REVISTA LITERÁRIA
LANÇAMENTO E SARAU POÉTICO
DIA 11 DE DEZEMBRO DE 2009
DAS 20 ÀS 22 HS, SEXTA-FEIRA
NA ALIANÇA FRANCESA
RUA RIO GRANDE DO NORTE, 98
POMPÉIA – SANTOS
CONTAMOS COM VOCÊ!


PIERRÔ APAIXONADO
Um Pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma Colombina,
Acabou chorando, acabou chorando.
HERMANOS

A LARANJEIRA
Perfumada laranjeira,
Linda assim dessa maneira,
Sorrindo à luz do arrebol,
Toda em flores, branca toda
- Parece a noiva do Sol
Preparada para a boda.
E esposa do Sol, que a adora,
Com que cuidados divinos
Curva ela os ramos, agora!
E entre as folhas abrigados,
Seus filhos, frutos dourados,
Parecem sóis pequeninos.
JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

BEIJO ETERNO
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
...
Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!
CASTRO ALVES
in: Obras Completas
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ORIENTE
MENSAGEM TAOÍSTA
Dizem que um rio, por maior que seja, treme de medo antes de cair no oceano. Ele olha pra traz, para os cumes, as montanhas, o longo caminho sinuoso através das florestas e povoados, para todas as velhas e conhecidas jornadas. . . e depois vê à sua frente um oceano tão vasto que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre e esquecer o que se foi. Mas, não há outra maneira. . . o rio não pode voltar. É impossível voltar na existência, você pode ir apenas para a frente. O rio precisa ousar e entrar no oceano. E somente quando ele entra é que o medo some. Porque só então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano. Por um lado é desaparecer e por outro, renascer.
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PoetaS PortugueseS
285
O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.
1/10/1917
ALBERTO CAEIRO
in: Poemas Completos de Alberto Caeiro
ALBERTO CAEIRO, heterônimo de Fernando Pessoa, que segundo o próprio Fernando "poeta bucólico do gênero complicado, senti que havia nascido em mim o meu mestre." Foi o primeiro a nascer, é poeta das sensações puras, naturalista e cético, hostil às regras métricas e ao "vício de pensar." Obra: O Guardador de Rebanhos.
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NOVOS
LEILÃO
Vendem-se os óculos de Gandhi.
Compra-se água de Theri. Da Suez,
Água do Ganges. Brahma chopp.
Marcha do sal. Pré-sal. (Vendido!)
Vende-se o relógio de Gandhi.
Big Ben. Big Bang.
Caminho das Índias. Quit Índia.
Independência ou morte.
Compra-se amor.
Paz e amor. Guerra e paz.
Yoga sutra. Kama sutra.
Give peace a chance (Vendido!).
Compra-se a independência.
Jejum de lucros. Call centers. Tata.
Quem quer ser um milionário?
The Oscar goes to Gandhi.
Vende-se a sandália do Mahatma.
Filhos de Gandhi. Cordão de isolamento.
Sistema de castas. Apartheid.
Camiseta de Che Guevara.
Compram-se os óculos de Gandhi
O lance mínimo é de $20.000.
Satiagraha. Bomba atômica.
A liberdade de lucros e os lucros da liberdade.
A liberdade...
LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in: www.mandandobrasa.blogspot.com
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A MÃO DO PAI
Eis que o menino admira ter na sua
a mão do pai, menos porque onde arrua
desenreda-se uma inteira Odisséia
do que por ser potro testando a rédea.
Também porque aquela mão, quando avulsa,
para outro menino os olhos assesta,
o menino que foi o pai e nele avulta
ao surpreender no mínimo suas festas.
De um tapume sozinho com suas nódoas,
da venda onde a fome se pesa à parte,
de um que se pendura de alegria e trastes
e outro cuja fala pijama as horas,
desses o pai sabe a fábula e glosa,
como de posse do olho de Balzac
tudo pudesse demudar em prosa
para adiar a morte daquela tarde.
FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Juiz de Fora/MG
in: Um Dia, O Trem
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de lírio
em lírio
delírios
DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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EXÍLIOS
A cidade se perde em seus próprios labirintos:
pelas serpentes de pedra e asfalto
corre pressuroso um rio de animais metálicos.
Não há mais lugar para os homens.
anônimos, como areia na ampulheta,
vamos caindo, atarefados,
em busca da outra margem:
a utopia.
A metrópole, como um ventre,
espera o desconhecido
e na sua imensa solidão geométrica
nascem catedrais de ausências.
O tempo, essa matéria difusa
me leva a mundos que eu sonhei um dia:
De Cataguases a Isfahan
de Brasília a Pasárgada,
quanto de mim vai ficando nos caminhos.
Quando contemplo
as montanhas nevadas de Teerã
desejo. como um pássaro,
ser vento e geografia.
RONALDO CAGIANO
São Paulo/SP
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AZUL
A infância é o fundo da memória.
Por isto é azul.
Este azul: flor de pétalas agudas
gravada a ferro-e-fogo sentimento.
Por isto não se apaga.
Esta presença:
projeção de raiz no tempo móvel.
Por isto às vezes dói como uma ausência.
ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/SF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
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e sinto perto
o mais ausente
sempre o indizível
neste modo mudo que se alarga
inundando feito mar
que não cabe
em lugar algum
senão dentro
e para onde vou
de olhos fechados
buscar
meus pássaros neste escuro
EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
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SONHO
Deoclécio comia feijão na mesa posta do dia a dia. Deoclécio continuava comendo feijão na mesa posta do dia a dia. O feijão. . . e o sonho?
WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Minicontos
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LIÇÕES DE CASA
- Minha tia, o que é milagre?
É o casamento do mistério
com a maravilha
a pérola que o alho é
a lua que faz a maré
perfume que sai da flor
ave no céu formiga no chão
criança que cai e não chora não
todo ovo que galinha bota
galo que ao sol se coloca
para em sol cantar
estrela que orienta
ar que deixa respirar
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
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DESPOJAMENTO
Não quero guardar relógios
ainda que à prova d’água,
preciso, apenas, do tempo,
mesmo que exposto à mágoas.
Não quero ter o cavalo,
ainda que todo branco,
quero, apenas, o galope,
mesmo manco.
Não finco estacas na lua,
nem quero a posse da estrela,
preciso, apenas, da luz
mesmo que de vela.
Não tenho bolso,
não guardo resto,
de tanta mão
só fica o gesto.
SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
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REFLEXOS
Não, você não me ama.
Apenas ama dentro de você
o reflexo que tem de mim.
Não ama a minha presença,
ama a minha companhia.
Você ama o meu sorriso,
não a minha alegria.
Os meus olhos,
nunca o que vejo.
Você em mim
ama a sua imagem,
mas meu amor não é espelho.
Não queira refletir-se nele
ele se quebrará.
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
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SONETO AO MILLÔR
Não quis reescrever uma Odisséia,
mas, se reescrevesse, brilharia.
Deu peso de brilhante à ninharia.
Refiro-me ao filósofo do Méier.
Vão Gogo, comediante sem platéia,
seu público o invejava quando o lia.
Somou a gozação à rebeldia,
e um fã ganhou aqui na Paulicéia.
Já que a justiça farda mas não talha,
resolvo retratá-lo, em homenagem
quadrada, três por quatro, uma antiqualha.
Soneto, prum filósofo, é bobagem.
Não passa de acadêmica migalha
a quem faz humorismo com coragem.
GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia ilhada – Sonetos Tópicos
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AD LIBITUM
Toma-me
e me tome
em rápidos goles
e em grandes nacos...
Sou teu Forte
mais fraco
e, em ti, enxergo-me
ao longe, intacto...
Sou teu cravo
manso e bravo
porém,
posso ser cacto.
Devora-me
e me engula:
não engane
sua gula...
Encha-te de mim
e por fim
digere-me,
em plena fome:
minha alma,
meu nome
e pronomes.
MARCELO LOPES
Guarujá/SP
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JULHO
EMÍLIO DE MENESES, poeta brasileiro, nasceu em Curitiba/PR a 4 de julho de 1866 e faleceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de 1918. Grande boêmio e satírico, transferiu-se para o Rio de Janeiro escrevendo crônicas para os jornais em que satirizava as figuras célebres da época. Aderiu ao Parnasianismo, produzindo rimas raras, contudo, sua importância maior foi como satírico. Depois de duas tentativas frustradas, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1914, mas não chegou a tomar posse, pois seu discurso foi considerado ofensivo aos imortais Oliveira Lima e Afrânio Coutinho.
Algumas Obras: Marcha Fúnebre (1892), Poemas da Morte (1901), Dias Irae (1906), Últimas Rimas (1917), Mortalhas – Os Deuses de Ceroula (1924 – póstumo).
ÚLTIMOS VERSOS
A arte, amigo, em noss'alma só se interna
Por caminho em que o uso é um empecilho,
É a dor, a eterna dor, a estrada eterna
Que eu, entre versos, pés sangrando, trilho,
Quantas vezes o atro fundo da cisterna
A água que dela sai mostra no brilho
É o fulgor de uma lágrima paterna
A refletir a imagem de um mau filho.
in: Esparsos e Inéditos
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AGOSTO
LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA, poeta brasileiro, nasceu em Santa Rita do Rio Claro/RJ a 17 de agosto de 1841 e faleceu em Niterói/RJ a 18 de fevereiro de 1875. Entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo, mas não concluiu o curso devido sua vida boêmia. Sua poesia teve várias fases: patriótica, lírica e religiosa. Somente depois de sua morte, a crítica reconheceu seus poemas elegíacos e a qualidade de sua literatura.
Algumas Obras: O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1866), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869).
SONETO
Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,
Beijava a onda n’um soluço mago
Das moles plumas a brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.
Vi-te; e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!
Mas ai! cedo fugiste!... da soidade,
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!
in: Vozes da América
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ORAÇÃO



OUTONO
Fim de tarde virá
mover sinos
porque Deus, sei...
mãos maduras põe
no andar das horas.
Calçadas acarpetadas
de amareladas folhas
são danças de ir embora
sob um sol de maio.
Acordará de novo
tudo que anoitece.
Flores darão frutos,
sobrarão vôos azuis
dos casulos emergentes.
Gestação da vida!
Somos sopro, outono:
cigarro na esquina
roupa no varal
água do moinho
cigarra no quintal.
Quero estar contigo
no que sobrar de abrigo
depois do vendaval.
LARÍ FRANCESCHETTO
Veranópolis/RS
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AUTORES DO MÊS
MARÇO
SULLY PRUDHOMME, pseudônimo de René François Armand Prudhomme, escritor francês, nasceu em Paris a 16 de março de 1839 e faleceu em Chatenay-Malabry a 6 de setembro de 1907. Foi empregado de uma usina metalúrgica abandonando o posto para dedicar-se às letras. Poeta parnasiano de preocupações filosóficas com versos didáticos. Assumiu uma cadeira na Academia Francesa de Letras em 1881, sendo o primeiro escritor a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1901. Algumas obras: Estâncias e Poemas (1865), As Solidões (1869), Os Destinos (1872), As Ternuras Vãs (1875), A Felicidade (1888).
O VASO QUEBRADO (fragmentos)
O vaso desta flor, que morre breve,
Feriu-o um dia um leque distraído,
E de um golpe tão rápido, tão leve,
Que nem se ouviu o mínimo estalido.
Mas a tênue ferida traiçoeira,
No límpido cristal rasgando a taça,
Lentamente cresceu, de tal maneira,
Que, invisível, o vaso todo abraça.
(...)
Tal, às vezes, da linda mão querida
Tocado, o coração chora e padece;
E, enfim, cedendo à pérfida ferida,
Parte-se, a flor do seu amor fenece.
Perfeito e alegre ele aparece ao mundo;
Porém, sem a denúncia de um gemido,
Sente o golpe crescendo-se profundo...
Não lhe toqueis: - é um coração partido!
Tradução: Valentim Magalhães
ABRIL
VICENTE AUGUSTO DE CARVALHO, poeta brasileiro, nasceu em Santos/SP a 5 de abril de 1866 e faleceu em São Paulo/SP a 22 de abril de 1924. Formou-se em advocacia e militou em favor do abolicionismo e da república. Considerado um dos maiores representantes do Parnasianismo no Brasil. Sofreu influência de Victor Hugo, destacando-se em suas obras, o soneto. Foi chamado "o poeta do mar", tendo produzido poemas populares evidenciando o amor à natureza. Seu nome poderia ser incluído na tríade do Parnasianismo brasileiro junto com Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, não tomando posse. Algumas obras: Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908).
ESPERANÇA
Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
in: Poemas e Canções
MAIO
THOMAS MOORE, poeta irlandês, nasceu em Dublin a 28 de maio de 1779 e faleceu em Sloperton, perto de Londres a 28 de fevereiro de 1852. Começou sua carreira como tradutor das odes de Anacreonte em 1800. Produziu baladas e canções eróticas que lhe deram prestígio na sociedade elegante de Londres. Fez viagem às Bermudas. Pertenceu a famosa geração dos Lake Poets (Poetas do Lago), do qual entegravam Wordsworth, Coleridge, Southey, Campbell, Landor.
Algumas Obras: Melodias Irlandesas (1807), Lalla Rookh (1817).
A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO
É a última rosa
Do Verão, sozinha;
Nenhuma outra resta
Formosa e vizinha,
Nenhuma irmã sua
ou botão de rosa
Responde aos suspiros
Que exala, formosa.
Não quero deixar-te
Sozinha a florir:
Tuas irmãs dormem,
Vai também dormir.
Por isso eis que espalho
Tuas folhas no chão,
Onde as irmãs tuas
Já mortas estão.
Tão breve eu vá quando
Os que amo fugirem,
E do anel do amor
As jóias caírem.
Caídos os que amam
No sono profundo,
Quem habitaria
Sozinho este mundo?
THOMAS MOORE
Tradução: Fernando Pessoa
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PRECE
O mesmo que súplica mística, oração, reza. Em sentido mais amplo, orações ou pedidos que são dirigidas a Deus por ocasião de alguma enfermidade ou calamidade.
PRECE
Ó Deus
Tirai do meu coração todo ressentimento,
embora pareça justo!
Da minha boca, todas as pragas,
embora pareçam inócuas!
Dai-me forças
para jamais me revoltar
contra o julgamento dos maus...
Dai-me, também, coragem para aceitar
e capacidade para agradecer
o julgamento dos bons...
Porém, sobretudo, afinai a minha lira
para entoar louvores
aos homens de boa vontade!
ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
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LETRAS
PALPITE INFELIZ
Quem é você que não sabe o que diz
meu Deus do céu, que palpite infeliz.
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz
que sempre souberam muito bem
que a Vila não quer abafar ninguém
só quer mostrar que faz samba também.
Fazer poemas lá na Vila é um brinquedo
ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
você não viu porque não quis.
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
que tira samba mas não quer tirar patente
pra que ligar a quem não sabe
aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?
NOEL ROSA
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HERMANOS
CANCIÓN (fragmentos)
(...)
Si aquella amarillez y los sospiros,
salidos sin licencia de su dueño,
si aquel hondo silencio no han podido
un sentimiento grande ni pequeño
mover en vos que baste a convertiros
a siquiera saber que soy nacido,
baste ya haber sufrido
tanto tiempo, a pesar de lo que basto,
que a mí mismo contrasto,
dándome a entender que mi flaqueza
me tiene en la tristeza
en que estoy puesto, y no lo que yo entiendo:
así que con flaqueza me defiendo.
(...)
Canción, no has de tener
conmigo que ver más en malo o en bueno;
trátame como ajeno,
que no te faltará de quien lo aprendas.
Si has miedo que m’ofendas,
no quieras hacer más por mi derecho
de lo que hice yo, qu’el mal me he hecho.
GARCILASO DE LA VEGA
GARCILASO DE LA VEGA, poeta espanhol, nasceu em Toledo, provavelmente em 1503 e faleceu em Nice a 14 de outubro de 1536. Foi considerado um dos maiores poetas espanhóis de todos os tempos.
Obra: As Obras de Garcilaso de La Vega.
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MULHER
SONETO
Ainda um ano, filha, hoje se escôa
do tempo na ampulheta, que não cansa;
e nem sequer mitiga uma esperança
a dôr de te perder, que me magôa.
O alígero tempo, quando vôa,
os males nos apaga da lembrança;
mas do martírio meu não há mudança
nos agudos espinhos da corôa.
Antes, para agravar-me a desventura,
da vida apenas na ridente aurora,
rouba-me a morte inexorável, dura,
teu filhinho adorado, a quem, outróra,
beijei mil vêzes, louca de ternura,
e que, louca de dôr, pranteio agora!
ADÉLIA FONSECA
(1827 - 1920)
Bahia/Brasil
in: Coletânea de Poetas Bahianos
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PoetaS PortugueseS
ROSA E LÍRIO
A rosa
é formosa
bem sei.
Porque lhe chamam - flor
d'amor,
não sei.
A flor,
bem de amor
é o lírio.
Tem mel no aroma, - dor
na cor,
o lírio.
Se o cheiro
é fagueiro
na rosa;
se é de beleza - mor,
primor
a rosa:
no lírio
o martírio
que é meu
pintado vejo: - cor
e ardor.
É o meu.
A rosa
é formosa,
bem sei...
E será de outros flor
d'amor...
Não sei.
ALMEIDA GARRETT
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ERÓTICA
ELEGIA
INDO PARA O LEITO (fragmento)
Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
JOHN DONNE
Inglaterra
JOHN DONNE, poeta e orador sacro inglês, nasceu em Londres em 1572 e faleceu na mesma cidade a 31 de março de 1631. Adquiriu grande prestígio entre seus contemporâneos como poeta. Foi considerado personalidade difícil e contrária às convenções literárias. Poeta metafísico, foi inovador que se rebelou às produções do renascimento petrarquista. Eliminou a mitologia e a repetição de imagens clássicas, o amor sentimentalizado e o estilo melodioso. Foi autor de alguns dos mais apaixonados poemas eróticos da língua inglesa.
Algumas Obras: Elegias, Canções e Sonetos, A Ascensão da Alma (1601), O Conclave de Inácio (1611), Sonetos Sacros (1617).
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FÁBULA
A GALINHA RUIVA
Um dia uma galinha ruiva encontrou um grão de trigo.
- Quem me ajuda a plantar este trigo? - perguntou aos seus amigos.- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu planto sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Logo o trigo começou a brotar e as folhinhas, bem verdinhas, a despontar. O sol brilhou, a chuva caiu e o trigo cresceu e cresceu, até ficar bem alto e maduro.
- Quem me ajuda a colher o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu colho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a debulhar o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu debulho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a levar o trigo ao moinho? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu levo sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Quando, mais tarde, voltou com a farinha, perguntou:
- Quem me ajuda a assar essa farinha?
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu asso sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. A galinha ruiva assou a farinha e com ela fez um lindo pão.
- Quem quer comer esse pão? - perguntou a galinha.
- Eu quero! - disse o cão.
- Eu quero! - disse o gato.
- Eu quero! - disse o porquinho.
- Eu quero! - disse o peru.
- Isso é que não! Sou eu quem vai comer esse pão! - disse a galinha. – Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
Recontada por Penryhn Coussens
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LENDAS INDÍGENAS
MARA
Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz.
Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos como por encanto.
Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros quanto a luz do luar. Deram-lhe o nome de Mandi e na tribo ela era adorada como uma divindade.
Pouco tempo depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em sua oca, por não querer separar-se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local, deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim a filhinha voltasse à vida, pensava. Até que um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto. A mãe surpreendeu- se; talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra, encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi, que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável.
Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no principal alimento indígena.
O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi fora sepultada na oca.
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NOVOS
LIMPEZA
O tempo, tricotando as horas,
tece tapetes, tece tapetes.
E na sala indimensional
estende-os sob suas redes.
Alguém se deita, alguém se levanta,
alguém já nada pode.
O pó de sapatos já sem rumo
infiltra-se no assoalho.
Alguém diz: "Sei que nada valho",
alguém grita: "Sei que tudo posso";
alguém se levanta, alguém se deita,
e a sala nunca está vazia.
Uma criada muda incessante-
mente circula entre os transeuntes;
vai varrendo as poeiras que jazem.
Lixo que, como toda criada,
sob os tapetes de silêncio
cuidadosamente acumula.
ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
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ATROCIDADE
O destino segura a agulha
e tece tramas fechadas
O povo segue na senda
num esquivo de azares,
feito jogo de ARRAIA
A cidade imóvel aos teus olhares
enterra meninos carentes;
ressuscita gritos contidos
de medo, do vírus da peste, da vida
A hora encerrada na noite
lameia escadas da cidade
de sangue, choro e suor.
Bocas argolam o medo
e fantasiam o corpo de morte
No canto um coro diz: Basta!
Deuses aquietem os Demos!
E guardem estes anjos
brilhando em focos dourados
liricamente ritmados nas luzes
diluídas da esperança!
TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
___________
A RODA
A roda gira gira
sem começo nem fim
ganha o mundo
pelo chão
com um espeto
atravessado
no meio do coração.
LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
____________
SONETO SAUDOSISTA
No Rio existe um bairro sobre o morro,
antigo, arborizado, todo urbano.
Ali, em setenta e sete, o melhor ano
vivi desta vidinha de cachorro.
Não é Santa Teresa que percorro.
Agora sou de novo um paulistano.
Já cego, vejo o mundo de outro plano.
Em sonho, deixo o corpo, mas não morro.
Viajo pelas ruas sobre o trilho.
O bonde aberto corre, beira o abismo.
Sou livre, não me escondo nem me humilho.
Mas volto ao meu exílio quando cismo
que posso ter deixado ali meu filho,
dum tempo em que amor livre era anarquismo.
GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
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INTERAÇÃO
EXISTE ALGO DENTRO DE MIM
É QUANDO FECHO OS OLHOS
E É QUANDO REALMENTE VEJO
É A VISÃO SEM VISÃO
APREENSÃO FLUÍDICA
DO INATINGÍVEL
CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________
CANÇÃO PARA TEREZINHA
Quando conheci Terezinha
ela trabalhava como vedete principal
numa velha canção de ninar.
Eu me acostumei com o acalanto
e me acostumei com o sono
angustiado que era
pela queda que a levou ao chão.
Outro dia
quando encontrei Terezinha na praia
e ela me olhou distante
e me disse assim muito prazer,
reconheci a antiga atriz
que se vê toda noite na tevê
sem que ela nos veja.
E compreendi, finalmente,
mesmo sem ser ela de Jesus
nem eu o terceiro homem
a quem deu a mão um dia,
que era esta a que me acalentava as noites,
me secava as feridas
e me assoprava a vida.
SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
________________________
O PÃO REPARTIDO
Vos concedo a graça
da palavra pão
repartida em nacos
para o horror das bocas
amargando fomes
mastigando mortes
cuspindo silêncios
não o pão concreto
mas só a palavra.
Vos dou o direito
de comê-la inteira
com sabor nas línguas
fracionando as letras
ingerindo os sons
mordendo os sentidos
não o pão dos fornos
apenas a idéia.
Pode o pão que oferto
dar sustento a todos
no rigor das fábricas
no amargor dos campos
no calor das ruas
não o pão que é pão
mas o que é poesia.
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
________________
HAICAIS
No meio da noite,
alguém tosse igual meu pai
e acorda a saudade
*
Paisagem azul
a me recordar Monet
- glicínias em flor
*
Cão chega molhado
da caminhada noturna
- orvalho no campo
MADÔ MARTINS
Santos/SP
____________
INSTANTE
No pátio do hotel
as folhas vermelhas
caídas no chão.
A entrada, o tapete,
três folhas caídas
da minha mão.
Silêncio amarelo:
furtivo momento
em que fui outono.
LUCIA FONSECA
Rio de Janeiro/RJ
in: O Paraíso Era Antes
Editora da Palavra
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alguma coisa
quebrada
não se fez ouvir
a queda
a fala
asa partida de louça
seqüela entorpecida
como aquela solidão
pregada na janela
olhos perdidos no chão
alma guardada
debruçada na amplidão
pendurada no nada
EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
______________
TESTAMENTO
A Luiz Antônio Martins Pimenta
Minha poesia é assim,
suja, feia, incomum,
tem meu jeito de ser,
é coberta de desdém,
é feita de muitas vidas,
é louca, é desmedida,
é ferida de todo alguém.
Minha poesia é assim,
velha, fria, incontrolável,
memória do meu passado,
resto de coisas afins,
lembrança deixada n’alma,
a flor, o ferro, a palma,
a tua vida marcada.
Por isso deixo em testamento
nenhuma coisa sequer,
somente a pena na folha,
um resto de noite na alma,
a lágrima que molha.
A minha poesia é assim,
presente que não viveu,
passado já esquecido,
futuro que não terá,
o beijo que não se deu,
o abraço não conseguido,
o poema que não se fará.
WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
______________
CADÊNCIA
No dopler colorido
ouço o som da VIDA
vibrando dentro de mim.
Lateja o sangue vermelho
como num grande espelho
entre o azul e o carmim.
Num ritmo denso e pulsante
corre meu sangue incessante
fantástico tamborim.
Sem descanso me acompanha
pelas manhãs radiosas
da sucessão dos meus dias
pelas tardes venturosas
pelas noites nebulosas
das minhas horas vazias.
Ouço no som da VIDA
o pulsar primevo do mundo
o vagido mais profundo
o fluxo e o refluxo das marés
os escravos das galés.
Corre o sangue, forte e sincopado,
em meu coração, eterno aliado,
do acme orgástico do prazer
nessa espetacular aventura
que é VIVER!
NEIVA PAVESI
Santos/SP
____________
TROVA
Olho o céu, a noite é calma,
sinto as carícias da lua.
A tropeçar em sua alma,
segue um mendigo, na rua.
HUMBERTO DEL MAESTRO
Vitória/ES
in: Trovas, Haicais e outros Poemas
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RETORNO
Devolvam-me
certas paisagens
passagens voláteis
na memória.
Devolvam-me
tantos acordes
em dissonância
a vida agora
só diz sim...
Devolvam-me
todas as cores
fragrâncias
do imaginário mágico
que eu tinha.
Cobrem-me as contas depois...
RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
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FAMA & GLÓRIA
No terraço
do bar
da 6th street
ao fim da tarde
também tenho
o meu lugar
ao sol.
Quinze minutos
de glória tranquila
de fama morna
e de cerveja gelada
em Austin,
no Texas.
FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
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POEMA DA CIDADE
Para o amigo José Lucio Souza
Escrevo para a cidade
para seus flamboyants
que acolhem bem-te-vis
em todas as estações.
Escrevo para os homens
de coração comum,
mente lúcida
e jeitos de moleque.
Para as bicicletas que levam frutas
para agradar alguém que se ama.
E para os cães de rua que sugam nossa alma
com olhos de quem só espera afeto.
Escrevo como quem nada espera
e que no dia de todas as devoções
se entrega largo a um abraço
a amigos e desconhecidos.
Escrevo para você esta carta
simulada em livres versos,
para lembrar que somos irmãos
de toda estrela, galho ou terra,
e que somos donos, tão somente,
tão somente de coisa nenhuma.
Nessa noite fria, escrevo para a cidade,
para suas amendoeiras e acácias,
suas almas de gente oriunda de toda parte.
CAMILO MOTA
Saquarema/RJ
in: Poésis nº 149
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LIÇÕES DE CASA
- Mas, irmãos, é só isso o amor?
Não, pensando bem, o amor também
é luz de chama em copo de azeite
ardendo mais e mais quanto mais venta
na casa das pessoas sem vintém...
... gente que chora e que ri nos velórios
e tira o peito para dar o leite
e acena com lenços para a História
ergue o nenê para ver o artista
gente que morre nas guerras e pestes
nos genocídios e nos atropelamentos
gente a correr sem entender terremotos
bombardeios filósofos conquistas
desabamentos a política o terror
a chuva de granizo e a falta de amor
a ferir mais que a falta de juízo
DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
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das lutas
nem todas são vãs
nem todas vão
para os divãs
DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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DEUS
Deus é o murmúrio das águas do rio
batendo nas pedras,
é o raio dourado no alvorecer
Deus é Paz,
é meu sangue correndo nas veias,
é a vida.
É o suor da lida do homem do campo,
é a lágrima do sentimento puro
da dor,
da alegria,
da saudade.
Deus é o cântico das aves que brindam a floresta,
é o canto da chuva,
do mar,
do trovão,
o estalar do raio, o clarão do relâmpago.
Deus
é o cheiro do mato,
o sentido do tato no abraço morno
nas noites de amor.
É o inseto que voa,
o animal que rasteja, que salta, que preserva
o equilíbrio da espécie.
Deus é o homem,
é o bicho,
é a planta.
É o Universo perfeito, em equilíbrio.
é a luz que rege o sistema.
Deus é poema...
É canto, é alegria,
é musica.
DEUS? É HARMONIA.
DALVA ARAÚJO
Santos/SP
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TEATRO DE SOMBRAS
Imagens esparsas pelo ar,
borboletas de asas abertas a voar...
Surge à lembrança: sombras à luz da vela.
Serão as rezadeiras na capela?
Eis que entre duas cadeiras,
o pano branco e fino é estendido.
Nenhuma ruga ou frouxidão.
E as imagens de papel correm de mão em mão.
Silhuetas recortadas ganham vida,
suspensas nas asas da imaginação.
Em semicírculos, crianças embevecidas
e nos olhos sonhadores, a ilusão.
Dedos hábeis manipulam as formas,
marionetes no alvo pano de algodão...
E de um lado e do outro do tecido,
o sentimento alinhava a composição.
REGINA ALONSO
Santos/SP
__________
RECICLAGEM
Do esperma reciclado faz-se vida;
Do arroz reciclado faz-se bolinho;
Da careta reciclada faz-se riso;
Do vírus reciclado faz-se vacina;
Do novelo reciclado faz-se casaco;
Da areia reciclada faz-se castelo;
Do louco reciclado faz-se gênio;
Do discípulo reciclado faz-se mestre;
Do inverno reciclado faz-se primavera;
Da erva reciclada faz-se chá;
Do country reciclado faz-se rock;
Do almoço reciclado faz-se jantar;
Do sapo reciclado faz-se príncipe;
Da debutante reciclada faz-se noiva;
Da paisagem reciclada faz-se quadro
E do lixo reciclado faz-se arte;
Arte do lixo,
Criatividade reciclada
Apartando arte de lixo
Extraímos do lixo a arte.
LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in: www.mandandobrasa.blogspot.com
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AINDA O AMOR...
O amor quando vem devagarinho
É insidioso, como um vinho gostoso
Que esquenta de mansinho,
Bem de leve, aos poucos, cola na pele
E de repente, indelével é o senhor!
Penetra no fundo da alma
E quando a razão alcança, é tarde...
A euforia que com a gente bole
Vale bem mais do que um simples gole
O amor estica o coração como um fole
Mas às vezes o elástico não agüenta,
Arrebenta a explosão de cor que sustenta
E o amor, que punha guizo em sorrisos,
Do jeito que veio, vai sem aviso
Ficamos ao léu, em um mar de estupor
Cegos da visão prévia de um paraíso
Desnudos sem escudos contra a dor
Bom seria o amor sem o amanhã ameaçador
Porque com ele vem junto o dissabor...
Para durar, mantenha o amor no eterno presente,
Combata os fantasmas das desconfianças
Impeça o ciúme de usar suas lanças
Pena quem não amou por medo de amar
E a delícia do amor não viveu,
Não sabe o quanto perdeu
Porque morreu antes de ver a morte chegar...
NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________
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Além das seções da revista POETIZANDO
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* O Homem Natural
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* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
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* Um Poeta na Espanha
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O Poeta
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FANZINES:
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Editora: Eunice Mendes
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Quão glorioso
Nas folhas verdes, folhas tenras,
O brilho do sol !
Bashô
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ROSA
Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim
E nas faces também tinha
Duas rosas de carmim.
Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou essas que unindo estás?...
Ela fitou-me sorrindo,
Ainda mais enrubesceu;
Depois, ligeira fugindo,
De longe me respondeu:
"Não dou-te as rosas das faces
Nem as que tenho na mão:
Daria, se me estimasses,
As rosas do coração."
AFONSO CELSO
______________
AUTORES DO MÊS
Setembro
AUTA DE SOUZA, poetisa brasileira, nasceu em Macaíba/RN em 12 de setembro de 1876 e faleceu em Natal/RN em 7 de fevereiro de 1901. De linguagem muito simples, direta, comunicativa e mística produziu uma obra de profundo sentimento religioso. Seu texto aproxima-se muito do Simbolismo, sendo descoberto pelos críticos católicos.
Obra: Horto (1900)
CANTIGA
Meu sonho dourado e leve,
que buscas tu a voar?
Um ninho branco de neve
onde me deixem cantar.
E em busca das nuvens belas
lá vai meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.
Pergunto ao sonho, chorando:
Por que foges a cantar?
E ele responde, cantando:
Porque não quero chorar.
E em busca das nuvens belas
foi-se meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.
__________________
Outubro
ÁLVARO DE CAMPOS, heterônimo de Fernando Pessoa, poeta português, segundo o autor "nasceu em Tavira no dia 15 de outubro de 1890 (à 1:30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois foi feito o horóscopo para essa hora, está certo), é alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se, cara raspada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado do lado. (...) Como escrevo em nome desses três? (...) Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê."
Algumas Obras: Ultimatum (1917), Aviso por Causa da Moral (1923).
ÀS VEZES
Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
ÁLVARO DE CAMPOS
in: Ficções do Interlúdio
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HINO
Em sentido literário, o hino pode ser definido como um poema ou cântico lírico de invocação e adoração, exprimindo os mais altos sentimentos. Celebra uma divindade, um personagem ilustre, fenômeno da natureza ou algo notável. Em suas origens, ele está vinculado ao culto religioso, tanto no Ocidente como no Oriente, associando-se ao canto ou dança.
Alguns autores: Homero, Píndaro, Calímaco, Cleanto, Mesômedes, Tertuliano, Eusébio.
HINO À DOR
Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam. . .
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas. . .
E, assim, em convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!
AUGUSTO DOS ANJOS
in: Outras Poesias
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LETRAS
LUA BRANCA
Ó lua branca de fulgores e de encanto,
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
vem tirar dos olhos meus, o pranto
Ai vem matar essa paixão que anda comigo,
Ai! Por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem e arranca
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração.
E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada,
A sua luz então me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
Ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo...
Ela partiu, me abandonou assim
Ó lua branca, por quem és, tem dó de mim!...
CHIQUINHA GONZAGA
Obra composta em 1911, traz a união da suavidade da melodia com a letra simples, produzindo um dos mais belos momentos da Música Popular Brasileira.
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HERMANOS
ADIÓS, RÍOS; ADIÓS, FONTES; (fragmento)
Adiós, ríos; adiós, fontes;
adiós, regatos pequeños;
adiós, vista d'os meus ollos,
non sei cándo nos veremos.
Miña terra, miña terra,
terra donde m'eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.
Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiñas d'o meu contento.
Muiño d'os castañares,
noites craras d'o luar,
campaniñas timbradoiras
d'a igrexiña d'o lugar.
Amoriñas d'as silveiras
que eu lle daba ô meu amor,
camiñiños antr'o millo,
¡adiós para sempr'adiós!
¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nascín,
deixo a aldea que conoço,
por un mundo que non vin!
Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga pol-o mar;
deixo, en fin, canto ben quero...
¡quén puidera non deixar!
ROSALÍA DE CASTRO
Poetisa Galega
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MULHER
COMO TE AMO?
Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.
ELIZABETH BROWNING
ELIZABETH BARRETT BROWNING, poetisa inglesa, nasceu em Coxhoe Hall, perto de Durham, a 9 de março de 1806 e faleceu em Florença a 29 de julho de 1861. Produziu uma das melhores poesias da Inglaterra. Foi casada com o poeta Robert Browning.
Algumas Obras: Janelas da Casa Guidi (1851), Aurora Leigh (1856), Poemas antes do Congresso (1860).
________
POETAS PORTUGUESES
SONETO
Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.
Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.
Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.
Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.
VIOLANTE DO CÉU
VIOLANTE DO CÉU, nome adotado como freira dominicana por Violante Montesino, poetisa que nasceu em Lisboa em 1601 e faleceu na mesma cidade a 21 de janeiro de 1693. Tornou-se freira em 1630, Sua arte poética tinha grande poder verbal, intelectualizando temas líricos com grande sinceridade.
Algumas obras: Rimas (1646), Parnaso Lusitano de Divinos e humanos Versos (1733).
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ERÓTICA
NA PENUMBRA
Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,
Lembras-te? . . . apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo. . .
Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...
Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!
E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!
RAIMUNDO CORREIA
RAIMUNDO DA MOTA AZEVEDO CORREIA, poeta brasileiro, nasceu em um navio na baía de Mogúncia/MA a 13 de maio de 1860 e faleceu em Paris a 13 de setembro de 1911. Formou um dos grupos mais fortes da poesia parnasiana brasileira. Algumas obras: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891).
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FOLK-LORE
O fato mais característico do folclore santista é a Fonte do Itororó, que existia no sopé do Monte Serrat, perto do início da escadaria. Há séculos ela era procurada por sua água límpida e cristalina que brotava da rocha. Enquanto Santos não tinha serviço de abastecimento, a bica do Itororó servia o povo. Ela tornou-se lendária, pois diziam que quem bebesse de sua água não deixaria mais a Cidade. A biquinha do Itororó ficou tão famosa, que a Prefeitura mandou urbanizá-la. Tempos depois ela secou. Mas ficou eternizada na cantiga de roda, que ainda hoje se escuta na boca do povo.
Recorde-a:
Fui a Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei
Aproveite minha gente
Que esta noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada.
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LENDAS INDÍGENAS
MIRIXORÃS
Mirixorãs, são as prostitutas existentes nas tribos de índios brasileiros. Elas são escolhidas entre as meninas mais bonitas – duas ou três cada geração. São consagradas numa linda cerimônia, não podem mais se casar. São mulheres de todos, são mulheres de ninguém, são mulheres de si mesmas, porque se fazem desejadas por todos os homens. Elas não causam ciúmes nas mulheres casadas. Ao contrário. Em certas épocas elas aconselharão os maridos a procurarem as mirixorãs que serão boas e carinhosas com eles.
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SOBRE FÁBULA
A fábula é um dos jeitos mais antigos de contar estórias! Foram descobertos vários registros no Egito e na Índia, em livros sagrados como o Pantchatantra, que é escrito em sânscrito e em livros que revelavam os segredos do sucesso na vida política, como Calila e Dimna. Do Oriente para o mundo ocidental, vamos ter Esopo - o nome do mais famoso fabulista. Outro nome bem conhecido é Jean de La Fontaine - mas esse é bem mais "moço", nasceu na França, em 1621. Agora, entre um e outro, entre Esopo e La Fontaine, existiram muitos outros homens interessados na Fábula - e, é claro, depois deles também. As fábulas querem dizer e dizem muito em poucas linhas. Podem ser em prosa ou em versos; seu título apresenta de imediato os personagens que tomarão parte da trama e a gente pode, assim, imaginar o conflito que está para acontecer. É da fábula que nasce "a moral da estória" - na verdade, um conselho ou um julgamento sobre os fatos que acontecem na vida que nos é dado pelo narrador.
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No dia 12 de setembro, junto com o lançamento da revista literária artesanal POETIZANDO nº. 30, houve também a apresentação do novo livro da poetisa e artista plástica EUNICE MENDES: CERIMÔNIA DAS FLORES. Segue um poema desse trabalho que dá título ao livro.
CERIMÔNIA DAS FLORES
eu era a menina
que todas as tardes
sentava no muro do jardim
e oferecia uma flor
a quem passasse no meu portão
tinha em mãos
um grandioso bouquet
de margaridas
cravos
rosas
violetas
lírios amarelos
e bocas de leão
fossem homens ou mulheres
crianças ou velhos
ricos ou pobres
eu lhes dava uma flor
do meu jardim
e recebia sorrisos
coroados de sol;
alguns, surpreendidos,
não compreendiam de imediato
a singeleza do gesto
e me olhavam atordoados e inquietos
- a flor insistia em minhas mãos
eu era a mensageira das flores
que todas as tardes
sentava no muro de casa
e celebrava a vida com esperança
nada sabia das outras vidas
e isso me fascinava
porque cada uma delas
não era eu
havia uma intensidade
nos seus universos desconhecidos
que me encantava e embevecia
como se inconsciente soubesse
que só me completaria ali: no outro
queria que aquelas mãos desconhecidas
apenas se estendessem para as minhas
e simplesmente recebessem
o que lhes ofertava com alegria
entre mim e o outro
coloquei uma flor:
- ponte e convite
com o passar do tempo
as flores foram se tornando outras coisas
mas a intenção do gesto persistia
a mão gratuita estendida
ofertando possibilidades
as mãos brancas e finas
de dedos longos e magros
mãos cheias de anéis
mãos que desenhavam
e faziam bordados
teciam flores de papel
e passarinhos de barbante
mãos que escreviam
pareciam de menina ainda
de unhas curtas e pequeninas
pintadas de dourado
pintadas de branco pérola
mãos que recortavam
coloriam
construíam coisas inúteis
- as mesmas mãos das flores
mãos que tanto pediam
cartas
conchas
caixas
a se tornarem
pássaros
nuvens
peixes
as mesmas mãos das flores
fazem do antigo gesto um poema:
ponte e convite
- a flor insiste em minhas mãos
__________________________
NOVOS
RESTOS
Tudo o que em mim há muito já não sinto
- dor ou prazer, ânsia de morte ou vida -
persigo em meu interno labirinto,
para levar bem rápido à saída...
O que já não afirmo ou já não minto,
e o ego já não crê nem já duvida
- frações sem uso do apagado instinto
ou partes mortas da razão perdida -
já não me servem, pois são trastes fúteis.
Como algo que parou de funcionar,
são sentimentos para sempre inúteis.
Como tantos restos em minha alma escura,
vou procurar-me sem jamais me achar
ou encontrar-me sem qualquer procura.
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
___________________
DESPERDÍCIO
O POEMA
QUE SE PERDE
NO CLÍMAX DO INSTANTE
É COMO UM LIVRO ESQUECIDO
ABANDONADO
QUE VAI MOFAR NA ESTANTE
CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________
SONETO SETENTISTA
Setenta foi a década do escuro,
contra a liberação que a precedia.
Enquanto a precedente foi do dia,
a ditadura atinge o grau mais duro.
Regime militar detrás do muro
da lei de segurança e covardia.
Cercada, a intelligentsia se escondia,
e o cidadão pensava estar seguro.
Não me exilei, mas fiz oposição
dum modo panfletário original,
mistura de vanguarda com calão.
Fanzine de poesia marginal
foi precursor da mídia, desde então,
no que esta tem de forma e de informal.
GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
________________________________
VIGÍLIA
Quando a vida
Tomba
Tomba
Tomba
Pietà
em meus braços
De
caída
Plena
em pleno
cansaço
Oh
não
adormeço
(a morte
espreita
meus passos)
RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
_________________________
NA ARQUITETURA do amor
és mais do que cornija
Não te abandonas
como ninho ausente
de não dormidas andorinhas
Provocas
o humilde ventre
e os seios indetidos
Nem sequer
na divina corrida
ficas quieta
olhando para o céu
No entanto
na geometria
aparentemente fria
das colunas vivas
és uma cornija
Mas voas
um céu interior
onde os ventos
são presos
na posse.
ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________
CÉU FASHION
O vento acabara de pentear as nuvens,
Quando olhei o céu.
Dois pássaros serviam de presilhas.
MADÔ MARTINS
Santos/SP
__________
DESA(R)MADO
Vou desa(r)mado
ao teu encontro
sem risos
sem festas.
Com sal
nos olhos cansados.
Levo sob os ombros
escombros de sonhos.
Cidades devastadas
dentro de mim.
RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
__________________________
PARADOXO
Sentimento, amor, é utopia
Nesta era de feras fabricadas.
Isto é coisa somente de poesia,
Deletério de vidas fracassadas.
Nesta era de impulsos bestiais,
Onde o amor é o escudo dos vencidos,
Ser forte é ter olhos glaciais,
Ser fraco é ter olhos distraídos.
Ser forte é calçar umas botinas,
Portar em cada mão uma granada
E o coração na ponta de uma espada.
Ser fraco é deitar-se nas campinas,
Sem se importar se existem duas Chinas,
E doido amar uma mulher amada!
LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Antologia Poética
__________________
TROVAS
Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.
*
Se na aflição se padece,
busque em Deus a solução...
A calma do céu nos desce,
no intercâmbio da oração.
FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
in: Gotinhas de Orvalho
____________________
MINOTAURO
para Guido Guerra
Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.
Esfaqueado,
Teseu perambula
entre
muralhas
inutilmente lúcido.
CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
__________________
Do alto das torres do tempo as nuvens observam
Languidamente o anônimo passar dos dias
E dos homens.
Moldam-se em ondas alucinadas
Redesenham figuras no espaço
Sobre os autômatos caminhares humanos.
Formam ursos, carros, totens,
As nuvens e seu destino
De parecer o que não são
Como os homens.
BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_____________________
SAL MORA
Meu pote velho de sal.
Velho, até que se quebre.
Açúcar não colocaram
no bojo de tuas entranhas.
No rosa, branco, marrom
moldaram flores barrocas.
Destino, ser doce ou salgado!
Mistério insondável da vida.
De insetos te protegendo
dois parafusos sustentam
a tampa da árvore já morta,
na placa "sal", que enferruja.
Meu pote velho!
Comerás muitos sacos de sal
e abrigarás a salmoura
por seres sua morada.
Velho sal!
De colher em colher
te doas... mas tornam
a salgar o pote.
Pote velho, pote velho,
mãos sem forças
que te enroscam,
esquecidos do mel.
O homem segura o pote.
Os deuses seguram o homem.
De sal igualmente contidos
desmanchando-se na mesma sorte.
Da água ambos vieram,
na água eles se dissolvem,
e a terra é que engolirá
a amargura dessas vidas.
TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
__________
MANIA
Pelo tempo que me resta,
vocês terão que agüentar:
esta mania cantadeira
composições
versos livres
Não consigo me calar.
A inspiração me persegue
em qualquer canto ou lugar.
Já nem sei onde me encontro.
Sei que posso imaginar.
E monto nesse cavalo
galope alago, sem parar.
Presa nas crinas do sonho,
canto livre pelo ar!
A poesia corre solta.
Invade casas, jardins.
Senta no banco da praça
- ao meu lado. Nunca se afasta de mim.
Vou escrevendo pelo mundo afora:
vento água areia...
- qualquer vão. Até emudecer meu canto
e calar meu coração.
REGINA ALONSO
Santos/SP
___________
POEMA QUASE TEOLÓGICO
Cansaço
deste cansaço. Deste
fitar horizontes fechados,
crernãocrer para lá do paredão de treva
imensidades lúcidas. Cansaço:
peixe no mar do inumerável,
adstrito ao zero da esfera. Cans-
aço: casulo no infinito,
não rompê-lo. Prévio
cansaço
do inútil arranhar o espaço, - o tempo
incólume.
No tempo
erguem-se decisivas as muralhas da treva.
ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_______________________
PAZ
As pombas comeram milho
nas mãos do mendigo purulento.
Pombas sem fel.
Quanta ironia!
Comeram o milho e, agradecidas,
deixaram em sua pele
a virose agressiva e fatal
que aos poucos levou
ao panteão imortal
seus ossos de milho.
NEIVA PAVESI
Santos/SP
_________
flamboyant
Nem palavra nem árvore. Flamboyant é bote, boiando acima da tarde.
˚
No período de floração, flamboyant é flama. Convém manter as crianças à distância. Os amantes nem tanto.
˚
Flamboyant cresce à margem do dicionário. Parce que il ne parle pas, il flambe.
FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Juiz de Fora/MG
in: Dicionário Mínimo
___________________
DESCOBERTA
Final de tarde.
Pelas alamedas verdes
vou caminhando triste,
solitária de mim,
numa tristeza de final de primavera,
de mudança de tempo,
de saudade.
Os olhos grudados ao chão,
sem rumo,
vou simplesmente caminhando...
Remoendo a tristeza de ser triste.
A noite
ligo a televisão e percebo
na pauta de um jornal, a repórter
mostrando o viço dos roseirais,
das palmeiras,
das margaridas, enfim,
da beleza majestosa que emoldura
as alamedas onde passeei minha tristeza.
Naquele instante
dei-me conta que a vida,
abraçada a mim naquele trajeto,
tentava me trazer de volta.
DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP
__________
O POSSÍVEL DA MEDIDA
Retocar
a seiva
do verbo.
Reflectir
no oculto
da face.
Retirar
o sentido
da rima.
Reservar
o rebordo
da espera.
Remeter
à farsa
da fala.
Recear
o toque
no seio.
Reportar
ao trauma
do signo.
Restringir
na proporção
do medo.
Requerer
o oposto
da questão.
E repesar
o possível
da medida.
FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
______________
para minha vó
ainda dou meu tempo aos jardins
e espero os brotos dos jasmins
no mês de maio
cobrir o chão de estrelas brancas
para em minhas mãos virar perfume
depois de secas em sachês bordados
minha vó também recolhia
as pequeninas flores perfumadas
e entre as suas mãos guardava
o encanto infantil de as ter juntado
agora estou sozinha em seu jardim
e as mãos dela às minhas
parecem haver se acrescentado
a mesma esperança
adormecida nas flores do jasmim
sonha acordada em mim
feito estrelas brancas perfumadas
EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
________________________
DUNAS III
A Luiz Antônio Martins Pimenta
Não sou um tiranossauro dos poemas.
Só quero exprimir o que sinto.
Não quero que tapem minha boca, nem esquemas.
Quero dizer verdades, não minto.
Vamos arrasar os malfeitores,
os que corrompem os poetas juvenis,
não daremos tréguas aos salteadores,
que habitam nos brasis.
Marcharemos companheiros, sem temor.
Versejando na terra da inspiração
e no soneto alado da canção!
Porque o pó fétido do mal amado
pulveriza o poema de amor,
mas no fim ele morre, acabado.
WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________
ANSIEDADE
Sentir na boca e na barriga
a emoção que sente,
toda noite,
a mulher do atirador de facas.
Até que a angustia da espera
cresça tanto
que o desvio da arma
passa a ser desejado.
Mas se teima a destreza
em ser milimétrica
no perfil,
vai o corpo de encontro
à rota determinada.
Como se fosse inexorável
morrer de medo
ou de coragem.
SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
________________________
Segredo é uma coisa
que se conta
para poucas pessoas
e essas poucas pessoas
contam para outras
poucas pessoas
e essas outras
poucas pessoas
só contam para algumas
poucas pessoas
Segredo é uma coisa
que muitas pessoas
podem ficar sabendo
DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
_______________
SONETO DO MAR
E me é doce olhar tuas águas
e enxergar nelas uma luz latente
azul e verde, simultaneamente:
nestas cores afogo minhas mágoas.
Esqueço da vida os dissabores
e me encontro comigo próprio
sem precisar de qualquer ópio
só me enxergando nas tuas cores
Sinto que o amor fica muito perto
quando bem perto eu fico do mar
E você, quando vem me encontrar?
para este amor fica mais certo
para este amor se consumar
no brilho, no sal, nas cores do mar.
MARCELO LOPES
Guarujá/SP
____________
Sobre a areia e o mar
Passeia a lua tão cheia
Dando paz demais
*
Sobre os prédios altos
Reflete a lua de prata
Seu manto de luz
*
Se vem hoje o amor
Prometo à lua no céu
Amá-lo prá sempre
NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
__________
MAR
Eu te reverencio pela doce provocação com tuas ondas inquietas, que insistentemente me vêm beijar os pés na branca areia da praia.
Eu te reverencio por embalares com a canção de tuas ondas, os pescadores com suas jangadas, no leito de tuas águas, para buscarem o seu pão de cada dia.
Eu te reverencio por trazeres tantos irmãos de tantos outros lugares que procuram a realização de seus sonhos.
Eu te reverencio por teus mistérios, tua magia, teu poder e tua beleza, com esse azul refletido da imensidão do céu.
DEISE DOMINGUES GIANNINI
Santos/SP
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Além das seções da revista POETIZANDO
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você poderá encontrar na revista impressa:
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Editora: Eunice Mendes
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- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
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FANZINES:
Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes
Escritos - Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog: http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
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