – contos – obra póstuma), O Dominó (1931 – contos – obra póstuma).
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ERÓTICA

INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO (fragmentos)

Aqui – já era noite. . . eu reclinei-me
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.

Aqui – inda era noite. . . eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.

. . .

Aqui – era manhã. . . via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.

. . .

Aqui – oh quantas vezes!. . . eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.

Aqui – oh quantas vezes!. . . eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!

JUNQUEIRA FREIRE
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FÁBULA

O URSINHO E AS ABELHAS

Um ursinho que gostava muito de pintar telas, andava curioso pelo bosque, quando viu um buraco no tronco de uma árvore.
Olhando bem, percebeu que naquele buraco havia um vaivém contínuo de abelhas. - O que fazer?
Algumas delas, batendo as asas, giravam em volta do buraco como se estivessem de sentinela; outras, vindas de longe, entravam; algumas saíam e desapareciam no bosque. O ursinho, sempre curioso, esticou-se e pôs o focinho no buraco; farejou e depois enfiou uma das patas lá dentro. Quando a retirou, vinha escorrendo mel. Mal havia começado a lambê-la, saiu do buraco uma nuvem de abelhas furiosas que se lançaram sobre ele picando o nariz, o focinho, as orelhas . . .
O ursinho tentou se defender, mas as abelhas sempre voltavam. Furioso, tentou se vingar correndo atrás de uma ou outra, mas não conseguiu se vingar de nenhuma; por fim rolou na terra, vencido pelo terror e pelas picadas, e correu chorando para junto da mãe.
Nunca se deve meter o focinho onde não é chamado!
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ORIENTE

A LOJA DE DEUS
Conto Oriental Tradicional

Entrei numa loja e vi um senhor no balcão. Maravilhada com a beleza da loja, perguntei:
- Senhor, o que vendes aqui?
- Todos os dons de Deus.
- E custa muito? Voltei a perguntar.
- Não custa nada, aqui tudo é de graça.
Contemplei a loja e vi que havia jarros de amor, vidros de fé, pacotes de esperança, caixinhas da salvação, muita sabedoria, saúde, fardos de perdão, pacotes grandes de paz e muitos outros dons de Deus. Tomei coragem e pedi:
- Por favor, quero o maior jarro de amor de Deus, todos os fardos de perdão, um vidro grande de fé, muita saúde, esperança, bastante felicidade e salvação eterna para mim e toda minha família.
Então o senhor preparou tudo e entregou-me um pequenino embrulho que cabia na palma de minha mão. Incrédula, disse:
- Mas como é possível estar tudo que pedi aqui?
Sorrindo, o senhor me respondeu:
- Minha querida irmã, na loja de Deus não vendemos frutos, só as sementes. Plante-as! Plante essas sementes, cultive-as no coração e distribua-as gratuitamente ao próximo.
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LENDAS INDÍGENAS

MARAÍ

Maraí, uma jovem e bela índia, muito amava a natureza. À noite ficava a contemplar a chegada da Lua e das estrelas. Nasceu-lhe, então, um forte desejo de tornar-se uma estrela. Perguntou ao pai como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, veio a saber que Jacy, a Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas,
transformava-as em estrelas.
Muitos dias se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Resolveu então aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que esta apareceu, Maraí encantou-se com sua imagem refletida na água, sendo atraída para dentro do lago, de onde não mais voltou.
A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a numa bela planta, ganhando o nome de Mumuru, a vitória-régia.
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NOVOS

IMPRECAÇÃO

Por que me deste
um barco tão pequenino
para um mar tão grande assim?

Sem remo sem vela
sem roteiro e sem bonança
não terá praia nem fim

Se ao menos o meu barquinho
pudesse ser ancorado
num grão de areia sequer

Mas onde está essa ilha
que vai sumindo de vista
à vista do meu batel?

Quando me fizeste ao largo
não viste que minha frota
era papel?

Como queres que eu navegue
por esse mar tenebroso
numa lembrança de barco?

Pois agora lá de cima
manda uma ilha fincada
numa âncora de luz

O mar não será tão grande
nem o barco tão pequeno
no horizonte sem fim

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
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CABEDELO

Há muito, já, que caminho.
Há muito que me demoro
neste barro quente e duro
por onde andar virou sina.

Andar, dizer-se em fadiga,
quando a sede ainda é nada
significa perder-se
depois de surgida a casa.

Eu ando pelo objeto
de caminhar e saber-se
caminhador sem fronteira.
eu ando pra que não chegue

o lugar que desconheço.
Eu ando como encantado
à margem desabitada
e escura do rio primeiro.

Eu ando como um menino
em busca de um sol inteiro.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
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IMPURO POEMA

Poesia trafega
na contramão
do estabelecido.

Por vezes singra
em versamorosidades.

Noutras encontra
(o)dores & secreções.

Suja ou casta
iconoclasta
poesia nutre-se da vida.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
__________________________

POEMA Nº 9

Para Henriqueta Lisboa

Sou
girassol girando em
torno da sua boca;
e a sonora harmonia
do universo.
Sou
a gota do orvalho
que some com o sol.
Sou
roteiro das surpresas
onde irei encontrar
o definitivo da vida.
Sou
um poema forte, viril,
duro, despido e afirmado.
Sou
folhas do calendário
despregando todos os dias.
Sou
a dimensão perante
o mundo e o universo.
Sou
vento gritando
as maldições do tempo.
Sou
um besouro cego
teimando sobre um
quadro na parede.
Sou
a oscilação de uma emoção;
a certeza de vê-la na tela
da vida.
Sou
desespero da consciência
onde meu pensamento
irá rasgar o tempo.
Sou
pedaço da solidão
entre as pedras
ignoradas que
o tempo esqueceu.
Sou
a intensidade dos
raios solares onde
irei envolver
sua sombra.

LUIZ FERNANDES DA SILVA
João Pessoa/PB
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PUREZA

As luzes se apagaram de repente.
E redescubro, em plena noite urbana,
o céu de minha infância.

Lírico céu noturno,
céu lavado de chuva, céu telúrico.
Estrelas, altas estrelas,
e ao nível de meu gesto os pirilampos.
Odor de terra e mato.
Sarapatel de sons: corujas, grilos, sapos.
Intimidades de capim e orvalho.
O gosto
bom de uma argila ainda não corrompida.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
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CENÁRIO TEATRAL

Nos becos os sonhos escondidos transmutam-se.
E riscamos Cinderelas, cavalos brancos e príncipes.
O cachorro companheiro espreita pedindo afeto
e caminhamos de sapatos sujos, rotos,
amargando o frio das ruas.
A noite vai e volta e o dia não nos ilumina.
Embolados em jornais ou cobertos em trapos,
montamos um cenário teatral,
escondidos nas sucatas de automóveis.
Os estômagos tocam a música da fome
e se contorcem bailarinos
numa dança de revolta e oração.
Os Deuses de costas nos testam
e andarilhos, revivemos a Divina Comédia.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
___________

FRATELLO

Ressuscitei tua
foto 3X4
em branco e preto.

Teu olhar extraviado
de cachorro pidão
aproximou o
tempo distante.

Chorei
abraçada na alegria.

Fechei a gaveta
silenciei falando.

ZAIRA CANTARELLI
Porto Alegre/RS
in: Estalo nº 4
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PICASSO

Rosto liberto
da moldura
das feições
Concavidades
de convexas
aflições
Caos
na tauromaquia dos traços
de acrobatas pesadelos
em saltimbancos horrores
no verde-gris de Guernica.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
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USE - ME

Não, não atente para o que digo
capte nas entrelinhas do meu silêncio,
meu mais capcioso silêncio,
é sempre ele que fala por mim.
Não, não atente par o que digo,
veja o que faço
o que tenho feito
e o que deixo de fazer.
Não, não atente para o que digo.
veja pra onde levam meus passos.
Palavras são de dizer, intencionais ou não.
Palavras ficam ou vão
se dissipam no tempo
que me interessa é o ato
esse sim é perene
indelével
a palavra é de todos
o sentimento é de um só
um unicamente.

Sim, use-me em ti
Objeto direto
Abstração do concreto
Língua e lábios,
Labirinto, palavras.
Use-me
Até que eu perca os sentidos
Os cinco
Cínicos
Oníricos, lirismo gestual
Use-me sem sentido
Sentindo
E eu uso-te são
tesão.

BEBEL MENDONÇA (Campinas/SP)
LEANDRO LUIZ RODRIGUES (Santos/SP)
in: www.mandandobrasa.blogspot.com
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O poeta morreu
enquanto eu estava na rua.
Morreu e pronto.
Quando voltei já estava morto
sem que eu pudesse esboçar
a mínima reação
a tão insólita idéia.
O poeta morreu
enquanto eu estava na rua
desprevenido que estava.
Morreu sem deixar um aviso,
um bilhetinho na porta,
um adeus que fosse
ou coisa que o valha.
O poeta morreu e pronto.
O poeta morreu no Rio de Janeiro
enquanto eu jantava despreocupado
num restaurante em São Paulo.
Morreu sem licença poética.
Nem minha nem do Presidente.
É que, talvez, estivesse cansado de ser poeta.
Mas, também, não precisava sair assim,
à francesa,
só porque já tinha feito tudo,
sido o melhor,
quitado o assunto.
O poeta morreu e pronto.
O poeta morreu e pranto.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
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LIÇÕES DE CASA

- E é isso então o amor, irmãos?

Não, o amor também é lampião longe no mar
é vela acesa pagando promessa
e talvez por ignorância e sem pressa
o amor é só amor, simples como o ar
nas pessoas que vivem a amar

E o amor está ali na sopa fumegando
no botão bem pregado
no chá pro resfriado
na pomada e nas gavetas
na água para as plantas
no brilho das panelas
na vassoura e nos panos
nos cabelos penteados
nas cartas nos selos
em tudo está ao nosso lado
o amor, coisa dos humanos

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
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como pássaros
alijados de vôo
meus sonhos
ancoram nas pedras
criam crostas
cascas
depois descamam
feito pele
feito pó

mas sempre acabam
espalhados pelos céus
no revôo do vento
no refugo da fé

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
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CASA

. . . Antonia tinha vida, apesar de não saber. . . Cozia, cozia, cozia. Na casa, esperava Pedro ou João. Não importava. Todo o resto tinha ficado num retrato na parede. . .

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Microcontos
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IDÉIA

Em um terreno baldio
havia lixo, lama, lágrimas.
Abandono urbano.

Vieram mãos e sementes
e coração humano.
Idéias, atitudes e urgências
brotaram no terreno baldio.

Flor que aflorou sorrisos.
Esperanças no plantio.

Que matou a fome
e adotou um nome.

Horta comunitária!

Cresceu explodindo em frutos,
a idéia solidária.

DALVA ARAÚJO
Santos/SP
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O NEVOEIRO COBRE A CIDADE

o nevoeiro cobre a cidade
que lentamente acorda na madrugada.
os pássaros ainda não regressaram
por isso as suas vozes não se ouvem.
os carros que passam lá fora
produzem o único som na cidade ensonada.
um cão levanta-se
e rebusca os caixotes.
a árvore preguiçosa agita as folhas.
progressivamente o nevoeiro
vai-se tornando cada vez mais denso
e só então começa verdadeiramente a história...
...agora cada um é por si.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
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ECO

Minha voz se levanta como um dardo
mirando teus ouvidos sem pudor
e vai veloz, cantante como um bardo
para ofertar-te todo o meu amor.

Dizer que te amo já não é segredo
o Universo imenso já o sabe
Mas minha voz insiste, tão sem medo,
quer a felicidade que me cabe.

Depois...
cala-se quieta e ressentida
voltando para mim qual eco rouco
ao sentir, num segundo, entristecida,
que tu não a ouviste nem um pouco.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
__________

IMOBILIDADE

Pelo vão da janela,
só um galho
seco
retorcido
- nenhuma gota de orvalho.

Pela estreita passagem,
retalho de ondas,
pedaço de mar,
só uma asa
- miragem.

Pela réstia de luz,
nem meia varanda,
nesga de chão,
só um pé
- que não anda.

Do meu ângulo oculto,
só o meu olhar
- sepulto.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

OLHO MUDO

a moldura atura
o falso retrato

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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Lua cheia de graça
Meus olhos te fitam
Meu pensamento vai longe.
*
Nos teus olhos negros
Duas luas-cheias vêm
Me afogar de amor.
*
Ó lua querida
Estás mais perto do que ele
Nesta noite mágica
*
Céu azul aberto
Sensação de plenitude
Tudo está tão certo!
*
Esperta rolinha
Cisca na grama o alimento
Adeus minhoquinha...
*
Não se bica todo o amor
Mas se é bem intenso
Pouco já é bastante...
*
Não sabem se voam
Ou dão pulinhos na grama
Pombas vacilantes.
*
Pétalas macias
Flores seduzem e atraem
Mãos que acariciam.

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

SONETO PRETENSIOSO

Qual o grande segredo
que você esconde neste olhar
que, de tão enorme, consegue colocar
em mim: prazer, dúvida e medo?

E qual seria o grande desejo
que inunda o teu coração
que cala minha voz e canção
me deixa suspenso em seu beijo?

E qual seria a resposta
tão exata quanto definitiva
que manteria a alma viva

que dissesse do que você gosta?
Tomara que, ao pensar, enfim
você encontre a resposta em mim.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
___________

CHAMADO

Daqui
destes degraus batidos pelo vento
de rocha nua
- o cais noturno de se esperar -
daqui eu olho as ondas entrechocando-se...

Na sua voz
vibra a dos afogados
a dos perdidos
a de todos os náufragos.

Escute!
Há um S.O.S. tardio na voz do oceano
Um apelo desesperado
vindo de abismos insondáveis.
Como que um chamado...

E eu daqui
destes degraus batidos pelo vento
fito ao longe o mar
as ondas súbitas do mar
tragando, com violência
meu corpo inerte
no seu verde caos.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
_______________

SONETO AO MAIOR

Maior é o sentimento que o sentido.
Maior é a solidão do que a saudade.
Maior é a precisão do que a vontade.
Maior é Deus, segundo o desvalido.

Maior é o sabichão do que o sabido.
Maior é a servidão do que a majestade.
Maior é o masoquismo do que Sade.
Maior é o meu poeta preferido.

Quem faz muito soneto, cedo ou tarde
acaba produzindo uma obra-prima,
contanto que não faça muito alarde.

Por trás da mera métrica ou da rima
esconde-se a coragem do covarde
e o medo, que jamais me desanima.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
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FUGAZ

Na penumbra da taberna
eles vão se embriagando
e elas, junto dos tonéis,
se encostando perna a perna,
vão logo se insinuando,
descobrindo-se dos véus.

Bêbados, olhos vidrados,
cheirando a uísque e cigarro
e com suas mãos enormes
procuram os seus agrados
como se fossem de barro
rindo seus risos disformes.

Elas, de bocas vermelhas
e azul nos olhos borrados
sem brilho, sem luz no olhar
levantam as sobrancelhas
e atiram-se aos desgraçados
ali, no escuro do bar.

Deixam os sonhos de lado
e gozam só seus momentos.
Esquecem os seus deslizes
esquecem o seu passado
e não choram seus lamentos
mas sabem: são infelizes.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
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23.3.09

POETIZANDO Nº 32
(Edição de Outono)



OUTONO

Fim de tarde virá
mover sinos
porque Deus, sei...
mãos maduras põe
no andar das horas.
Calçadas acarpetadas
de amareladas folhas
são danças de ir embora
sob um sol de maio.
Acordará de novo
tudo que anoitece.
Flores darão frutos,
sobrarão vôos azuis
dos casulos emergentes.
Gestação da vida!
Somos sopro, outono:
cigarro na esquina
roupa no varal
água do moinho
cigarra no quintal.

Quero estar contigo
no que sobrar de abrigo
depois do vendaval.

LARÍ FRANCESCHETTO
Veranópolis/RS
______________


AUTORES DO MÊS


MARÇO

SULLY PRUDHOMME, pseudônimo de René François Armand Prudhomme, escritor francês, nasceu em Paris a 16 de março de 1839 e faleceu em Chatenay-Malabry a 6 de setembro de 1907. Foi empregado de uma usina metalúrgica abandonando o posto para dedicar-se às letras. Poeta parnasiano de preocupações filosóficas com versos didáticos. Assumiu uma cadeira na Academia Francesa de Letras em 1881, sendo o primeiro escritor a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1901. Algumas obras: Estâncias e Poemas (1865), As Solidões (1869), Os Destinos (1872), As Ternuras Vãs (1875), A Felicidade (1888).

O VASO QUEBRADO (fragmentos)

O vaso desta flor, que morre breve,
Feriu-o um dia um leque distraído,
E de um golpe tão rápido, tão leve,
Que nem se ouviu o mínimo estalido.

Mas a tênue ferida traiçoeira,
No límpido cristal rasgando a taça,
Lentamente cresceu, de tal maneira,
Que, invisível, o vaso todo abraça.

(...)

Tal, às vezes, da linda mão querida
Tocado, o coração chora e padece;
E, enfim, cedendo à pérfida ferida,
Parte-se, a flor do seu amor fenece.

Perfeito e alegre ele aparece ao mundo;
Porém, sem a denúncia de um gemido,
Sente o golpe crescendo-se profundo...
Não lhe toqueis: - é um coração partido!

Tradução: Valentim Magalhães

ABRIL

VICENTE AUGUSTO DE CARVALHO, poeta brasileiro, nasceu em Santos/SP a 5 de abril de 1866 e faleceu em São Paulo/SP a 22 de abril de 1924. Formou-se em advocacia e militou em favor do abolicionismo e da república. Considerado um dos maiores representantes do Parnasianismo no Brasil. Sofreu influência de Victor Hugo, destacando-se em suas obras, o soneto. Foi chamado "o poeta do mar", tendo produzido poemas populares evidenciando o amor à natureza. Seu nome poderia ser incluído na tríade do Parnasianismo brasileiro junto com Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, não tomando posse. Algumas obras: Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908).

ESPERANÇA

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

in: Poemas e Canções

MAIO

THOMAS MOORE, poeta irlandês, nasceu em Dublin a 28 de maio de 1779 e faleceu em Sloperton, perto de Londres a 28 de fevereiro de 1852. Começou sua carreira como tradutor das odes de Anacreonte em 1800. Produziu baladas e canções eróticas que lhe deram prestígio na sociedade elegante de Londres. Fez viagem às Bermudas. Pertenceu a famosa geração dos Lake Poets (Poetas do Lago), do qual entegravam Wordsworth, Coleridge, Southey, Campbell, Landor.
Algumas Obras: Melodias Irlandesas (1807), Lalla Rookh (1817).

A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO

É a última rosa
Do Verão, sozinha;
Nenhuma outra resta
Formosa e vizinha,
Nenhuma irmã sua
ou botão de rosa
Responde aos suspiros
Que exala, formosa.
Não quero deixar-te
Sozinha a florir:
Tuas irmãs dormem,
Vai também dormir.
Por isso eis que espalho
Tuas folhas no chão,
Onde as irmãs tuas
Já mortas estão.
Tão breve eu vá quando
Os que amo fugirem,
E do anel do amor
As jóias caírem.
Caídos os que amam
No sono profundo,
Quem habitaria
Sozinho este mundo?

THOMAS MOORE
Tradução: Fernando Pessoa
__________________________

PRECE

O mesmo que súplica mística, oração, reza. Em sentido mais amplo, orações ou pedidos que são dirigidas a Deus por ocasião de alguma enfermidade ou calamidade.

PRECE

Ó Deus
Tirai do meu coração todo ressentimento,
embora pareça justo!
Da minha boca, todas as pragas,
embora pareçam inócuas!

Dai-me forças
para jamais me revoltar
contra o julgamento dos maus...

Dai-me, também, coragem para aceitar
e capacidade para agradecer
o julgamento dos bons...

Porém, sobretudo, afinai a minha lira
para entoar louvores
aos homens de boa vontade!

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

LETRAS

PALPITE INFELIZ

Quem é você que não sabe o que diz
meu Deus do céu, que palpite infeliz.
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz
que sempre souberam muito bem
que a Vila não quer abafar ninguém
só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poemas lá na Vila é um brinquedo
ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
você não viu porque não quis.
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
que tira samba mas não quer tirar patente
pra que ligar a quem não sabe
aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

NOEL ROSA
_____________________________


HERMANOS

CANCIÓN (fragmentos)

(...)

Si aquella amarillez y los sospiros,
salidos sin licencia de su dueño,
si aquel hondo silencio no han podido
un sentimiento grande ni pequeño
mover en vos que baste a convertiros
a siquiera saber que soy nacido,
baste ya haber sufrido
tanto tiempo, a pesar de lo que basto,
que a mí mismo contrasto,
dándome a entender que mi flaqueza
me tiene en la tristeza
en que estoy puesto, y no lo que yo entiendo:
así que con flaqueza me defiendo.

(...)

Canción, no has de tener
conmigo que ver más en malo o en bueno;
trátame como ajeno,
que no te faltará de quien lo aprendas.
Si has miedo que m’ofendas,
no quieras hacer más por mi derecho
de lo que hice yo, qu’el mal me he hecho.

GARCILASO DE LA VEGA

GARCILASO DE LA VEGA, poeta espanhol, nasceu em Toledo, provavelmente em 1503 e faleceu em Nice a 14 de outubro de 1536. Foi considerado um dos maiores poetas espanhóis de todos os tempos.
Obra: As Obras de Garcilaso de La Vega.
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MULHER

SONETO

Ainda um ano, filha, hoje se escôa
do tempo na ampulheta, que não cansa;
e nem sequer mitiga uma esperança
a dôr de te perder, que me magôa.

O alígero tempo, quando vôa,
os males nos apaga da lembrança;
mas do martírio meu não há mudança
nos agudos espinhos da corôa.

Antes, para agravar-me a desventura,
da vida apenas na ridente aurora,
rouba-me a morte inexorável, dura,

teu filhinho adorado, a quem, outróra,
beijei mil vêzes, louca de ternura,
e que, louca de dôr, pranteio agora!

ADÉLIA FONSECA
(1827 - 1920)
Bahia/Brasil
in: Coletânea de Poetas Bahianos
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PoetaS PortugueseS

ROSA E LÍRIO

A rosa
é formosa
bem sei.
Porque lhe chamam - flor
d'amor,
não sei.
A flor,
bem de amor
é o lírio.
Tem mel no aroma, - dor
na cor,
o lírio.
Se o cheiro
é fagueiro
na rosa;
se é de beleza - mor,
primor
a rosa:
no lírio
o martírio
que é meu
pintado vejo: - cor
e ardor.
É o meu.
A rosa
é formosa,
bem sei...
E será de outros flor
d'amor...
Não sei.

ALMEIDA GARRETT
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ERÓTICA

ELEGIA
INDO PARA O LEITO (fragmento)

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.

JOHN DONNE
Inglaterra

JOHN DONNE, poeta e orador sacro inglês, nasceu em Londres em 1572 e faleceu na mesma cidade a 31 de março de 1631. Adquiriu grande prestígio entre seus contemporâneos como poeta. Foi considerado personalidade difícil e contrária às convenções literárias. Poeta metafísico, foi inovador que se rebelou às produções do renascimento petrarquista. Eliminou a mitologia e a repetição de imagens clássicas, o amor sentimentalizado e o estilo melodioso. Foi autor de alguns dos mais apaixonados poemas eróticos da língua inglesa.
Algumas Obras: Elegias, Canções e Sonetos, A Ascensão da Alma (1601), O Conclave de Inácio (1611), Sonetos Sacros (1617).
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FÁBULA

A GALINHA RUIVA

Um dia uma galinha ruiva encontrou um grão de trigo.
- Quem me ajuda a plantar este trigo? - perguntou aos seus amigos.- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu planto sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Logo o trigo começou a brotar e as folhinhas, bem verdinhas, a despontar. O sol brilhou, a chuva caiu e o trigo cresceu e cresceu, até ficar bem alto e maduro.
- Quem me ajuda a colher o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu colho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a debulhar o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu debulho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a levar o trigo ao moinho? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu levo sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Quando, mais tarde, voltou com a farinha, perguntou:
- Quem me ajuda a assar essa farinha?
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu asso sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. A galinha ruiva assou a farinha e com ela fez um lindo pão.
- Quem quer comer esse pão? - perguntou a galinha.
- Eu quero! - disse o cão.
- Eu quero! - disse o gato.
- Eu quero! - disse o porquinho.
- Eu quero! - disse o peru.
- Isso é que não! Sou eu quem vai comer esse pão! - disse a galinha. – Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.

Recontada por Penryhn Coussens
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LENDAS INDÍGENAS

MARA

Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz.
Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos como por encanto.
Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros quanto a luz do luar. Deram-lhe o nome de Mandi e na tribo ela era adorada como uma divindade.
Pouco tempo depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em sua oca, por não querer separar-se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local, deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim a filhinha voltasse à vida, pensava. Até que um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto. A mãe surpreendeu- se; talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra, encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi, que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável.
Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no principal alimento indígena.
O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi fora sepultada na oca.
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NOVOS

LIMPEZA

O tempo, tricotando as horas,
tece tapetes, tece tapetes.
E na sala indimensional
estende-os sob suas redes.
Alguém se deita, alguém se levanta,
alguém já nada pode.
O pó de sapatos já sem rumo
infiltra-se no assoalho.
Alguém diz: "Sei que nada valho",
alguém grita: "Sei que tudo posso";
alguém se levanta, alguém se deita,
e a sala nunca está vazia.
Uma criada muda incessante-
mente circula entre os transeuntes;
vai varrendo as poeiras que jazem.
Lixo que, como toda criada,
sob os tapetes de silêncio
cuidadosamente acumula.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro

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ATROCIDADE

O destino segura a agulha
e tece tramas fechadas
O povo segue na senda
num esquivo de azares,
feito jogo de ARRAIA
A cidade imóvel aos teus olhares
enterra meninos carentes;
ressuscita gritos contidos
de medo, do vírus da peste, da vida
A hora encerrada na noite
lameia escadas da cidade
de sangue, choro e suor.
Bocas argolam o medo
e fantasiam o corpo de morte
No canto um coro diz: Basta!
Deuses aquietem os Demos!
E guardem estes anjos
brilhando em focos dourados
liricamente ritmados nas luzes
diluídas da esperança!

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
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A RODA

A roda gira gira
sem começo nem fim
ganha o mundo
pelo chão
com um espeto
atravessado
no meio do coração.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
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SONETO SAUDOSISTA

No Rio existe um bairro sobre o morro,
antigo, arborizado, todo urbano.
Ali, em setenta e sete, o melhor ano
vivi desta vidinha de cachorro.

Não é Santa Teresa que percorro.
Agora sou de novo um paulistano.
Já cego, vejo o mundo de outro plano.
Em sonho, deixo o corpo, mas não morro.

Viajo pelas ruas sobre o trilho.
O bonde aberto corre, beira o abismo.
Sou livre, não me escondo nem me humilho.

Mas volto ao meu exílio quando cismo
que posso ter deixado ali meu filho,
dum tempo em que amor livre era anarquismo.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
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INTERAÇÃO

EXISTE ALGO DENTRO DE MIM
É QUANDO FECHO OS OLHOS
E É QUANDO REALMENTE VEJO

É A VISÃO SEM VISÃO

APREENSÃO FLUÍDICA
DO INATINGÍVEL

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
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CANÇÃO PARA TEREZINHA

Quando conheci Terezinha
ela trabalhava como vedete principal
numa velha canção de ninar.
Eu me acostumei com o acalanto
e me acostumei com o sono
angustiado que era
pela queda que a levou ao chão.

Outro dia
quando encontrei Terezinha na praia
e ela me olhou distante
e me disse assim muito prazer,
reconheci a antiga atriz
que se vê toda noite na tevê
sem que ela nos veja.

E compreendi, finalmente,
mesmo sem ser ela de Jesus
nem eu o terceiro homem
a quem deu a mão um dia,
que era esta a que me acalentava as noites,
me secava as feridas
e me assoprava a vida.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
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O PÃO REPARTIDO

Vos concedo a graça
da palavra pão
repartida em nacos
para o horror das bocas
amargando fomes
mastigando mortes
cuspindo silêncios
não o pão concreto
mas só a palavra.

Vos dou o direito
de comê-la inteira
com sabor nas línguas
fracionando as letras
ingerindo os sons
mordendo os sentidos
não o pão dos fornos
apenas a idéia.

Pode o pão que oferto
dar sustento a todos
no rigor das fábricas
no amargor dos campos
no calor das ruas
não o pão que é pão
mas o que é poesia.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
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HAICAIS

No meio da noite,
alguém tosse igual meu pai
e acorda a saudade
*
Paisagem azul
a me recordar Monet
- glicínias em flor
*
Cão chega molhado
da caminhada noturna
- orvalho no campo

MADÔ MARTINS
Santos/SP
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INSTANTE

No pátio do hotel
as folhas vermelhas
caídas no chão.

A entrada, o tapete,
três folhas caídas
da minha mão.

Silêncio amarelo:
furtivo momento
em que fui outono.

LUCIA FONSECA
Rio de Janeiro/RJ
in: O Paraíso Era Antes
Editora da Palavra
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alguma coisa
quebrada
não se fez ouvir
a queda
a fala
asa partida de louça
seqüela entorpecida

como aquela solidão
pregada na janela
olhos perdidos no chão
alma guardada
debruçada na amplidão
pendurada no nada

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
______________

TESTAMENTO

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Minha poesia é assim,
suja, feia, incomum,
tem meu jeito de ser,
é coberta de desdém,
é feita de muitas vidas,
é louca, é desmedida,
é ferida de todo alguém.
Minha poesia é assim,
velha, fria, incontrolável,
memória do meu passado,
resto de coisas afins,
lembrança deixada n’alma,
a flor, o ferro, a palma,
a tua vida marcada.
Por isso deixo em testamento
nenhuma coisa sequer,
somente a pena na folha,
um resto de noite na alma,
a lágrima que molha.
A minha poesia é assim,
presente que não viveu,
passado já esquecido,
futuro que não terá,
o beijo que não se deu,
o abraço não conseguido,
o poema que não se fará.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
______________

CADÊNCIA

No dopler colorido
ouço o som da VIDA
vibrando dentro de mim.
Lateja o sangue vermelho
como num grande espelho
entre o azul e o carmim.
Num ritmo denso e pulsante
corre meu sangue incessante
fantástico tamborim.
Sem descanso me acompanha
pelas manhãs radiosas
da sucessão dos meus dias
pelas tardes venturosas
pelas noites nebulosas
das minhas horas vazias.
Ouço no som da VIDA
o pulsar primevo do mundo
o vagido mais profundo
o fluxo e o refluxo das marés
os escravos das galés.
Corre o sangue, forte e sincopado,
em meu coração, eterno aliado,
do acme orgástico do prazer
nessa espetacular aventura
que é VIVER!

NEIVA PAVESI
Santos/SP
____________

TROVA

Olho o céu, a noite é calma,
sinto as carícias da lua.
A tropeçar em sua alma,
segue um mendigo, na rua.

HUMBERTO DEL MAESTRO
Vitória/ES
in: Trovas, Haicais e outros Poemas
_______________________________

RETORNO

Devolvam-me
certas paisagens
passagens voláteis
na memória.

Devolvam-me
tantos acordes
em dissonância
a vida agora
só diz sim...

Devolvam-me
todas as cores
fragrâncias
do imaginário mágico
que eu tinha.

Cobrem-me as contas depois...

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
________________________

FAMA & GLÓRIA

No terraço
do bar
da 6th street
ao fim da tarde
também tenho
o meu lugar
ao sol.

Quinze minutos
de glória tranquila
de fama morna
e de cerveja gelada
em Austin,
no Texas.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
_______________

POEMA DA CIDADE

Para o amigo José Lucio Souza

Escrevo para a cidade
para seus flamboyants
que acolhem bem-te-vis
em todas as estações.

Escrevo para os homens
de coração comum,
mente lúcida
e jeitos de moleque.

Para as bicicletas que levam frutas
para agradar alguém que se ama.
E para os cães de rua que sugam nossa alma
com olhos de quem só espera afeto.

Escrevo como quem nada espera
e que no dia de todas as devoções
se entrega largo a um abraço
a amigos e desconhecidos.

Escrevo para você esta carta
simulada em livres versos,
para lembrar que somos irmãos
de toda estrela, galho ou terra,
e que somos donos, tão somente,
tão somente de coisa nenhuma.

Nessa noite fria, escrevo para a cidade,
para suas amendoeiras e acácias,
suas almas de gente oriunda de toda parte.

CAMILO MOTA
Saquarema/RJ
in: Poésis nº 149
______________

LIÇÕES DE CASA

- Mas, irmãos, é só isso o amor?

Não, pensando bem, o amor também
é luz de chama em copo de azeite
ardendo mais e mais quanto mais venta
na casa das pessoas sem vintém...

... gente que chora e que ri nos velórios
e tira o peito para dar o leite
e acena com lenços para a História
ergue o nenê para ver o artista
gente que morre nas guerras e pestes
nos genocídios e nos atropelamentos

gente a correr sem entender terremotos
bombardeios filósofos conquistas
desabamentos a política o terror
a chuva de granizo e a falta de amor
a ferir mais que a falta de juízo

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
____________________

das lutas
nem todas são vãs

nem todas vão
para os divãs

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
_______________

DEUS

Deus é o murmúrio das águas do rio
batendo nas pedras,
é o raio dourado no alvorecer
Deus é Paz,
é meu sangue correndo nas veias,
é a vida.
É o suor da lida do homem do campo,
é a lágrima do sentimento puro
da dor,
da alegria,
da saudade.
Deus é o cântico das aves que brindam a floresta,
é o canto da chuva,
do mar,
do trovão,
o estalar do raio, o clarão do relâmpago.
Deus
é o cheiro do mato,
o sentido do tato no abraço morno
nas noites de amor.
É o inseto que voa,
o animal que rasteja, que salta, que preserva
o equilíbrio da espécie.
Deus é o homem,
é o bicho,
é a planta.
É o Universo perfeito, em equilíbrio.
é a luz que rege o sistema.
Deus é poema...
É canto, é alegria,
é musica.
DEUS? É HARMONIA.

DALVA ARAÚJO
Santos/SP
____________

TEATRO DE SOMBRAS

Imagens esparsas pelo ar,
borboletas de asas abertas a voar...
Surge à lembrança: sombras à luz da vela.
Serão as rezadeiras na capela?

Eis que entre duas cadeiras,
o pano branco e fino é estendido.
Nenhuma ruga ou frouxidão.
E as imagens de papel correm de mão em mão.

Silhuetas recortadas ganham vida,
suspensas nas asas da imaginação.
Em semicírculos, crianças embevecidas
e nos olhos sonhadores, a ilusão.

Dedos hábeis manipulam as formas,
marionetes no alvo pano de algodão...
E de um lado e do outro do tecido,
o sentimento alinhava a composição.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

RECICLAGEM

Do esperma reciclado faz-se vida;
Do arroz reciclado faz-se bolinho;
Da careta reciclada faz-se riso;
Do vírus reciclado faz-se vacina;

Do novelo reciclado faz-se casaco;
Da areia reciclada faz-se castelo;
Do louco reciclado faz-se gênio;
Do discípulo reciclado faz-se mestre;

Do inverno reciclado faz-se primavera;
Da erva reciclada faz-se chá;
Do country reciclado faz-se rock;
Do almoço reciclado faz-se jantar;

Do sapo reciclado faz-se príncipe;
Da debutante reciclada faz-se noiva;
Da paisagem reciclada faz-se quadro
E do lixo reciclado faz-se arte;

Arte do lixo,
Criatividade reciclada
Apartando arte de lixo
Extraímos do lixo a arte.

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in:
www.mandandobrasa.blogspot.com
_______________________________

AINDA O AMOR...

O amor quando vem devagarinho
É insidioso, como um vinho gostoso
Que esquenta de mansinho,
Bem de leve, aos poucos, cola na pele
E de repente, indelével é o senhor!
Penetra no fundo da alma
E quando a razão alcança, é tarde...
A euforia que com a gente bole
Vale bem mais do que um simples gole

O amor estica o coração como um fole
Mas às vezes o elástico não agüenta,
Arrebenta a explosão de cor que sustenta
E o amor, que punha guizo em sorrisos,
Do jeito que veio, vai sem aviso
Ficamos ao léu, em um mar de estupor
Cegos da visão prévia de um paraíso
Desnudos sem escudos contra a dor

Bom seria o amor sem o amanhã ameaçador
Porque com ele vem junto o dissabor...
Para durar, mantenha o amor no eterno presente,
Combata os fantasmas das desconfianças
Impeça o ciúme de usar suas lanças

Pena quem não amou por medo de amar
E a delícia do amor não viveu,
Não sabe o quanto perdeu
Porque morreu antes de ver a morte chegar...

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
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14.12.08

POETIZANDO Nº 31
(Edição de Verão)



Quão glorioso
Nas folhas verdes, folhas tenras,
O brilho do sol !

Bashô
_______

AUTORES DO MÊS:

DEZEMBRO

GREGÓRIO DE MATOS E GUERRA, poeta brasileiro, nasceu em Salvador/BA a 20 de dezembro de 1636 e faleceu em Recife/PE no ano de 1696. Foi apelidado de "Boca do Inferno", por ser crítico e mordaz. Em 1650, aos 14 anos, embarca para Lisboa, dois anos depois matricula-se em Coimbra, formando-se em 1662. Foi nomeado juiz de fora no Alentejo. De volta para Bahia é nomeado procurador junto à corte portuguesa. Torna-se viúvo e casa-se pela segunda vez com Maria dos Povos. Preso, é deportado para Angola, vindo a falecer dois anos depois em Recife/PE.
Algumas Obras: Gregório de Matos não publicou livros em vida; o que se conhece são trabalhos esparsos.

BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós cabeça baixa, pra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

GREGÓRIO DE MATOS
in: Obras de Gregório de Matos
_______________________

JANEIRO

OSSIP EMILIEVITCH MANDELSTAM, poeta soviético, nasceu em Varsóvia, Polônia, em 1892 e faleceu em um campo de concentração na Sibéria, com data indefinida entre 1938 e 1942. Foi um dos representantes principais da escola neoclássica russa denominada Acmeísmo, que simbolizava a união do neoclassicismo, simbolismo e realismo. Seus versos tinham um toque de mistério e uma visão singular, sofrendo influência dos simbolistas franceses, Baudelaire e Verlaine. Seus textos foram conceituados herméticos, tanto em poesia quanto em prosa, sendo que após a revolução, sua vida caracterizou-se pela separação dos agrupamentos literários. Foi preso e posteriormente faleceu em um campo de concentração na Sibéria. Grande parte de sua obra só foi salva graças à dedicação extrema de sua mulher, Nadejda Mandelstam. Algumas Obras: A Pedra (1913), Tercetos (1922), O Ruído do Tempo (1925), Poesia (1928), O Selo do Egito (1928), Conversa sobre Dante (1930).

A CONCHA

Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem pérola, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazer só a seu lado pela areia
E pouco faltar para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
à sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
a pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

(1911)
_____________________________

FEVEREIRO

HENRIQUE MAXIMIANO COELHO NETO, escritor brasileiro, nasceu em Caxias/MA a 21 de fevereiro de 1864 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ a 28 de novembro de 1934. Colaborou com a imprensa carioca e pertenceu à boêmia literária com outros escritores. Foi professor de literatura e de teatro, jornalista e deputado federal, sendo considerado um dos maiores escritores do Brasil. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 2, chegando a ser candidato ao prêmio Nobel (1932). Deixou obra extensa e variada, sendo influenciado pelo Realismo e Parnasianismo. Seus textos são de riqueza formal, romântica, regionalista, tipos e costumes nacionais.
Algumas Obras: A Capital Federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em Flor (1897), O Morto (1898), Seara de Rute (1898), A Conquista (1899), A Tormenta (1901).

SER MÃE

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada.
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
_____________________________

CANÇÃO

Do espanhol: Canción , séc. XIII ; Cancionero , séc. XV.
Do português: Cancioneiro , séc. XVI.
Do italiano: Canzione , séc. XIII.
Do francês: Chanson , séc. XIII.

Os termos espanhóis, italianos e franceses, são derivados do latim Cantio, Ônis "Canção" ou "Cantar". Poesia cantada geralmente composta em versos redondilhos, de estrófes variáveis, hoje vivendo na cultura popular.

CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro. . . Lançá-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar. . .
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta. . .
A última, de antes do teu noivado.
A sete chaves, a carta encantada!

E um lenço bordado. . . Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

CAMILO PESSANHA
in: Clepsidra
__________________


LETRAS

ÚLTIMO DESEJO

Nosso amor que eu não esqueço
e que teve o seu começo
numa festa de São João
morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete...
sem luar... sem violão.
Perto de você me calo
tudo penso e nada falo...
tenho medo de chorar.
Nunca mais quero o seu beijo
pois meu último desejo
você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não
diga que você me adora
que você lamenta e chora
a nossa separação.
Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto
que meu lar é um botequim
que eu arruinei sua vida
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

NOEL ROSA
____________

HERMANOS

ROMANCE SONÁMBULO (Fragmentos)
.

Verde que te quiero verde.
Verde viento, Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
Ella sueña en su baranda,
Verde carne, pelo verde,
Con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
Las cosas la están mirando
Y ella no puede mirarlas.

(...)

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre!¿Dónde está, dime
dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuantas veces te esperara,
Verde carne, pelo verde,
Con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
La sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
Como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento, Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

FEDERICO GARCÍA LORCA
in: Romancero Gitano
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MULHER

SEU NOME

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, – ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia – em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito – em vão – repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de Deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...

MARIA FIRMINA DOS REIS
(1825 - 1917)
in: Contos à beira mar, 1871
São Luís do Maranhão, Brasil
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POETAS PORTUGUESES

AUTOBIOGRAFIA (fragmentos)

Entre faixas de pobreza
Meus tristes pais me envolveram;
Desde então, em crua empresa
Contra mim as mãos se deram
A fortuna e a natureza.

(...)

Depois que plano caminho
Já meu pé trilhando vai,
Pobre alfaiate vizinho
De um capote de meu pai
Me engendrou um capotinho.

(...)

Entre medos e violência
Entrar no latim já posso,
E jurei obediência
A um clérigo, que é um poço
De tabaco e de ciência.

(...)

Enquanto a minha alma emprego
Nestas cansadas doutrinas,
À dourada idade chego
De ir ver as vastas campinas
Que banha o claro Mondego.

(...)

Minha dor me faz falar,
Fiz queixas assaz compridas;
Dignai-vos de desculpar
Que mostra o enfermo as feridas
A quem lhas pode sarar.

NICOLAU TOLENTINO

Nicolau Tolentino de Almeida, nasceu em Lisboa a 10 de setembro de 1740 e faleceu na mesma cidade a 23 de junho de 1811. Sua poesia é constituída de sonetos, odes, memoriais e sátiras em Obras Póstumas (3 vol.).
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ERÓTICA

DESEJO(S)

que
a minha
língua
lamba
os teus
lábios
lívidos
lânguidos.

Que
os meus
dedos
percorram
a tua
pele
perversa
arrepiada.

Que
o meu
sexo
roce
no teu
e os
cheiros se
confundam.

Que
todos os
secretos
desejos
se afundem
profundos
mágicos
e eternos.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
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ORIENTE

LIVRO DE CANTARES DA CHINA

No século VII a. C, surgiu na China a primeira coletânea de poemas Livros de Cantares, incluindo poemas satíricos, poemas de amor, odes, cantigas populares etc. O Livro reúne 305 poemas feitos durante cerca de 500 anos a partir do início da dinastia Zhou do Oeste (século 11 a. C) aos meados do período da Primavera e Outono (século 7 a. C).

Dividia-se em três partes:

Feng - que abrange 160 cantigas populares que se transmitiam em 15 principados.
Ya – com 105 obras poéticas e musicais que circulavam nas proximidades da capital da dinastia Zhou.
Song - com 40 odes às divindades, tocadas nos rituais.

Os versos do Livro de Cantares são principalmente compostos por cinco, seis, sete ou oito sílabas. A mais importante parte do Livro é a Feng. Os poemas populares retratam cenas do cotidiano, amor e desejo da população comum, assim como sua indignação pela injustiça social.

Os autores dos poemas do Livro de Cantares são bem variados – desde os mais humildes trabalhadores da sociedade até os letrados e nobres. Eles incluem uma série de poemas escritos por autores anônimos. As obras do Livro eram originalmente cantadas ou recitadas nos rituais e, posteriormente, foram assimilados pela nobreza.

Em geral, o Livro de Cantares representa um ponto de partida da literatura chinesa e proporciona dados sobre todos os aspectos da vida da época, inclusive, produção, amor, guerra, costumes e hábitos, ritos, fenômenos astrológicos, geografia etc. Eles também servem como um bom material para os estudos sobre a língua chinesa entre os séculos 11 e o século 6 a. C.
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LENDAS INDÍGENAS

IARA

Iara significa mãe-d'água, senhora d'água, de "í" água e "ara" senhora.
A pronúncia do "ig" do "i" tem feito com que de diferentes formas se tenha escrito essa palavra; assim temos ioara, gauara, oioara, etc.
Iara, a jovem Tupi, era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do rio Amazonas. Por sua doçura, todos os animais e as plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos admiradores da tribo.
Numa tarde de verão, mesmo após o Sol se pôr, Iara permanecia no banho, quando foi surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo, mesmo assim, violentada e atirada ao rio.
O espírito das águas transformou o corpo de Iara num ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no restante.
Iara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a linda criatura, eles se aproximam dela, que os abraça e os arrasta às profundezas, de onde nunca mais voltarão.
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FOLK-LORE

ADIVINHAS:

Perguntas ou declarações de forma obscura, que devem ser contestadas ou explicadas.

Exemplos:

O que é o que é, que quando entra em casa fica do lado de fora?
Botão

São sete irmãos, cinco tem sobrenome e dois não. . .
Dias da Semana

Com L vive no céu
Lua

Com N pouco se vê. . .
Nua

Com R é de todo mundo
Rua

E com S é de você. . .
Sua

Me diga se for capaz
Me diga quem é aquele
Que num instante se quebra
Se alguém diz o nome?
Segredo

Com P é feito de trigo
Pão

Com M é parte da gente
Mão

Com S é muito saudável
São

Com C é muito valente
Cão
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NOVOS

SOLIDARIEDADE

FALAR COM AS PEDRAS
NÃO É FALAR AO VENTO

A PEDRA SEMPRE FOI DEPOSITÁRIA FIEL
É TEMPERAMENTO

ELA NÃO PERMITE QUE TUA PALAVRA
FIQUE PERDIDA NO ABISMO DO TEMPO

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________

POEMA OBLÍQUO

Há uma porta
na quina oblíqua
de uma esquina
enigma sem quina
de um silêncio reto.
Há uma porta
na quina de uma loja oblíqua
de uma esquina torta
no olhar de um manequim.
Há uma porta
na esquina do silêncio
sem contramão de tempo
oblíquo enigma
do manequim à espreita
de alma figura
tão humana de gesso.
Há uma porta
atravessei-a reto
de alma torta
E vi DEUS quando dobrava a esquina
na quina de um enigma
silêncio oblíquo.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Eminércia
____________

SEPULCRO

Nuances da morte
no olho da vida
Quixote sem norte
delírio sem ida

Palmilham porosos
os sonhos guardados
no cerne dos ossos
com lacres vencidos

Passado sequeiro
Presente jibóia
Futuro espinheiro
num mar sem bóia

Amor selado
nos traumas do não
corpo ilhado
ausência do pão

Retratos seqüências
de sol ou de pó
Nos atos ausências
dos laços sem nó

A lua é minguante
no tédio do outono
a hora é purgante
na cova sem dono

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
__________

COMIGO

Bato à porta
e abro para mim mesmo.
Deixo-me entrar.

Reconheço o espaço.
Cortinas esvoaçantes,
janelas sempre abertas
- convite para olhar.

O lado de fora
volta a me chamar.
Eu, sentada à soleira da porta
e a vida a passar.

Em mim, do impossível,
a concretização
- sendo semente,
também sou terra
aberta pra receber o grão.

Sou feliz.
Ouso dizer.
Não posso ignorar
esta chama de amor
em que me deixo queimar.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

SONETO QUINHENTISTA

Na época que faz descobrimento
criticam-se os lugares onde a gente
não tinha perspectiva, e um mundo ausente
projeta-se, ideal, no pensamento.

Erasmus, no "Elogio", teve intento
de ver loucura em toda a humana mente,
e Morus, na "Utopia", vai à frente,
colocar o louco lá, em seu elemento.

Pasárgada, Aruanda, Shangri-lá.
Oásis, Eldorado, Canaã.
É um ser errante, aonde quer que vá.

Já viu que a fuga é sempre busca vã,
mas, cego, quer fugir donde hoje está,
no afã de ver, alhures, amanhã.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
______________________________

HAICAIS

Periquito cisca
na gaiola musical
- a sorte no bico
*
Da casa do avô
transformada em prédio alto
só resta o chorão
*
Estremece a moita.
Um filhote de pardal
em aula de vôo

MADÔ MARTINS
Santos/SP
____________

O QUADRO

Para Maria Amélia Curvello

O quadro no escuro
olha
para dentro de si mesmo.

Propõe imagens
para o incriado
e a cor que busca
é justo aquela
que não existe
(nem todas as cores
são possíveis).

Traço a traço
o quadro
redesenha-se.
A escuridão
lhe é propícia
ao sacrilégio
de ser quem é
.: um outro quadro
por si pintado.

A cara nova
já não se engaja
nos tantos "ismos"
feitos somente
para enquadrar
os quadros
versos
até pessoas
o pobre mundo.

Na luz, o quadro
é como todos
: mero quadrado.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
__________________

HAICAIS

Primavera plena!
Pelos muros dos jardins,
As flores transbordam.

*

No quintal ao lado
Grudadinhas nos galhos
Flores de maçãs.

*

Noite misteriosa -
Do infinito desprende-se
A estrela cadente.

MARLY BARDUCO PALMA
São Vicente/SP
in: 7ª Antologia -
Grêmio de Haicai
Caminho das Águas
________________

ANTÍGONA

O carinho que tenho por ti,
Por teus cabelos longos,
Não me arrebata nem encanta:
Antes, me preenche.
Por teus olhos que se escondem,
Mãos que crispam-se ao vento,
Meu coração se completa.
Teu nome me vem à boca,
E uma Lua se escancara
À menção que se insinua.
Te busco pelos arquivos
Onde tudo está vazio:
Falta-me rever teus dedos.
Em tudo que é te apresentas,
Em tudo que falta te ausentas.

Mas não afugento o carinho,
Nem o terno amor que te devo.
Conforta-me saber que és,
Que existes, que habitas
E anulas o vácuo que havia.
Na curvatura dos cílios,
Nas arcadas das memórias,
Na profundeza dos versos
Que moram dentro da alma.
A ternura que eu sinto
E que por ti cultivo
A cada dia me basta.

Lembrar é como uma infância
Passada à beira da praia
na liberdade dos ventos.
O gosto quente das brisas
É como fechar os olhos
E ver-te rindo um segundo.
Não sabes, é certo, dos versos
Que fizemos em silêncio.
Do beijo que não tivemos,
Do abraço que não trocamos,
É feita a história mais viva.
Meu afeto permanece.
Em algum lugar permanece.

Na escuridão permanente da noite
Exercito o esquecer-te.
Quem te devolve é o dia
Com seu movimento lento
Do poema que encenaste.
Antígona, desperta agora,
Onde quer que horizontes
Teu corpo branco de música.
Passaramente beijo os olhos que não vejo.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_________________

uma pessoa comum sentada num café sou eu
cadeiras na calçada, cabelos ao vento e ao sol
pensamentos livres feito nuvens pelo céu
passos sem pressa, palavras perdidas
histórias entrecortadas, vestígios de vidas
tudo perfeito e bem arrumado
as árvores, o vento, as flores nos vasos
tua espera, tua ausência, tua presença ao sol
nada mais querer senão amar
pois foi assim que tudo começou
como em qualquer outro lugar
à margem sombria destas árvores ao sol

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
___________________

ESPERANÇA

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Quando nasce a esperança
o irreal vira real,
os pensamentos tornam-se eternos,
os amores tão modernos,
o mundo colossal.
O meu desejo fica mais forte
ao rever teu coração,
o capitão leva seu barco rumo ao norte
e eu morrendo de paixão.

Quando nasce a esperança
o velho fica mais novo,
o poema é escrito mais sentido,
a fé é dividida com o povo,
o romance é escrito e lido.
Os meus olhos ficam mais brilhantes,
as luzes brilham mais ao léu,
a vida não é mais de antes,
nem o poema no papel.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________

JOGO CEGO

Balançando-se, a velhinha
se debruça
sobre a tela.
No chão, o novelo
espera.
O tecido retesado
nos bastidores.
A linha pendendo
frouxa
na espera.
Não sabe o tecido a mão
que de pontos pontos pontos
o estrela.
A linha não advinha
que quadro pinta. Se
desenovela.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
____________________

LUZ E TREVAS

As nebulosas são oficinas de mundos
e por isso vivem prenhes de estrelas.

Algumas se desprendem,
e saem girando feito doidas,
como frutos maduros
soltos de árvores pejadas e fantásticas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Para que tanta luz,
se a humanidade quer viver nas trevas?

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

ALDEBARÃ

O amor me inventou no novo tempo;
sou corpo de estrelas e poeira de luar.
Vim para ficar.
O sol da manhã inaugurou minha jornada:
estou no mar derramado
nas franjas de espuma esparramadas na areia
na claridade fecunda e feliz da lua cheia.
Estou no ar, no vento, na leve aragem
na força invisível da fé e da coragem.
Estou na boca farta de versos do poema
que o poeta dedicou à alma gêmea.
Estou nas águas ancestrais dos rios
que correm para dentro
nas árvores tão altas
que me fazem enxergar seu centro.
Estou na canção enternecida dos amantes
nas brumas de um passado tão distante
na luz clara e promissora do amanhã
que brilha como a alfa aldebarã.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
__________

RIO DO SONO

Rio, por quanto tempo mais?
Donizete Galvão

Rio que lav(r)a-me:
túmulo de anzóis
no meio da corrente
com suas placentas gigantes
fazendo nascer em mim
um mar de oferendas.

No ovário desse leito
dorme entre areias exaustas
o menino-náufrago
que um dia foi devorado
por cardumes de sonhos.

O chão sob essas águas
me afaga
(ou me afoga)
entre mercúrio, bauxita e miasmas,

mas a superfície trêmula
apre(e)nde no meu silêncio
as lições de se perder nos oceanos.

Os rios de mim me levam
mas não limpam
a rugosa poeira dos meus anos.

RONALDO CAGIANO
São Paulo/SP
____________

AÇÃO E REAÇÃO

Sem mágoa, dei trégua
e com a régua medi léguas
de versos ternos e eternos,
com traços de laços e lanças.
Com a lente vi mente de gente
que fecha com flecha
os recursos e cursos da vida.
E na revista com vista
da cidade, a verdade e a idade
da razão, da ação e reação,
tive a impressão que a pressão
da dança, balança
o universo de versos dispersos.
Era segredo o meu medo.
Deletei.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
_____________

DIVISÃO

Exilei a normalidade
em crepúsculos
distantes.

Dividi dias
mofados
em compassos
sem harmonia.

Estacionei
minha segurança
em algum bar desta cidade.

Não desanimei.

Abri os braços
saudando a primavera.
que murmurava
flores & luz
impregnando os caminhos.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
_______________________

Se vem hoje a dor
Escondo a lua nas nuvens
Ninguém mais a vê

*

Se o amor vier
A lua vai nos banhar
De prata e azul

*

Se o amor não vier
Nem todas as luas cheias
Me farão feliz

*

A lua redonda
Inebria corações
Ficamos tão tontas...

*

Suave é a noite
Raios da lua tão branca
Clareiam espíritos

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

TROVAS

O que sinto e é verdade
ninguém poderá supor. . .
lá fora, digo amizade,
cá dentro, ressoa amor!

*

Por não mais poder criar,
Deus arrematou seu plano,
pondo o amor para ocupar
o melhor do ser humano.

*

A espera é confiança
de que vem o desejado. . .
Quem sabe ter esperança
pode ter o que é sonhado.

FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
in: Branduras
___________

pandorga
homem sonha
menino acorda

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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SAUDADE DO POETA

Odeio o estrelismo deslumbrado
de lânguidas madames
poetando
esparramadas no sofá.

Odeio o estrelismo deslumbrado
dos saraus intermináveis
e de platéias surdas.

Odeio o estrelismo deslumbrado
de apogeus repetitivos
regados a bacardis e anis.

Odeio o estrelismo deslumbrado
do poeta que explode
num choro convulsivo
um poema de Camões.

Trago em mim a saudade do poeta
que arrancava do peito
o sentimento esfarrapado,
plantando versos na alma
como quem planta flores.

DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO
e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
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LIVROS:

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* Cerimônia das Flores
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* Sino dos Ventos
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De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...

Valor: R$ 5,00 (cada)
_________________

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa

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para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta

- Modelo: A4,
para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
___________

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos

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_____________________________

13.9.08

POETIZANDO Nº. 30
(Edição de Primavera)


ROSA

Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim
E nas faces também tinha
Duas rosas de carmim.

Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou essas que unindo estás?...

Ela fitou-me sorrindo,
Ainda mais enrubesceu;
Depois, ligeira fugindo,
De longe me respondeu:

"Não dou-te as rosas das faces
Nem as que tenho na mão:
Daria, se me estimasses,
As rosas do coração."

AFONSO CELSO
______________


AUTORES DO MÊS

Setembro

AUTA DE SOUZA, poetisa brasileira, nasceu em Macaíba/RN em 12 de setembro de 1876 e faleceu em Natal/RN em 7 de fevereiro de 1901. De linguagem muito simples, direta, comunicativa e mística produziu uma obra de profundo sentimento religioso. Seu texto aproxima-se muito do Simbolismo, sendo descoberto pelos críticos católicos.
Obra: Horto (1900)

CANTIGA

Meu sonho dourado e leve,
que buscas tu a voar?
Um ninho branco de neve
onde me deixem cantar.

E em busca das nuvens belas
lá vai meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.

Pergunto ao sonho, chorando:
Por que foges a cantar?
E ele responde, cantando:
Porque não quero chorar.

E em busca das nuvens belas
foi-se meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.
__________________

Outubro

ÁLVARO DE CAMPOS, heterônimo de Fernando Pessoa, poeta português, segundo o autor "nasceu em Tavira no dia 15 de outubro de 1890 (à 1:30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois foi feito o horóscopo para essa hora, está certo), é alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se, cara raspada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado do lado. (...) Como escrevo em nome desses três? (...) Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê."
Algumas Obras: Ultimatum (1917), Aviso por Causa da Moral (1923).

ÀS VEZES

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

ÁLVARO DE CAMPOS
in: Ficções do Interlúdio
___________________

Novembro

JOHANN FRIEDRICH von SCHILLER, dramaturgo e poeta alemão, nasceu em Marbach, Württemberg, a 10 de novembro de 1759 e faleceu em Weimar a 9 de maio de 1805. Estudou medicina na Academia Militar de Stuttgart lendo Klopstock, Rousseau e Shakespeare. Não agüentando a disciplina militar, fugiu da escola fixando-se em Weimar. Em 1794 começou amizade com Goethe, que divulgou seu trabalho. Na evolução da literatura alemã ocupa um lugar de primeira ordem. Apesar de não ser poeta lírico, foi brilhante orador em versos. Suas peças provocaram entusiasmo revolucionário aprofundando suas convicções políticas. Algumas Obras: Os Bandoleiros (1781), A Conspiração de Fiesco em Gênova (1783), Intriga e Amor (1784), Don Carlos (1787), Poesias (1800 – 1803), Wallenstein (1800), Maria Stuart (1801), A Donzela de Orleans (1802), A Noiva de Messina (1803), Wilhelm Tell (1804).

ODE À ALEGRIA (fragmentos)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
(...)
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conseguiu uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo mundo.
(...)
Alegrias bebam todos os seres
No seio da natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
(...)
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
(...)
_____________________________


HINO

Em sentido literário, o hino pode ser definido como um poema ou cântico lírico de invocação e adoração, exprimindo os mais altos sentimentos. Celebra uma divindade, um personagem ilustre, fenômeno da natureza ou algo notável. Em suas origens, ele está vinculado ao culto religioso, tanto no Ocidente como no Oriente, associando-se ao canto ou dança.
Alguns autores: Homero, Píndaro, Calímaco, Cleanto, Mesômedes, Tertuliano, Eusébio.


HINO À DOR

Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam. . .

És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas. . .

E, assim, em convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!

AUGUSTO DOS ANJOS
in: Outras Poesias
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LETRAS

LUA BRANCA

Ó lua branca de fulgores e de encanto,
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
vem tirar dos olhos meus, o pranto
Ai vem matar essa paixão que anda comigo,

Ai! Por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem e arranca
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração.

E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada,
A sua luz então me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada

Ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo...
Ela partiu, me abandonou assim
Ó lua branca, por quem és, tem dó de mim!...

CHIQUINHA GONZAGA


Obra composta em 1911, traz a união da suavidade da melodia com a letra simples, produzindo um dos mais belos momentos da Música Popular Brasileira.
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HERMANOS

ADIÓS, RÍOS; ADIÓS, FONTES; (fragmento)

Adiós, ríos; adiós, fontes;
adiós, regatos pequeños;
adiós, vista d'os meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m'eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiñas d'o meu contento.

Muiño d'os castañares,
noites craras d'o luar,
campaniñas timbradoiras
d'a igrexiña d'o lugar.

Amoriñas d'as silveiras
que eu lle daba ô meu amor,
camiñiños antr'o millo,
¡adiós para sempr'adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nascín,
deixo a aldea que conoço,
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga pol-o mar;
deixo, en fin, canto ben quero...
¡quén puidera non deixar!

ROSALÍA DE CASTRO
Poetisa Galega
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MULHER

COMO TE AMO?

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

ELIZABETH BROWNING


ELIZABETH BARRETT BROWNING, poetisa inglesa, nasceu em Coxhoe Hall, perto de Durham, a 9 de março de 1806 e faleceu em Florença a 29 de julho de 1861. Produziu uma das melhores poesias da Inglaterra. Foi casada com o poeta Robert Browning.
Algumas Obras: Janelas da Casa Guidi (1851), Aurora Leigh (1856), Poemas antes do Congresso (1860).
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POETAS PORTUGUESES

SONETO

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

VIOLANTE DO CÉU


VIOLANTE DO CÉU, nome adotado como freira dominicana por Violante Montesino, poetisa que nasceu em Lisboa em 1601 e faleceu na mesma cidade a 21 de janeiro de 1693. Tornou-se freira em 1630, Sua arte poética tinha grande poder verbal, intelectualizando temas líricos com grande sinceridade.
Algumas obras: Rimas (1646), Parnaso Lusitano de Divinos e humanos Versos (1733).
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ERÓTICA

NA PENUMBRA

Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,
Lembras-te? . . . apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo. . .

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

RAIMUNDO CORREIA

RAIMUNDO DA MOTA AZEVEDO CORREIA, poeta brasileiro, nasceu em um navio na baía de Mogúncia/MA a 13 de maio de 1860 e faleceu em Paris a 13 de setembro de 1911. Formou um dos grupos mais fortes da poesia parnasiana brasileira. Algumas obras: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891).
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FOLK-LORE

O fato mais característico do folclore santista é a Fonte do Itororó, que existia no sopé do Monte Serrat, perto do início da escadaria. Há séculos ela era procurada por sua água límpida e cristalina que brotava da rocha. Enquanto Santos não tinha serviço de abastecimento, a bica do Itororó servia o povo. Ela tornou-se lendária, pois diziam que quem bebesse de sua água não deixaria mais a Cidade. A biquinha do Itororó ficou tão famosa, que a Prefeitura mandou urbanizá-la. Tempos depois ela secou. Mas ficou eternizada na cantiga de roda, que ainda hoje se escuta na boca do povo.


Recorde-a:

Fui a Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei

Aproveite minha gente
Que esta noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada.
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LENDAS INDÍGENAS

MIRIXORÃS

Mirixorãs, são as prostitutas existentes nas tribos de índios brasileiros. Elas são escolhidas entre as meninas mais bonitas – duas ou três cada geração. São consagradas numa linda cerimônia, não podem mais se casar. São mulheres de todos, são mulheres de ninguém, são mulheres de si mesmas, porque se fazem desejadas por todos os homens. Elas não causam ciúmes nas mulheres casadas. Ao contrário. Em certas épocas elas aconselharão os maridos a procurarem as mirixorãs que serão boas e carinhosas com eles.
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SOBRE FÁBULA

A fábula é um dos jeitos mais antigos de contar estórias! Foram descobertos vários registros no Egito e na Índia, em livros sagrados como o Pantchatantra, que é escrito em sânscrito e em livros que revelavam os segredos do sucesso na vida política, como Calila e Dimna. Do Oriente para o mundo ocidental, vamos ter Esopo - o nome do mais famoso fabulista. Outro nome bem conhecido é Jean de La Fontaine - mas esse é bem mais "moço", nasceu na França, em 1621. Agora, entre um e outro, entre Esopo e La Fontaine, existiram muitos outros homens interessados na Fábula - e, é claro, depois deles também. As fábulas querem dizer e dizem muito em poucas linhas. Podem ser em prosa ou em versos; seu título apresenta de imediato os personagens que tomarão parte da trama e a gente pode, assim, imaginar o conflito que está para acontecer. É da fábula que nasce "a moral da estória" - na verdade, um conselho ou um julgamento sobre os fatos que acontecem na vida que nos é dado pelo narrador.
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No dia 12 de setembro, junto com o lançamento da revista literária artesanal POETIZANDO nº. 30, houve também a apresentação do novo livro da poetisa e artista plástica EUNICE MENDES: CERIMÔNIA DAS FLORES. Segue um poema desse trabalho que dá título ao livro.

CERIMÔNIA DAS FLORES

eu era a menina
que todas as tardes
sentava no muro do jardim
e oferecia uma flor
a quem passasse no meu portão

tinha em mãos
um grandioso bouquet
de margaridas
cravos
rosas
violetas
lírios amarelos
e bocas de leão

fossem homens ou mulheres
crianças ou velhos
ricos ou pobres
eu lhes dava uma flor
do meu jardim
e recebia sorrisos
coroados de sol;
alguns, surpreendidos,
não compreendiam de imediato
a singeleza do gesto
e me olhavam atordoados e inquietos

- a flor insistia em minhas mãos

eu era a mensageira das flores
que todas as tardes
sentava no muro de casa
e celebrava a vida com esperança
nada sabia das outras vidas
e isso me fascinava
porque cada uma delas
não era eu
havia uma intensidade
nos seus universos desconhecidos
que me encantava e embevecia
como se inconsciente soubesse
que só me completaria ali: no outro

queria que aquelas mãos desconhecidas
apenas se estendessem para as minhas
e simplesmente recebessem
o que lhes ofertava com alegria

entre mim e o outro
coloquei uma flor:
- ponte e convite

com o passar do tempo
as flores foram se tornando outras coisas
mas a intenção do gesto persistia
a mão gratuita estendida
ofertando possibilidades

as mãos brancas e finas
de dedos longos e magros
mãos cheias de anéis
mãos que desenhavam
e faziam bordados
teciam flores de papel
e passarinhos de barbante
mãos que escreviam
pareciam de menina ainda
de unhas curtas e pequeninas
pintadas de dourado
pintadas de branco pérola
mãos que recortavam
coloriam
construíam coisas inúteis
- as mesmas mãos das flores

mãos que tanto pediam
cartas
conchas
caixas
a se tornarem
pássaros
nuvens
peixes

as mesmas mãos das flores
fazem do antigo gesto um poema:
ponte e convite

- a flor insiste em minhas mãos
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NOVOS

RESTOS

Tudo o que em mim há muito já não sinto
- dor ou prazer, ânsia de morte ou vida -
persigo em meu interno labirinto,
para levar bem rápido à saída...

O que já não afirmo ou já não minto,
e o ego já não crê nem já duvida
- frações sem uso do apagado instinto
ou partes mortas da razão perdida -

já não me servem, pois são trastes fúteis.
Como algo que parou de funcionar,
são sentimentos para sempre inúteis.

Como tantos restos em minha alma escura,
vou procurar-me sem jamais me achar
ou encontrar-me sem qualquer procura.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
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DESPERDÍCIO

O POEMA
QUE SE PERDE
NO CLÍMAX DO INSTANTE
É COMO UM LIVRO ESQUECIDO
ABANDONADO
QUE VAI MOFAR NA ESTANTE

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
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SONETO SETENTISTA

Setenta foi a década do escuro,
contra a liberação que a precedia.
Enquanto a precedente foi do dia,
a ditadura atinge o grau mais duro.

Regime militar detrás do muro
da lei de segurança e covardia.
Cercada, a intelligentsia se escondia,
e o cidadão pensava estar seguro.

Não me exilei, mas fiz oposição
dum modo panfletário original,
mistura de vanguarda com calão.

Fanzine de poesia marginal
foi precursor da mídia, desde então,
no que esta tem de forma e de informal.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
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VIGÍLIA

Quando a vida
Tomba
Tomba
Tomba
Pietà
em meus braços
De
caída
Plena
em pleno
cansaço
Oh
não
adormeço
(a morte
espreita
meus passos)

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
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NA ARQUITETURA do amor
és mais do que cornija
Não te abandonas
como ninho ausente
de não dormidas andorinhas

Provocas
o humilde ventre
e os seios indetidos

Nem sequer
na divina corrida
ficas quieta
olhando para o céu

No entanto
na geometria
aparentemente fria
das colunas vivas
és uma cornija

Mas voas
um céu interior
onde os ventos
são presos
na posse.

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

CÉU FASHION

O vento acabara de pentear as nuvens,
Quando olhei o céu.
Dois pássaros serviam de presilhas.

MADÔ MARTINS
Santos/SP
__________

DESA(R)MADO

Vou desa(r)mado
ao teu encontro
sem risos
sem festas.

Com sal
nos olhos cansados.

Levo sob os ombros
escombros de sonhos.
Cidades devastadas
dentro de mim.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
__________________________

PARADOXO

Sentimento, amor, é utopia
Nesta era de feras fabricadas.
Isto é coisa somente de poesia,
Deletério de vidas fracassadas.

Nesta era de impulsos bestiais,
Onde o amor é o escudo dos vencidos,
Ser forte é ter olhos glaciais,
Ser fraco é ter olhos distraídos.

Ser forte é calçar umas botinas,
Portar em cada mão uma granada
E o coração na ponta de uma espada.

Ser fraco é deitar-se nas campinas,
Sem se importar se existem duas Chinas,
E doido amar uma mulher amada!

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Antologia Poética
__________________

TROVAS

Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.

*

Se na aflição se padece,
busque em Deus a solução...
A calma do céu nos desce,
no intercâmbio da oração.

FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
in: Gotinhas de Orvalho
____________________

MINOTAURO

para Guido Guerra

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado,
Teseu perambula
entre
muralhas
inutilmente lúcido.

CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
__________________

Do alto das torres do tempo as nuvens observam
Languidamente o anônimo passar dos dias
E dos homens.

Moldam-se em ondas alucinadas
Redesenham figuras no espaço
Sobre os autômatos caminhares humanos.

Formam ursos, carros, totens,
As nuvens e seu destino
De parecer o que não são

Como os homens.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
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SAL MORA

Meu pote velho de sal.
Velho, até que se quebre.
Açúcar não colocaram
no bojo de tuas entranhas.

No rosa, branco, marrom
moldaram flores barrocas.
Destino, ser doce ou salgado!
Mistério insondável da vida.

De insetos te protegendo
dois parafusos sustentam
a tampa da árvore já morta,
na placa "sal", que enferruja.

Meu pote velho!
Comerás muitos sacos de sal
e abrigarás a salmoura
por seres sua morada.

Velho sal!
De colher em colher
te doas... mas tornam
a salgar o pote.

Pote velho, pote velho,
mãos sem forças
que te enroscam,
esquecidos do mel.

O homem segura o pote.
Os deuses seguram o homem.
De sal igualmente contidos
desmanchando-se na mesma sorte.

Da água ambos vieram,
na água eles se dissolvem,
e a terra é que engolirá
a amargura dessas vidas.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
__________

MANIA

Pelo tempo que me resta,
vocês terão que agüentar:
esta mania cantadeira
composições
versos livres
Não consigo me calar.

A inspiração me persegue
em qualquer canto ou lugar.
Já nem sei onde me encontro.
Sei que posso imaginar.

E monto nesse cavalo
galope alago, sem parar.
Presa nas crinas do sonho,
canto livre pelo ar!

A poesia corre solta.
Invade casas, jardins.
Senta no banco da praça
- ao meu lado. Nunca se afasta de mim.

Vou escrevendo pelo mundo afora:
vento água areia...
- qualquer vão. Até emudecer meu canto
e calar meu coração.

REGINA ALONSO
Santos/SP
___________

POEMA QUASE TEOLÓGICO

Cansaço
deste cansaço. Deste
fitar horizontes fechados,
crernãocrer para lá do paredão de treva
imensidades lúcidas. Cansaço:
peixe no mar do inumerável,
adstrito ao zero da esfera. Cans-
aço: casulo no infinito,
não rompê-lo. Prévio
cansaço
do inútil arranhar o espaço, - o tempo
incólume.
No tempo
erguem-se decisivas as muralhas da treva.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_______________________

PAZ

As pombas comeram milho
nas mãos do mendigo purulento.
Pombas sem fel.
Quanta ironia!
Comeram o milho e, agradecidas,
deixaram em sua pele
a virose agressiva e fatal
que aos poucos levou
ao panteão imortal
seus ossos de milho.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
_________

flamboyant

Nem palavra nem árvore. Flamboyant é bote, boiando acima da tarde.

˚
No período de floração, flamboyant é flama. Convém manter as crianças à distância. Os amantes nem tanto.

˚
Flamboyant cresce à margem do dicionário. Parce que il ne parle pas, il flambe.

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Juiz de Fora/MG
in: Dicionário Mínimo
___________________

DESCOBERTA

Final de tarde.
Pelas alamedas verdes
vou caminhando triste,
solitária de mim,
numa tristeza de final de primavera,
de mudança de tempo,
de saudade.
Os olhos grudados ao chão,
sem rumo,
vou simplesmente caminhando...
Remoendo a tristeza de ser triste.
A noite
ligo a televisão e percebo
na pauta de um jornal, a repórter
mostrando o viço dos roseirais,
das palmeiras,
das margaridas, enfim,
da beleza majestosa que emoldura
as alamedas onde passeei minha tristeza.
Naquele instante
dei-me conta que a vida,
abraçada a mim naquele trajeto,
tentava me trazer de volta.

DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP
__________

O POSSÍVEL DA MEDIDA

Retocar
a seiva
do verbo.

Reflectir
no oculto
da face.

Retirar
o sentido
da rima.

Reservar
o rebordo
da espera.

Remeter
à farsa
da fala.

Recear
o toque
no seio.

Reportar
ao trauma
do signo.

Restringir
na proporção
do medo.

Requerer
o oposto
da questão.

E repesar
o possível
da medida.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
______________

para minha vó

ainda dou meu tempo aos jardins
e espero os brotos dos jasmins
no mês de maio
cobrir o chão de estrelas brancas
para em minhas mãos virar perfume
depois de secas em sachês bordados

minha vó também recolhia
as pequeninas flores perfumadas
e entre as suas mãos guardava
o encanto infantil de as ter juntado

agora estou sozinha em seu jardim
e as mãos dela às minhas
parecem haver se acrescentado
a mesma esperança
adormecida nas flores do jasmim
sonha acordada em mim
feito estrelas brancas perfumadas

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
________________________

DUNAS III

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Não sou um tiranossauro dos poemas.
Só quero exprimir o que sinto.
Não quero que tapem minha boca, nem esquemas.
Quero dizer verdades, não minto.

Vamos arrasar os malfeitores,
os que corrompem os poetas juvenis,
não daremos tréguas aos salteadores,
que habitam nos brasis.

Marcharemos companheiros, sem temor.
Versejando na terra da inspiração
e no soneto alado da canção!

Porque o pó fétido do mal amado
pulveriza o poema de amor,
mas no fim ele morre, acabado.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________

ANSIEDADE

Sentir na boca e na barriga
a emoção que sente,
toda noite,
a mulher do atirador de facas.
Até que a angustia da espera
cresça tanto
que o desvio da arma
passa a ser desejado.
Mas se teima a destreza
em ser milimétrica
no perfil,
vai o corpo de encontro
à rota determinada.
Como se fosse inexorável
morrer de medo
ou de coragem.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
________________________

Segredo é uma coisa
que se conta
para poucas pessoas

e essas poucas pessoas
contam para outras
poucas pessoas

e essas outras
poucas pessoas
só contam para algumas
poucas pessoas

Segredo é uma coisa
que muitas pessoas
podem ficar sabendo

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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SONETO DO MAR

E me é doce olhar tuas águas
e enxergar nelas uma luz latente
azul e verde, simultaneamente:
nestas cores afogo minhas mágoas.

Esqueço da vida os dissabores
e me encontro comigo próprio
sem precisar de qualquer ópio
só me enxergando nas tuas cores

Sinto que o amor fica muito perto
quando bem perto eu fico do mar
E você, quando vem me encontrar?

para este amor fica mais certo
para este amor se consumar
no brilho, no sal, nas cores do mar.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
____________

Sobre a areia e o mar
Passeia a lua tão cheia
Dando paz demais

*

Sobre os prédios altos
Reflete a lua de prata
Seu manto de luz

*

Se vem hoje o amor
Prometo à lua no céu
Amá-lo prá sempre

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
__________

MAR

Eu te reverencio pela doce provocação com tuas ondas inquietas, que insistentemente me vêm beijar os pés na branca areia da praia.
Eu te reverencio por embalares com a canção de tuas ondas, os pescadores com suas jangadas, no leito de tuas águas, para buscarem o seu pão de cada dia.
Eu te reverencio por trazeres tantos irmãos de tantos outros lugares que procuram a realização de seus sonhos.
Eu te reverencio por teus mistérios, tua magia, teu poder e tua beleza, com esse azul refletido da imensidão do céu.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
Santos/SP
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INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO
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* Poemas Bluseiros
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* Lá Fora Adentro
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* Pedras no Chão
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Valor: R$ 5,00 (cada)
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FOLHAS POÉTICAS:

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