Revista Poetizando

14.6.09

POETIZANDO Nº 33
(Edição de Inverno)


PAISAGEM OUTONO – INVERNO

Foi rápido como as horas não percebidas
como o pensamento
Amanheceu folhas no chão
Coisas inesperadas do vento
chegou de mansinho
Sacudiu Fugiu

É o tempo

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
________________

AUTORES DO MÊS


JUNHO

ANTONIO DUARTE GOMES LEAL, poeta português, nasceu em Lisboa a 6 de junho de 1848 e faleceu na mesma cidade a 30 de janeiro de 1921. Seus poemas apontavam um caminho simbolista aparecendo nos jornais em 1866. Já em 1869, seu nome já aparecia como "poeta novo" ao lado de Teófilo Braga, Antero de Quental e Guerra Junqueiro. Foi poeta folhetinesco, panfletário e satírico, usando como temas a filosofia, a política e a religião.
Algumas Obras: Claridades do Sul (1875), História de Jesus (1883).

O VISIONÁRIO OU COR E SOM

2

Alucina-me a cor! – A rosa é como a Lira,
a Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
e é já velha a união, a núpcia sagrada,
entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, brota a flor, que não inspira,
a teatral camélia, a branca enfastiada,
muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
como a perdida cor dalguma flor que expira...

Há plantas ideais de um cântico divino,
irmãs do oboé, gémeas do violino,
há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada,
e o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
– tem notas marciais, soa como um clarim.

in: Claridades do Sul
________________


JULHO

EMÍLIO DE MENESES, poeta brasileiro, nasceu em Curitiba/PR a 4 de julho de 1866 e faleceu no Rio de Janeiro a 6 de junho de 1918. Grande boêmio e satírico, transferiu-se para o Rio de Janeiro escrevendo crônicas para os jornais em que satirizava as figuras célebres da época. Aderiu ao Parnasianismo, produzindo rimas raras, contudo, sua importância maior foi como satírico. Depois de duas tentativas frustradas, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1914, mas não chegou a tomar posse, pois seu discurso foi considerado ofensivo aos imortais Oliveira Lima e Afrânio Coutinho.
Algumas Obras: Marcha Fúnebre (1892), Poemas da Morte (1901), Dias Irae (1906), Últimas Rimas (1917), Mortalhas – Os Deuses de Ceroula (1924 – póstumo).

ÚLTIMOS VERSOS

A arte, amigo, em noss'alma só se interna
Por caminho em que o uso é um empecilho,
É a dor, a eterna dor, a estrada eterna
Que eu, entre versos, pés sangrando, trilho,

Quantas vezes o atro fundo da cisterna
A água que dela sai mostra no brilho
É o fulgor de uma lágrima paterna
A refletir a imagem de um mau filho.

in: Esparsos e Inéditos
_________________

AGOSTO

LUÍS NICOLAU FAGUNDES VARELA, poeta brasileiro, nasceu em Santa Rita do Rio Claro/RJ a 17 de agosto de 1841 e faleceu em Niterói/RJ a 18 de fevereiro de 1875. Entrou para a Faculdade de Direito de São Paulo, mas não concluiu o curso devido sua vida boêmia. Sua poesia teve várias fases: patriótica, lírica e religiosa. Somente depois de sua morte, a crítica reconheceu seus poemas elegíacos e a qualidade de sua literatura.
Algumas Obras: O Estandarte Auriverde (1863), Vozes da América (1864), Cantos e Fantasias (1866), Cantos Meridionais (1869), Cantos do Ermo e da Cidade (1869).

SONETO

Eu passava na vida errante e vago
Como o nauta perdido em noite escura,
Mas tu te ergueste peregrina e pura
Como o cisne inspirado em manso lago,

Beijava a onda n’um soluço mago
Das moles plumas a brilhante alvura,
E a voz ungida de eternal doçura
Roçava as nuvens em divino afago.

Vi-te; e nas chamas de fervor profundo
A teus pés afoguei a mocidade
Esquecido de mim, de Deus, do mundo!

Mas ai! cedo fugiste!... da soidade,
Hoje te imploro desse amor tão fundo
Uma idéia, uma queixa, uma saudade!

in: Vozes da América
________________

ORAÇÃO

Do português Oração,
Do espanhol Oración,
Do francês Oraison,
São derivados do séc. XII a XIV do eclesiástico Oratio, cedo popularizado na acepção religiosa. O mesmo que: discurso proferido pela boca, rezar, ler em voz alta, citar, que se obtém pela prece, rogar, suplicar. Segundo às perspectivas, através da oração, o homem é feito sujeito diante de Deus.

PAI NOSSO (EM GUARANI)
ORE RU

Orê ru, yvagape reimeva,
Tonhembojeroviákena nde rera,
Taoreanhuambá ne mborayhu,
Tojejapo ne rembipota ko yvy ári
yvagapeguaicna.

Eme’emo oréve ko ára kóavape,
Orê rembiurã opá ára roikoteveva.
Eheja reikena orêve orê mba’ê vaikuê
Rohejá re’haichá orê rapichápe hembiapô
vaikuê.
Anikena oremoingétei
Rojepy’á ra’ã vai haguame,
Há orê peákena m’baê pochy pogýgui.
Taupéicha.
___________

LETRAS


COM QUE ROUPA?

Agora vou mudar minha conduta
eu vou pra luta
pois eu quero me aprumar.
Vou tratar você com força bruta
pra poder me reabilitar
pois esta vida não está sopa
e eu pergunto: com que roupa,
com que roupa eu vou
ao samba que você me convidou?

Seu português agora deu o fora.
Já foi-se embora
e levou seu capital.
Esqueceu quem tanto
amou outrora
foi no Adamastor pra Portugal
pra se casar com a cachopa

Eu hoje estou pulando como sapo
pra ver se escapo
desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo
eu vou acabar ficando nu.
Meu paletó virou estopa
eu nem sei mais com que roupa,
com que roupa que eu vou
ao samba que você me convidou?

Agora já não ando mais fagueiro
pois o dinheiro
não é fácil de ganhar
mesmo sendo um cabra trapaceiro
não consigo ter nem pra gastar.
Eu já corri de vento em popa
mas agora com que roupa,
com que roupa, eu vou
ao samba que você me convidou?

NOEL ROSA
__________


HERMANOS

SONETO XXXVII

Ayer naciste, y morirás mañana.
Para tan breve ser, quién te dió vida?
Para vivir tan poco estás lucida,
y para no ser nada estás lozana?

Si te engañó tu hermosura vana,
bien presta la verás desvanecida,
porque en tu hermosura está escondida
la ocasión de morir muerte temprana.

Cuando te corte la robusta mano,
ley de la agricultura permitida,
grosero aliento acabará tu suerte.

No salgas, que te aguarda algún tirano;
dilata tu nacer para tu vida,
que antecipas tu ser para tu muerte.

LUIS DE GÓNGORA


LUIS DE GÓNGORA Y ARGOTE (1561 – 1627). Foi ordenado sacerdote aos 56 anos, sendo capelão. Sua obra poética inclui sonetos, romances e peças longas de severa arquitetura, e é articulada numa sintaxe complexa, com riqueza de vocabulário e de construções metafóricas, que valeram ao autor a acusação de hermetismo e obscuridade. Foi admirado por Cervantes sendo chamado de "o Homero espanhol".
Algumas Obras: Fábula de Polifemo e Galatéia (1612), Soledades (1613), entre outras.
_____________



MULHER

QUE PENSAS?

Que pensas agora, que dor tão profunda
As fibras do peito me vem estalar?
Talvez de saudades tu'alma se inunda,
Que a vida passada te faz recordar!

Também esta mente saudosa delira,
Que flor da tristeza só vem oscular,
Em pranto dorido minh' alma suspira
Sonhando contigo num doce lembrar.

As juras sagradas que em tão meigo enleio
Juraste é a fala convulsa d'amor,
Ainda palpitam aqui neste seio,
Qu' enluta amargoso, pungente tristor!

E sempre a lembrança da louca ternura
Abrasa a minh'alma de longa paixão,
Que desse passado, rosal de ventura,
Eu tenho o perfume no meu coração!

Ai doces momentos em férvido pranto,
Te digo chorando bem trêmulo - adeus...
Ai doces momentos, d' enlevo tão santo,
Ai vida d' amores tão puros, meu Deus!

(Porto Alegre, 8 de outubro de 1856)

RITA BARÉM DE MELO
(1840-1868)
___________



PoetaS PortugueseS

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de ouro e cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda gente!

FLORBELA ESPANCA

FLORBELA DE ALMA DA CONCEIÇÃO ESPANCA, nasceu em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894 e faleceu em Matosinhos a 8 de dezembro de 1930. De grande personalidade poética, foi autora de sonetos parnasianos que têm a exaltada sinceridade de uma confissão.
Algumas obras: Livro das Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1931 – obra póstuma), As Máscaras do Destino (1931 – contos – obra póstuma), O Dominó (1931 – contos – obra póstuma).
______________________

ERÓTICA

INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO (fragmentos)

Aqui – já era noite. . . eu reclinei-me
Nas moles formas do virgíneo seio:
Aqui – sobre ela eu meditei amores
Em doce devaneio.

Aqui – inda era noite. . . eu tive uns sonhos
De monstruosa, de infernal luxúria:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Em amorosa fúria.

. . .

Aqui – era manhã. . . via-a sentada
Sobre o sofá – voluptuosa um pouco:
Aqui – prostrei-me a lhe beijar os rastros
Alucinado e louco.

. . .

Aqui – oh quantas vezes!. . . eu a tive
Unida a mim – a derreter-se em ais:
Aqui – ela ensinou-me a ter mais vida,
Sentir melhor e mais.

Aqui – oh quantas vezes!. . . eu a tive
Em acessos de amor desfalecida!
Lasciva e nua – a me exigir mais gostos
Por sobre mim caída!

JUNQUEIRA FREIRE
________________

FÁBULA

O URSINHO E AS ABELHAS

Um ursinho que gostava muito de pintar telas, andava curioso pelo bosque, quando viu um buraco no tronco de uma árvore.
Olhando bem, percebeu que naquele buraco havia um vaivém contínuo de abelhas. - O que fazer?
Algumas delas, batendo as asas, giravam em volta do buraco como se estivessem de sentinela; outras, vindas de longe, entravam; algumas saíam e desapareciam no bosque. O ursinho, sempre curioso, esticou-se e pôs o focinho no buraco; farejou e depois enfiou uma das patas lá dentro. Quando a retirou, vinha escorrendo mel. Mal havia começado a lambê-la, saiu do buraco uma nuvem de abelhas furiosas que se lançaram sobre ele picando o nariz, o focinho, as orelhas . . .
O ursinho tentou se defender, mas as abelhas sempre voltavam. Furioso, tentou se vingar correndo atrás de uma ou outra, mas não conseguiu se vingar de nenhuma; por fim rolou na terra, vencido pelo terror e pelas picadas, e correu chorando para junto da mãe.
Nunca se deve meter o focinho onde não é chamado!
_____________

ORIENTE

A LOJA DE DEUS
Conto Oriental Tradicional

Entrei numa loja e vi um senhor no balcão. Maravilhada com a beleza da loja, perguntei:
- Senhor, o que vendes aqui?
- Todos os dons de Deus.
- E custa muito? Voltei a perguntar.
- Não custa nada, aqui tudo é de graça.
Contemplei a loja e vi que havia jarros de amor, vidros de fé, pacotes de esperança, caixinhas da salvação, muita sabedoria, saúde, fardos de perdão, pacotes grandes de paz e muitos outros dons de Deus. Tomei coragem e pedi:
- Por favor, quero o maior jarro de amor de Deus, todos os fardos de perdão, um vidro grande de fé, muita saúde, esperança, bastante felicidade e salvação eterna para mim e toda minha família.
Então o senhor preparou tudo e entregou-me um pequenino embrulho que cabia na palma de minha mão. Incrédula, disse:
- Mas como é possível estar tudo que pedi aqui?
Sorrindo, o senhor me respondeu:
- Minha querida irmã, na loja de Deus não vendemos frutos, só as sementes. Plante-as! Plante essas sementes, cultive-as no coração e distribua-as gratuitamente ao próximo.
_____________

LENDAS INDÍGENAS

MARAÍ

Maraí, uma jovem e bela índia, muito amava a natureza. À noite ficava a contemplar a chegada da Lua e das estrelas. Nasceu-lhe, então, um forte desejo de tornar-se uma estrela. Perguntou ao pai como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, veio a saber que Jacy, a Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas,
transformava-as em estrelas.
Muitos dias se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Resolveu então aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que esta apareceu, Maraí encantou-se com sua imagem refletida na água, sendo atraída para dentro do lago, de onde não mais voltou.
A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a numa bela planta, ganhando o nome de Mumuru, a vitória-régia.
___________

NOVOS

IMPRECAÇÃO

Por que me deste
um barco tão pequenino
para um mar tão grande assim?

Sem remo sem vela
sem roteiro e sem bonança
não terá praia nem fim

Se ao menos o meu barquinho
pudesse ser ancorado
num grão de areia sequer

Mas onde está essa ilha
que vai sumindo de vista
à vista do meu batel?

Quando me fizeste ao largo
não viste que minha frota
era papel?

Como queres que eu navegue
por esse mar tenebroso
numa lembrança de barco?

Pois agora lá de cima
manda uma ilha fincada
numa âncora de luz

O mar não será tão grande
nem o barco tão pequeno
no horizonte sem fim

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

CABEDELO

Há muito, já, que caminho.
Há muito que me demoro
neste barro quente e duro
por onde andar virou sina.

Andar, dizer-se em fadiga,
quando a sede ainda é nada
significa perder-se
depois de surgida a casa.

Eu ando pelo objeto
de caminhar e saber-se
caminhador sem fronteira.
eu ando pra que não chegue

o lugar que desconheço.
Eu ando como encantado
à margem desabitada
e escura do rio primeiro.

Eu ando como um menino
em busca de um sol inteiro.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
__________________

IMPURO POEMA

Poesia trafega
na contramão
do estabelecido.

Por vezes singra
em versamorosidades.

Noutras encontra
(o)dores & secreções.

Suja ou casta
iconoclasta
poesia nutre-se da vida.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
__________________________

POEMA Nº 9

Para Henriqueta Lisboa

Sou
girassol girando em
torno da sua boca;
e a sonora harmonia
do universo.
Sou
a gota do orvalho
que some com o sol.
Sou
roteiro das surpresas
onde irei encontrar
o definitivo da vida.
Sou
um poema forte, viril,
duro, despido e afirmado.
Sou
folhas do calendário
despregando todos os dias.
Sou
a dimensão perante
o mundo e o universo.
Sou
vento gritando
as maldições do tempo.
Sou
um besouro cego
teimando sobre um
quadro na parede.
Sou
a oscilação de uma emoção;
a certeza de vê-la na tela
da vida.
Sou
desespero da consciência
onde meu pensamento
irá rasgar o tempo.
Sou
pedaço da solidão
entre as pedras
ignoradas que
o tempo esqueceu.
Sou
a intensidade dos
raios solares onde
irei envolver
sua sombra.

LUIZ FERNANDES DA SILVA
João Pessoa/PB
_____________

PUREZA

As luzes se apagaram de repente.
E redescubro, em plena noite urbana,
o céu de minha infância.

Lírico céu noturno,
céu lavado de chuva, céu telúrico.
Estrelas, altas estrelas,
e ao nível de meu gesto os pirilampos.
Odor de terra e mato.
Sarapatel de sons: corujas, grilos, sapos.
Intimidades de capim e orvalho.
O gosto
bom de uma argila ainda não corrompida.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_____________________

CENÁRIO TEATRAL

Nos becos os sonhos escondidos transmutam-se.
E riscamos Cinderelas, cavalos brancos e príncipes.
O cachorro companheiro espreita pedindo afeto
e caminhamos de sapatos sujos, rotos,
amargando o frio das ruas.
A noite vai e volta e o dia não nos ilumina.
Embolados em jornais ou cobertos em trapos,
montamos um cenário teatral,
escondidos nas sucatas de automóveis.
Os estômagos tocam a música da fome
e se contorcem bailarinos
numa dança de revolta e oração.
Os Deuses de costas nos testam
e andarilhos, revivemos a Divina Comédia.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
___________

FRATELLO

Ressuscitei tua
foto 3X4
em branco e preto.

Teu olhar extraviado
de cachorro pidão
aproximou o
tempo distante.

Chorei
abraçada na alegria.

Fechei a gaveta
silenciei falando.

ZAIRA CANTARELLI
Porto Alegre/RS
in: Estalo nº 4
____________

PICASSO

Rosto liberto
da moldura
das feições
Concavidades
de convexas
aflições
Caos
na tauromaquia dos traços
de acrobatas pesadelos
em saltimbancos horrores
no verde-gris de Guernica.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
___________

USE - ME

Não, não atente para o que digo
capte nas entrelinhas do meu silêncio,
meu mais capcioso silêncio,
é sempre ele que fala por mim.
Não, não atente par o que digo,
veja o que faço
o que tenho feito
e o que deixo de fazer.
Não, não atente para o que digo.
veja pra onde levam meus passos.
Palavras são de dizer, intencionais ou não.
Palavras ficam ou vão
se dissipam no tempo
que me interessa é o ato
esse sim é perene
indelével
a palavra é de todos
o sentimento é de um só
um unicamente.

Sim, use-me em ti
Objeto direto
Abstração do concreto
Língua e lábios,
Labirinto, palavras.
Use-me
Até que eu perca os sentidos
Os cinco
Cínicos
Oníricos, lirismo gestual
Use-me sem sentido
Sentindo
E eu uso-te são
tesão.

BEBEL MENDONÇA (Campinas/SP)
LEANDRO LUIZ RODRIGUES (Santos/SP)
in: www.mandandobrasa.blogspot.com
__________________________________

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O poeta morreu
enquanto eu estava na rua.
Morreu e pronto.
Quando voltei já estava morto
sem que eu pudesse esboçar
a mínima reação
a tão insólita idéia.
O poeta morreu
enquanto eu estava na rua
desprevenido que estava.
Morreu sem deixar um aviso,
um bilhetinho na porta,
um adeus que fosse
ou coisa que o valha.
O poeta morreu e pronto.
O poeta morreu no Rio de Janeiro
enquanto eu jantava despreocupado
num restaurante em São Paulo.
Morreu sem licença poética.
Nem minha nem do Presidente.
É que, talvez, estivesse cansado de ser poeta.
Mas, também, não precisava sair assim,
à francesa,
só porque já tinha feito tudo,
sido o melhor,
quitado o assunto.
O poeta morreu e pronto.
O poeta morreu e pranto.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
__________________________

LIÇÕES DE CASA

- E é isso então o amor, irmãos?

Não, o amor também é lampião longe no mar
é vela acesa pagando promessa
e talvez por ignorância e sem pressa
o amor é só amor, simples como o ar
nas pessoas que vivem a amar

E o amor está ali na sopa fumegando
no botão bem pregado
no chá pro resfriado
na pomada e nas gavetas
na água para as plantas
no brilho das panelas
na vassoura e nos panos
nos cabelos penteados
nas cartas nos selos
em tudo está ao nosso lado
o amor, coisa dos humanos

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
_____________________

como pássaros
alijados de vôo
meus sonhos
ancoram nas pedras
criam crostas
cascas
depois descamam
feito pele
feito pó

mas sempre acabam
espalhados pelos céus
no revôo do vento
no refugo da fé

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
___________________
CASA

. . . Antonia tinha vida, apesar de não saber. . . Cozia, cozia, cozia. Na casa, esperava Pedro ou João. Não importava. Todo o resto tinha ficado num retrato na parede. . .

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Microcontos
_____________
IDÉIA

Em um terreno baldio
havia lixo, lama, lágrimas.
Abandono urbano.

Vieram mãos e sementes
e coração humano.
Idéias, atitudes e urgências
brotaram no terreno baldio.

Flor que aflorou sorrisos.
Esperanças no plantio.

Que matou a fome
e adotou um nome.

Horta comunitária!

Cresceu explodindo em frutos,
a idéia solidária.

DALVA ARAÚJO
Santos/SP
_________

O NEVOEIRO COBRE A CIDADE

o nevoeiro cobre a cidade
que lentamente acorda na madrugada.
os pássaros ainda não regressaram
por isso as suas vozes não se ouvem.
os carros que passam lá fora
produzem o único som na cidade ensonada.
um cão levanta-se
e rebusca os caixotes.
a árvore preguiçosa agita as folhas.
progressivamente o nevoeiro
vai-se tornando cada vez mais denso
e só então começa verdadeiramente a história...
...agora cada um é por si.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
_______________

ECO

Minha voz se levanta como um dardo
mirando teus ouvidos sem pudor
e vai veloz, cantante como um bardo
para ofertar-te todo o meu amor.

Dizer que te amo já não é segredo
o Universo imenso já o sabe
Mas minha voz insiste, tão sem medo,
quer a felicidade que me cabe.

Depois...
cala-se quieta e ressentida
voltando para mim qual eco rouco
ao sentir, num segundo, entristecida,
que tu não a ouviste nem um pouco.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
__________

IMOBILIDADE

Pelo vão da janela,
só um galho
seco
retorcido
- nenhuma gota de orvalho.

Pela estreita passagem,
retalho de ondas,
pedaço de mar,
só uma asa
- miragem.

Pela réstia de luz,
nem meia varanda,
nesga de chão,
só um pé
- que não anda.

Do meu ângulo oculto,
só o meu olhar
- sepulto.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

OLHO MUDO

a moldura atura
o falso retrato

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
_______________

Lua cheia de graça
Meus olhos te fitam
Meu pensamento vai longe.
*
Nos teus olhos negros
Duas luas-cheias vêm
Me afogar de amor.
*
Ó lua querida
Estás mais perto do que ele
Nesta noite mágica
*
Céu azul aberto
Sensação de plenitude
Tudo está tão certo!
*
Esperta rolinha
Cisca na grama o alimento
Adeus minhoquinha...
*
Não se bica todo o amor
Mas se é bem intenso
Pouco já é bastante...
*
Não sabem se voam
Ou dão pulinhos na grama
Pombas vacilantes.
*
Pétalas macias
Flores seduzem e atraem
Mãos que acariciam.

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

SONETO PRETENSIOSO

Qual o grande segredo
que você esconde neste olhar
que, de tão enorme, consegue colocar
em mim: prazer, dúvida e medo?

E qual seria o grande desejo
que inunda o teu coração
que cala minha voz e canção
me deixa suspenso em seu beijo?

E qual seria a resposta
tão exata quanto definitiva
que manteria a alma viva

que dissesse do que você gosta?
Tomara que, ao pensar, enfim
você encontre a resposta em mim.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
___________

CHAMADO

Daqui
destes degraus batidos pelo vento
de rocha nua
- o cais noturno de se esperar -
daqui eu olho as ondas entrechocando-se...

Na sua voz
vibra a dos afogados
a dos perdidos
a de todos os náufragos.

Escute!
Há um S.O.S. tardio na voz do oceano
Um apelo desesperado
vindo de abismos insondáveis.
Como que um chamado...

E eu daqui
destes degraus batidos pelo vento
fito ao longe o mar
as ondas súbitas do mar
tragando, com violência
meu corpo inerte
no seu verde caos.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
_______________

SONETO AO MAIOR

Maior é o sentimento que o sentido.
Maior é a solidão do que a saudade.
Maior é a precisão do que a vontade.
Maior é Deus, segundo o desvalido.

Maior é o sabichão do que o sabido.
Maior é a servidão do que a majestade.
Maior é o masoquismo do que Sade.
Maior é o meu poeta preferido.

Quem faz muito soneto, cedo ou tarde
acaba produzindo uma obra-prima,
contanto que não faça muito alarde.

Por trás da mera métrica ou da rima
esconde-se a coragem do covarde
e o medo, que jamais me desanima.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
_____________________________

FUGAZ

Na penumbra da taberna
eles vão se embriagando
e elas, junto dos tonéis,
se encostando perna a perna,
vão logo se insinuando,
descobrindo-se dos véus.

Bêbados, olhos vidrados,
cheirando a uísque e cigarro
e com suas mãos enormes
procuram os seus agrados
como se fossem de barro
rindo seus risos disformes.

Elas, de bocas vermelhas
e azul nos olhos borrados
sem brilho, sem luz no olhar
levantam as sobrancelhas
e atiram-se aos desgraçados
ali, no escuro do bar.

Deixam os sonhos de lado
e gozam só seus momentos.
Esquecem os seus deslizes
esquecem o seu passado
e não choram seus lamentos
mas sabem: são infelizes.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
____________
INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas, você poderá encontrar na revista impressa: Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto e muita poesia...
UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO: walmordario@ig.com.br
___________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Cerimônia das Flores
* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris

Valor: R$ 15,00 (cada)

* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio

Valor: R$ 5,00 (cada)

* Nuvens de Sol

Valor: R$ 10,00

****************

De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...

Valor: R$ 5,00 (cada)
_________________

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
___________

FANZINES:

Árvore Azul
(7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos
- Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog: http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
CONTATOS: walmordario@ig.com.br
_____________________________

23.3.09

POETIZANDO Nº 32
(Edição de Outono)



OUTONO

Fim de tarde virá
mover sinos
porque Deus, sei...
mãos maduras põe
no andar das horas.
Calçadas acarpetadas
de amareladas folhas
são danças de ir embora
sob um sol de maio.
Acordará de novo
tudo que anoitece.
Flores darão frutos,
sobrarão vôos azuis
dos casulos emergentes.
Gestação da vida!
Somos sopro, outono:
cigarro na esquina
roupa no varal
água do moinho
cigarra no quintal.

Quero estar contigo
no que sobrar de abrigo
depois do vendaval.

LARÍ FRANCESCHETTO
Veranópolis/RS
______________


AUTORES DO MÊS


MARÇO

SULLY PRUDHOMME, pseudônimo de René François Armand Prudhomme, escritor francês, nasceu em Paris a 16 de março de 1839 e faleceu em Chatenay-Malabry a 6 de setembro de 1907. Foi empregado de uma usina metalúrgica abandonando o posto para dedicar-se às letras. Poeta parnasiano de preocupações filosóficas com versos didáticos. Assumiu uma cadeira na Academia Francesa de Letras em 1881, sendo o primeiro escritor a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1901. Algumas obras: Estâncias e Poemas (1865), As Solidões (1869), Os Destinos (1872), As Ternuras Vãs (1875), A Felicidade (1888).

O VASO QUEBRADO (fragmentos)

O vaso desta flor, que morre breve,
Feriu-o um dia um leque distraído,
E de um golpe tão rápido, tão leve,
Que nem se ouviu o mínimo estalido.

Mas a tênue ferida traiçoeira,
No límpido cristal rasgando a taça,
Lentamente cresceu, de tal maneira,
Que, invisível, o vaso todo abraça.

(...)

Tal, às vezes, da linda mão querida
Tocado, o coração chora e padece;
E, enfim, cedendo à pérfida ferida,
Parte-se, a flor do seu amor fenece.

Perfeito e alegre ele aparece ao mundo;
Porém, sem a denúncia de um gemido,
Sente o golpe crescendo-se profundo...
Não lhe toqueis: - é um coração partido!

Tradução: Valentim Magalhães

ABRIL

VICENTE AUGUSTO DE CARVALHO, poeta brasileiro, nasceu em Santos/SP a 5 de abril de 1866 e faleceu em São Paulo/SP a 22 de abril de 1924. Formou-se em advocacia e militou em favor do abolicionismo e da república. Considerado um dos maiores representantes do Parnasianismo no Brasil. Sofreu influência de Victor Hugo, destacando-se em suas obras, o soneto. Foi chamado "o poeta do mar", tendo produzido poemas populares evidenciando o amor à natureza. Seu nome poderia ser incluído na tríade do Parnasianismo brasileiro junto com Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, não tomando posse. Algumas obras: Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908).

ESPERANÇA

Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

in: Poemas e Canções

MAIO

THOMAS MOORE, poeta irlandês, nasceu em Dublin a 28 de maio de 1779 e faleceu em Sloperton, perto de Londres a 28 de fevereiro de 1852. Começou sua carreira como tradutor das odes de Anacreonte em 1800. Produziu baladas e canções eróticas que lhe deram prestígio na sociedade elegante de Londres. Fez viagem às Bermudas. Pertenceu a famosa geração dos Lake Poets (Poetas do Lago), do qual entegravam Wordsworth, Coleridge, Southey, Campbell, Landor.
Algumas Obras: Melodias Irlandesas (1807), Lalla Rookh (1817).

A ÚLTIMA ROSA DO VERÃO

É a última rosa
Do Verão, sozinha;
Nenhuma outra resta
Formosa e vizinha,
Nenhuma irmã sua
ou botão de rosa
Responde aos suspiros
Que exala, formosa.
Não quero deixar-te
Sozinha a florir:
Tuas irmãs dormem,
Vai também dormir.
Por isso eis que espalho
Tuas folhas no chão,
Onde as irmãs tuas
Já mortas estão.
Tão breve eu vá quando
Os que amo fugirem,
E do anel do amor
As jóias caírem.
Caídos os que amam
No sono profundo,
Quem habitaria
Sozinho este mundo?

THOMAS MOORE
Tradução: Fernando Pessoa
__________________________

PRECE

O mesmo que súplica mística, oração, reza. Em sentido mais amplo, orações ou pedidos que são dirigidas a Deus por ocasião de alguma enfermidade ou calamidade.

PRECE

Ó Deus
Tirai do meu coração todo ressentimento,
embora pareça justo!
Da minha boca, todas as pragas,
embora pareçam inócuas!

Dai-me forças
para jamais me revoltar
contra o julgamento dos maus...

Dai-me, também, coragem para aceitar
e capacidade para agradecer
o julgamento dos bons...

Porém, sobretudo, afinai a minha lira
para entoar louvores
aos homens de boa vontade!

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

LETRAS

PALPITE INFELIZ

Quem é você que não sabe o que diz
meu Deus do céu, que palpite infeliz.
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz
que sempre souberam muito bem
que a Vila não quer abafar ninguém
só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poemas lá na Vila é um brinquedo
ao som do samba dança até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
você não viu porque não quis.
Quem é você que não sabe o que diz?
A Vila é uma cidade independente
que tira samba mas não quer tirar patente
pra que ligar a quem não sabe
aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

NOEL ROSA
_____________________________


HERMANOS

CANCIÓN (fragmentos)

(...)

Si aquella amarillez y los sospiros,
salidos sin licencia de su dueño,
si aquel hondo silencio no han podido
un sentimiento grande ni pequeño
mover en vos que baste a convertiros
a siquiera saber que soy nacido,
baste ya haber sufrido
tanto tiempo, a pesar de lo que basto,
que a mí mismo contrasto,
dándome a entender que mi flaqueza
me tiene en la tristeza
en que estoy puesto, y no lo que yo entiendo:
así que con flaqueza me defiendo.

(...)

Canción, no has de tener
conmigo que ver más en malo o en bueno;
trátame como ajeno,
que no te faltará de quien lo aprendas.
Si has miedo que m’ofendas,
no quieras hacer más por mi derecho
de lo que hice yo, qu’el mal me he hecho.

GARCILASO DE LA VEGA

GARCILASO DE LA VEGA, poeta espanhol, nasceu em Toledo, provavelmente em 1503 e faleceu em Nice a 14 de outubro de 1536. Foi considerado um dos maiores poetas espanhóis de todos os tempos.
Obra: As Obras de Garcilaso de La Vega.
______________________________

MULHER

SONETO

Ainda um ano, filha, hoje se escôa
do tempo na ampulheta, que não cansa;
e nem sequer mitiga uma esperança
a dôr de te perder, que me magôa.

O alígero tempo, quando vôa,
os males nos apaga da lembrança;
mas do martírio meu não há mudança
nos agudos espinhos da corôa.

Antes, para agravar-me a desventura,
da vida apenas na ridente aurora,
rouba-me a morte inexorável, dura,

teu filhinho adorado, a quem, outróra,
beijei mil vêzes, louca de ternura,
e que, louca de dôr, pranteio agora!

ADÉLIA FONSECA
(1827 - 1920)
Bahia/Brasil
in: Coletânea de Poetas Bahianos
__________________________

PoetaS PortugueseS

ROSA E LÍRIO

A rosa
é formosa
bem sei.
Porque lhe chamam - flor
d'amor,
não sei.
A flor,
bem de amor
é o lírio.
Tem mel no aroma, - dor
na cor,
o lírio.
Se o cheiro
é fagueiro
na rosa;
se é de beleza - mor,
primor
a rosa:
no lírio
o martírio
que é meu
pintado vejo: - cor
e ardor.
É o meu.
A rosa
é formosa,
bem sei...
E será de outros flor
d'amor...
Não sei.

ALMEIDA GARRETT
___________________

ERÓTICA

ELEGIA
INDO PARA O LEITO (fragmento)

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.

JOHN DONNE
Inglaterra

JOHN DONNE, poeta e orador sacro inglês, nasceu em Londres em 1572 e faleceu na mesma cidade a 31 de março de 1631. Adquiriu grande prestígio entre seus contemporâneos como poeta. Foi considerado personalidade difícil e contrária às convenções literárias. Poeta metafísico, foi inovador que se rebelou às produções do renascimento petrarquista. Eliminou a mitologia e a repetição de imagens clássicas, o amor sentimentalizado e o estilo melodioso. Foi autor de alguns dos mais apaixonados poemas eróticos da língua inglesa.
Algumas Obras: Elegias, Canções e Sonetos, A Ascensão da Alma (1601), O Conclave de Inácio (1611), Sonetos Sacros (1617).
_______________________

FÁBULA

A GALINHA RUIVA

Um dia uma galinha ruiva encontrou um grão de trigo.
- Quem me ajuda a plantar este trigo? - perguntou aos seus amigos.- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu planto sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Logo o trigo começou a brotar e as folhinhas, bem verdinhas, a despontar. O sol brilhou, a chuva caiu e o trigo cresceu e cresceu, até ficar bem alto e maduro.
- Quem me ajuda a colher o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu colho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a debulhar o trigo? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu debulho sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.
- Quem me ajuda a levar o trigo ao moinho? - perguntou a galinha aos seus amigos.
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu levo sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. Quando, mais tarde, voltou com a farinha, perguntou:
- Quem me ajuda a assar essa farinha?
- Eu não - disse o cão.
- Eu não - disse o gato.
- Eu não - disse o porquinho.
- Eu não - disse o peru.
- Então eu asso sozinha - disse a galinha. - Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez. A galinha ruiva assou a farinha e com ela fez um lindo pão.
- Quem quer comer esse pão? - perguntou a galinha.
- Eu quero! - disse o cão.
- Eu quero! - disse o gato.
- Eu quero! - disse o porquinho.
- Eu quero! - disse o peru.
- Isso é que não! Sou eu quem vai comer esse pão! - disse a galinha. – Cocoricó!
E foi isso mesmo que ela fez.

Recontada por Penryhn Coussens
___________________________

LENDAS INDÍGENAS

MARA

Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz.
Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos como por encanto.
Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros quanto a luz do luar. Deram-lhe o nome de Mandi e na tribo ela era adorada como uma divindade.
Pouco tempo depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em sua oca, por não querer separar-se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local, deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim a filhinha voltasse à vida, pensava. Até que um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto. A mãe surpreendeu- se; talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra, encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi, que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável.
Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no principal alimento indígena.
O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi fora sepultada na oca.
___________________

NOVOS

LIMPEZA

O tempo, tricotando as horas,
tece tapetes, tece tapetes.
E na sala indimensional
estende-os sob suas redes.
Alguém se deita, alguém se levanta,
alguém já nada pode.
O pó de sapatos já sem rumo
infiltra-se no assoalho.
Alguém diz: "Sei que nada valho",
alguém grita: "Sei que tudo posso";
alguém se levanta, alguém se deita,
e a sala nunca está vazia.
Uma criada muda incessante-
mente circula entre os transeuntes;
vai varrendo as poeiras que jazem.
Lixo que, como toda criada,
sob os tapetes de silêncio
cuidadosamente acumula.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro

____________________

ATROCIDADE

O destino segura a agulha
e tece tramas fechadas
O povo segue na senda
num esquivo de azares,
feito jogo de ARRAIA
A cidade imóvel aos teus olhares
enterra meninos carentes;
ressuscita gritos contidos
de medo, do vírus da peste, da vida
A hora encerrada na noite
lameia escadas da cidade
de sangue, choro e suor.
Bocas argolam o medo
e fantasiam o corpo de morte
No canto um coro diz: Basta!
Deuses aquietem os Demos!
E guardem estes anjos
brilhando em focos dourados
liricamente ritmados nas luzes
diluídas da esperança!

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
___________

A RODA

A roda gira gira
sem começo nem fim
ganha o mundo
pelo chão
com um espeto
atravessado
no meio do coração.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
____________

SONETO SAUDOSISTA

No Rio existe um bairro sobre o morro,
antigo, arborizado, todo urbano.
Ali, em setenta e sete, o melhor ano
vivi desta vidinha de cachorro.

Não é Santa Teresa que percorro.
Agora sou de novo um paulistano.
Já cego, vejo o mundo de outro plano.
Em sonho, deixo o corpo, mas não morro.

Viajo pelas ruas sobre o trilho.
O bonde aberto corre, beira o abismo.
Sou livre, não me escondo nem me humilho.

Mas volto ao meu exílio quando cismo
que posso ter deixado ali meu filho,
dum tempo em que amor livre era anarquismo.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
_______________________________

INTERAÇÃO

EXISTE ALGO DENTRO DE MIM
É QUANDO FECHO OS OLHOS
E É QUANDO REALMENTE VEJO

É A VISÃO SEM VISÃO

APREENSÃO FLUÍDICA
DO INATINGÍVEL

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________

CANÇÃO PARA TEREZINHA

Quando conheci Terezinha
ela trabalhava como vedete principal
numa velha canção de ninar.
Eu me acostumei com o acalanto
e me acostumei com o sono
angustiado que era
pela queda que a levou ao chão.

Outro dia
quando encontrei Terezinha na praia
e ela me olhou distante
e me disse assim muito prazer,
reconheci a antiga atriz
que se vê toda noite na tevê
sem que ela nos veja.

E compreendi, finalmente,
mesmo sem ser ela de Jesus
nem eu o terceiro homem
a quem deu a mão um dia,
que era esta a que me acalentava as noites,
me secava as feridas
e me assoprava a vida.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
________________________

O PÃO REPARTIDO

Vos concedo a graça
da palavra pão
repartida em nacos
para o horror das bocas
amargando fomes
mastigando mortes
cuspindo silêncios
não o pão concreto
mas só a palavra.

Vos dou o direito
de comê-la inteira
com sabor nas línguas
fracionando as letras
ingerindo os sons
mordendo os sentidos
não o pão dos fornos
apenas a idéia.

Pode o pão que oferto
dar sustento a todos
no rigor das fábricas
no amargor dos campos
no calor das ruas
não o pão que é pão
mas o que é poesia.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
________________

HAICAIS

No meio da noite,
alguém tosse igual meu pai
e acorda a saudade
*
Paisagem azul
a me recordar Monet
- glicínias em flor
*
Cão chega molhado
da caminhada noturna
- orvalho no campo

MADÔ MARTINS
Santos/SP
____________

INSTANTE

No pátio do hotel
as folhas vermelhas
caídas no chão.

A entrada, o tapete,
três folhas caídas
da minha mão.

Silêncio amarelo:
furtivo momento
em que fui outono.

LUCIA FONSECA
Rio de Janeiro/RJ
in: O Paraíso Era Antes
Editora da Palavra
_________________

alguma coisa
quebrada
não se fez ouvir
a queda
a fala
asa partida de louça
seqüela entorpecida

como aquela solidão
pregada na janela
olhos perdidos no chão
alma guardada
debruçada na amplidão
pendurada no nada

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
______________

TESTAMENTO

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Minha poesia é assim,
suja, feia, incomum,
tem meu jeito de ser,
é coberta de desdém,
é feita de muitas vidas,
é louca, é desmedida,
é ferida de todo alguém.
Minha poesia é assim,
velha, fria, incontrolável,
memória do meu passado,
resto de coisas afins,
lembrança deixada n’alma,
a flor, o ferro, a palma,
a tua vida marcada.
Por isso deixo em testamento
nenhuma coisa sequer,
somente a pena na folha,
um resto de noite na alma,
a lágrima que molha.
A minha poesia é assim,
presente que não viveu,
passado já esquecido,
futuro que não terá,
o beijo que não se deu,
o abraço não conseguido,
o poema que não se fará.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
______________

CADÊNCIA

No dopler colorido
ouço o som da VIDA
vibrando dentro de mim.
Lateja o sangue vermelho
como num grande espelho
entre o azul e o carmim.
Num ritmo denso e pulsante
corre meu sangue incessante
fantástico tamborim.
Sem descanso me acompanha
pelas manhãs radiosas
da sucessão dos meus dias
pelas tardes venturosas
pelas noites nebulosas
das minhas horas vazias.
Ouço no som da VIDA
o pulsar primevo do mundo
o vagido mais profundo
o fluxo e o refluxo das marés
os escravos das galés.
Corre o sangue, forte e sincopado,
em meu coração, eterno aliado,
do acme orgástico do prazer
nessa espetacular aventura
que é VIVER!

NEIVA PAVESI
Santos/SP
____________

TROVA

Olho o céu, a noite é calma,
sinto as carícias da lua.
A tropeçar em sua alma,
segue um mendigo, na rua.

HUMBERTO DEL MAESTRO
Vitória/ES
in: Trovas, Haicais e outros Poemas
_______________________________

RETORNO

Devolvam-me
certas paisagens
passagens voláteis
na memória.

Devolvam-me
tantos acordes
em dissonância
a vida agora
só diz sim...

Devolvam-me
todas as cores
fragrâncias
do imaginário mágico
que eu tinha.

Cobrem-me as contas depois...

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
________________________

FAMA & GLÓRIA

No terraço
do bar
da 6th street
ao fim da tarde
também tenho
o meu lugar
ao sol.

Quinze minutos
de glória tranquila
de fama morna
e de cerveja gelada
em Austin,
no Texas.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
_______________

POEMA DA CIDADE

Para o amigo José Lucio Souza

Escrevo para a cidade
para seus flamboyants
que acolhem bem-te-vis
em todas as estações.

Escrevo para os homens
de coração comum,
mente lúcida
e jeitos de moleque.

Para as bicicletas que levam frutas
para agradar alguém que se ama.
E para os cães de rua que sugam nossa alma
com olhos de quem só espera afeto.

Escrevo como quem nada espera
e que no dia de todas as devoções
se entrega largo a um abraço
a amigos e desconhecidos.

Escrevo para você esta carta
simulada em livres versos,
para lembrar que somos irmãos
de toda estrela, galho ou terra,
e que somos donos, tão somente,
tão somente de coisa nenhuma.

Nessa noite fria, escrevo para a cidade,
para suas amendoeiras e acácias,
suas almas de gente oriunda de toda parte.

CAMILO MOTA
Saquarema/RJ
in: Poésis nº 149
______________

LIÇÕES DE CASA

- Mas, irmãos, é só isso o amor?

Não, pensando bem, o amor também
é luz de chama em copo de azeite
ardendo mais e mais quanto mais venta
na casa das pessoas sem vintém...

... gente que chora e que ri nos velórios
e tira o peito para dar o leite
e acena com lenços para a História
ergue o nenê para ver o artista
gente que morre nas guerras e pestes
nos genocídios e nos atropelamentos

gente a correr sem entender terremotos
bombardeios filósofos conquistas
desabamentos a política o terror
a chuva de granizo e a falta de amor
a ferir mais que a falta de juízo

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
____________________

das lutas
nem todas são vãs

nem todas vão
para os divãs

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
_______________

DEUS

Deus é o murmúrio das águas do rio
batendo nas pedras,
é o raio dourado no alvorecer
Deus é Paz,
é meu sangue correndo nas veias,
é a vida.
É o suor da lida do homem do campo,
é a lágrima do sentimento puro
da dor,
da alegria,
da saudade.
Deus é o cântico das aves que brindam a floresta,
é o canto da chuva,
do mar,
do trovão,
o estalar do raio, o clarão do relâmpago.
Deus
é o cheiro do mato,
o sentido do tato no abraço morno
nas noites de amor.
É o inseto que voa,
o animal que rasteja, que salta, que preserva
o equilíbrio da espécie.
Deus é o homem,
é o bicho,
é a planta.
É o Universo perfeito, em equilíbrio.
é a luz que rege o sistema.
Deus é poema...
É canto, é alegria,
é musica.
DEUS? É HARMONIA.

DALVA ARAÚJO
Santos/SP
____________

TEATRO DE SOMBRAS

Imagens esparsas pelo ar,
borboletas de asas abertas a voar...
Surge à lembrança: sombras à luz da vela.
Serão as rezadeiras na capela?

Eis que entre duas cadeiras,
o pano branco e fino é estendido.
Nenhuma ruga ou frouxidão.
E as imagens de papel correm de mão em mão.

Silhuetas recortadas ganham vida,
suspensas nas asas da imaginação.
Em semicírculos, crianças embevecidas
e nos olhos sonhadores, a ilusão.

Dedos hábeis manipulam as formas,
marionetes no alvo pano de algodão...
E de um lado e do outro do tecido,
o sentimento alinhava a composição.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

RECICLAGEM

Do esperma reciclado faz-se vida;
Do arroz reciclado faz-se bolinho;
Da careta reciclada faz-se riso;
Do vírus reciclado faz-se vacina;

Do novelo reciclado faz-se casaco;
Da areia reciclada faz-se castelo;
Do louco reciclado faz-se gênio;
Do discípulo reciclado faz-se mestre;

Do inverno reciclado faz-se primavera;
Da erva reciclada faz-se chá;
Do country reciclado faz-se rock;
Do almoço reciclado faz-se jantar;

Do sapo reciclado faz-se príncipe;
Da debutante reciclada faz-se noiva;
Da paisagem reciclada faz-se quadro
E do lixo reciclado faz-se arte;

Arte do lixo,
Criatividade reciclada
Apartando arte de lixo
Extraímos do lixo a arte.

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in:
www.mandandobrasa.blogspot.com
_______________________________

AINDA O AMOR...

O amor quando vem devagarinho
É insidioso, como um vinho gostoso
Que esquenta de mansinho,
Bem de leve, aos poucos, cola na pele
E de repente, indelével é o senhor!
Penetra no fundo da alma
E quando a razão alcança, é tarde...
A euforia que com a gente bole
Vale bem mais do que um simples gole

O amor estica o coração como um fole
Mas às vezes o elástico não agüenta,
Arrebenta a explosão de cor que sustenta
E o amor, que punha guizo em sorrisos,
Do jeito que veio, vai sem aviso
Ficamos ao léu, em um mar de estupor
Cegos da visão prévia de um paraíso
Desnudos sem escudos contra a dor

Bom seria o amor sem o amanhã ameaçador
Porque com ele vem junto o dissabor...
Para durar, mantenha o amor no eterno presente,
Combata os fantasmas das desconfianças
Impeça o ciúme de usar suas lanças

Pena quem não amou por medo de amar
E a delícia do amor não viveu,
Não sabe o quanto perdeu
Porque morreu antes de ver a morte chegar...

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO
e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto e muita poesia...
UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO: walmordario@ig.com.br
___________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Cerimônia das Flores
* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris

Valor: R$ 15,00 (cada)

* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio

Valor: R$ 5,00 (cada)

* Nuvens de Sol

Valor: R$ 10,00

****************

De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...

Valor: R$ 5,00 (cada)
_________________

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa

- Modelo: A4,
para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta

- Modelo: A4,
para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
___________

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos

- Modelo: Oficio 9,
4 páginas,
edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog: http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
CONTATOS: walmordario@ig.com.br
_____________________________

14.12.08

POETIZANDO Nº 31
(Edição de Verão)



Quão glorioso
Nas folhas verdes, folhas tenras,
O brilho do sol !

Bashô
_______

AUTORES DO MÊS:

DEZEMBRO

GREGÓRIO DE MATOS E GUERRA, poeta brasileiro, nasceu em Salvador/BA a 20 de dezembro de 1636 e faleceu em Recife/PE no ano de 1696. Foi apelidado de "Boca do Inferno", por ser crítico e mordaz. Em 1650, aos 14 anos, embarca para Lisboa, dois anos depois matricula-se em Coimbra, formando-se em 1662. Foi nomeado juiz de fora no Alentejo. De volta para Bahia é nomeado procurador junto à corte portuguesa. Torna-se viúvo e casa-se pela segunda vez com Maria dos Povos. Preso, é deportado para Angola, vindo a falecer dois anos depois em Recife/PE.
Algumas Obras: Gregório de Matos não publicou livros em vida; o que se conhece são trabalhos esparsos.

BUSCANDO A CRISTO

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós cabeça baixa, pra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

GREGÓRIO DE MATOS
in: Obras de Gregório de Matos
_______________________

JANEIRO

OSSIP EMILIEVITCH MANDELSTAM, poeta soviético, nasceu em Varsóvia, Polônia, em 1892 e faleceu em um campo de concentração na Sibéria, com data indefinida entre 1938 e 1942. Foi um dos representantes principais da escola neoclássica russa denominada Acmeísmo, que simbolizava a união do neoclassicismo, simbolismo e realismo. Seus versos tinham um toque de mistério e uma visão singular, sofrendo influência dos simbolistas franceses, Baudelaire e Verlaine. Seus textos foram conceituados herméticos, tanto em poesia quanto em prosa, sendo que após a revolução, sua vida caracterizou-se pela separação dos agrupamentos literários. Foi preso e posteriormente faleceu em um campo de concentração na Sibéria. Grande parte de sua obra só foi salva graças à dedicação extrema de sua mulher, Nadejda Mandelstam. Algumas Obras: A Pedra (1913), Tercetos (1922), O Ruído do Tempo (1925), Poesia (1928), O Selo do Egito (1928), Conversa sobre Dante (1930).

A CONCHA

Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem pérola, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazer só a seu lado pela areia
E pouco faltar para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
à sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
a pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

(1911)
_____________________________

FEVEREIRO

HENRIQUE MAXIMIANO COELHO NETO, escritor brasileiro, nasceu em Caxias/MA a 21 de fevereiro de 1864 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ a 28 de novembro de 1934. Colaborou com a imprensa carioca e pertenceu à boêmia literária com outros escritores. Foi professor de literatura e de teatro, jornalista e deputado federal, sendo considerado um dos maiores escritores do Brasil. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira nº 2, chegando a ser candidato ao prêmio Nobel (1932). Deixou obra extensa e variada, sendo influenciado pelo Realismo e Parnasianismo. Seus textos são de riqueza formal, romântica, regionalista, tipos e costumes nacionais.
Algumas Obras: A Capital Federal (1893), Miragem (1895), Sertão (1896), Inverno em Flor (1897), O Morto (1898), Seara de Rute (1898), A Conquista (1899), A Tormenta (1901).

SER MÃE

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada.
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
_____________________________

CANÇÃO

Do espanhol: Canción , séc. XIII ; Cancionero , séc. XV.
Do português: Cancioneiro , séc. XVI.
Do italiano: Canzione , séc. XIII.
Do francês: Chanson , séc. XIII.

Os termos espanhóis, italianos e franceses, são derivados do latim Cantio, Ônis "Canção" ou "Cantar". Poesia cantada geralmente composta em versos redondilhos, de estrófes variáveis, hoje vivendo na cultura popular.

CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro. . . Lançá-lo ao mar.
Quem vai embarcar, que vai degredado,

As penas do amor não queira levar. . .
Marujos, erguei o cofre pesado, Lançai-o ao mar.
E hei de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.

A sete chaves: tem dentro uma carta. . .
A última, de antes do teu noivado.
A sete chaves, a carta encantada!

E um lenço bordado. . . Esse hei de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

CAMILO PESSANHA
in: Clepsidra
__________________


LETRAS

ÚLTIMO DESEJO

Nosso amor que eu não esqueço
e que teve o seu começo
numa festa de São João
morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete...
sem luar... sem violão.
Perto de você me calo
tudo penso e nada falo...
tenho medo de chorar.
Nunca mais quero o seu beijo
pois meu último desejo
você não pode negar.

Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não
diga que você me adora
que você lamenta e chora
a nossa separação.
Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto
que meu lar é um botequim
que eu arruinei sua vida
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

NOEL ROSA
____________

HERMANOS

ROMANCE SONÁMBULO (Fragmentos)
.

Verde que te quiero verde.
Verde viento, Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
Ella sueña en su baranda,
Verde carne, pelo verde,
Con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
Las cosas la están mirando
Y ella no puede mirarlas.

(...)

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre!¿Dónde está, dime
dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuantas veces te esperara,
Verde carne, pelo verde,
Con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
La sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
Como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento, Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

FEDERICO GARCÍA LORCA
in: Romancero Gitano
______________________


MULHER

SEU NOME

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,
A fonte, a solidão, o mar, a brisa
Meu peito se extasia!
Seu nome é meu alento, é-me deleite;
Seu nome, se o repito, é dúlia nota
De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro
No azul sideral à noite quando
Medito à beira-mar:
E sobre as mansas águas debruçada,
Melancólica, e bela eu vejo a lua,
Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,
Minha esperança, e ambição é ele,
Meu sonho, meu amor!
Seu nome afina as cordas de minh'harpa,
Exalta a minha mente, e a embriaga
De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma
Em páramos desertos, – ou medite
Em bronca solidão:
Seu nome é minha idéia – em vão tentara
Roubar-mo alguém do peito – em vão – repito,
Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,
Esse anjo de Deus, pálido, e triste
Amigo derradeiro.
No seu último arcar, no extremo alento,
Há de seu nome pronunciar meus lábios,
Seu nome todo inteiro!...

MARIA FIRMINA DOS REIS
(1825 - 1917)
in: Contos à beira mar, 1871
São Luís do Maranhão, Brasil
______________________

POETAS PORTUGUESES

AUTOBIOGRAFIA (fragmentos)

Entre faixas de pobreza
Meus tristes pais me envolveram;
Desde então, em crua empresa
Contra mim as mãos se deram
A fortuna e a natureza.

(...)

Depois que plano caminho
Já meu pé trilhando vai,
Pobre alfaiate vizinho
De um capote de meu pai
Me engendrou um capotinho.

(...)

Entre medos e violência
Entrar no latim já posso,
E jurei obediência
A um clérigo, que é um poço
De tabaco e de ciência.

(...)

Enquanto a minha alma emprego
Nestas cansadas doutrinas,
À dourada idade chego
De ir ver as vastas campinas
Que banha o claro Mondego.

(...)

Minha dor me faz falar,
Fiz queixas assaz compridas;
Dignai-vos de desculpar
Que mostra o enfermo as feridas
A quem lhas pode sarar.

NICOLAU TOLENTINO

Nicolau Tolentino de Almeida, nasceu em Lisboa a 10 de setembro de 1740 e faleceu na mesma cidade a 23 de junho de 1811. Sua poesia é constituída de sonetos, odes, memoriais e sátiras em Obras Póstumas (3 vol.).
___________________



ERÓTICA

DESEJO(S)

que
a minha
língua
lamba
os teus
lábios
lívidos
lânguidos.

Que
os meus
dedos
percorram
a tua
pele
perversa
arrepiada.

Que
o meu
sexo
roce
no teu
e os
cheiros se
confundam.

Que
todos os
secretos
desejos
se afundem
profundos
mágicos
e eternos.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
________________


ORIENTE

LIVRO DE CANTARES DA CHINA

No século VII a. C, surgiu na China a primeira coletânea de poemas Livros de Cantares, incluindo poemas satíricos, poemas de amor, odes, cantigas populares etc. O Livro reúne 305 poemas feitos durante cerca de 500 anos a partir do início da dinastia Zhou do Oeste (século 11 a. C) aos meados do período da Primavera e Outono (século 7 a. C).

Dividia-se em três partes:

Feng - que abrange 160 cantigas populares que se transmitiam em 15 principados.
Ya – com 105 obras poéticas e musicais que circulavam nas proximidades da capital da dinastia Zhou.
Song - com 40 odes às divindades, tocadas nos rituais.

Os versos do Livro de Cantares são principalmente compostos por cinco, seis, sete ou oito sílabas. A mais importante parte do Livro é a Feng. Os poemas populares retratam cenas do cotidiano, amor e desejo da população comum, assim como sua indignação pela injustiça social.

Os autores dos poemas do Livro de Cantares são bem variados – desde os mais humildes trabalhadores da sociedade até os letrados e nobres. Eles incluem uma série de poemas escritos por autores anônimos. As obras do Livro eram originalmente cantadas ou recitadas nos rituais e, posteriormente, foram assimilados pela nobreza.

Em geral, o Livro de Cantares representa um ponto de partida da literatura chinesa e proporciona dados sobre todos os aspectos da vida da época, inclusive, produção, amor, guerra, costumes e hábitos, ritos, fenômenos astrológicos, geografia etc. Eles também servem como um bom material para os estudos sobre a língua chinesa entre os séculos 11 e o século 6 a. C.
_______________________

LENDAS INDÍGENAS

IARA

Iara significa mãe-d'água, senhora d'água, de "í" água e "ara" senhora.
A pronúncia do "ig" do "i" tem feito com que de diferentes formas se tenha escrito essa palavra; assim temos ioara, gauara, oioara, etc.
Iara, a jovem Tupi, era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do rio Amazonas. Por sua doçura, todos os animais e as plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos admiradores da tribo.
Numa tarde de verão, mesmo após o Sol se pôr, Iara permanecia no banho, quando foi surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo, mesmo assim, violentada e atirada ao rio.
O espírito das águas transformou o corpo de Iara num ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no restante.
Iara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a linda criatura, eles se aproximam dela, que os abraça e os arrasta às profundezas, de onde nunca mais voltarão.
____________
FOLK-LORE

ADIVINHAS:

Perguntas ou declarações de forma obscura, que devem ser contestadas ou explicadas.

Exemplos:

O que é o que é, que quando entra em casa fica do lado de fora?
Botão

São sete irmãos, cinco tem sobrenome e dois não. . .
Dias da Semana

Com L vive no céu
Lua

Com N pouco se vê. . .
Nua

Com R é de todo mundo
Rua

E com S é de você. . .
Sua

Me diga se for capaz
Me diga quem é aquele
Que num instante se quebra
Se alguém diz o nome?
Segredo

Com P é feito de trigo
Pão

Com M é parte da gente
Mão

Com S é muito saudável
São

Com C é muito valente
Cão
_________________

NOVOS

SOLIDARIEDADE

FALAR COM AS PEDRAS
NÃO É FALAR AO VENTO

A PEDRA SEMPRE FOI DEPOSITÁRIA FIEL
É TEMPERAMENTO

ELA NÃO PERMITE QUE TUA PALAVRA
FIQUE PERDIDA NO ABISMO DO TEMPO

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________

POEMA OBLÍQUO

Há uma porta
na quina oblíqua
de uma esquina
enigma sem quina
de um silêncio reto.
Há uma porta
na quina de uma loja oblíqua
de uma esquina torta
no olhar de um manequim.
Há uma porta
na esquina do silêncio
sem contramão de tempo
oblíquo enigma
do manequim à espreita
de alma figura
tão humana de gesso.
Há uma porta
atravessei-a reto
de alma torta
E vi DEUS quando dobrava a esquina
na quina de um enigma
silêncio oblíquo.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Eminércia
____________

SEPULCRO

Nuances da morte
no olho da vida
Quixote sem norte
delírio sem ida

Palmilham porosos
os sonhos guardados
no cerne dos ossos
com lacres vencidos

Passado sequeiro
Presente jibóia
Futuro espinheiro
num mar sem bóia

Amor selado
nos traumas do não
corpo ilhado
ausência do pão

Retratos seqüências
de sol ou de pó
Nos atos ausências
dos laços sem nó

A lua é minguante
no tédio do outono
a hora é purgante
na cova sem dono

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
__________

COMIGO

Bato à porta
e abro para mim mesmo.
Deixo-me entrar.

Reconheço o espaço.
Cortinas esvoaçantes,
janelas sempre abertas
- convite para olhar.

O lado de fora
volta a me chamar.
Eu, sentada à soleira da porta
e a vida a passar.

Em mim, do impossível,
a concretização
- sendo semente,
também sou terra
aberta pra receber o grão.

Sou feliz.
Ouso dizer.
Não posso ignorar
esta chama de amor
em que me deixo queimar.

REGINA ALONSO
Santos/SP
__________

SONETO QUINHENTISTA

Na época que faz descobrimento
criticam-se os lugares onde a gente
não tinha perspectiva, e um mundo ausente
projeta-se, ideal, no pensamento.

Erasmus, no "Elogio", teve intento
de ver loucura em toda a humana mente,
e Morus, na "Utopia", vai à frente,
colocar o louco lá, em seu elemento.

Pasárgada, Aruanda, Shangri-lá.
Oásis, Eldorado, Canaã.
É um ser errante, aonde quer que vá.

Já viu que a fuga é sempre busca vã,
mas, cego, quer fugir donde hoje está,
no afã de ver, alhures, amanhã.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
______________________________

HAICAIS

Periquito cisca
na gaiola musical
- a sorte no bico
*
Da casa do avô
transformada em prédio alto
só resta o chorão
*
Estremece a moita.
Um filhote de pardal
em aula de vôo

MADÔ MARTINS
Santos/SP
____________

O QUADRO

Para Maria Amélia Curvello

O quadro no escuro
olha
para dentro de si mesmo.

Propõe imagens
para o incriado
e a cor que busca
é justo aquela
que não existe
(nem todas as cores
são possíveis).

Traço a traço
o quadro
redesenha-se.
A escuridão
lhe é propícia
ao sacrilégio
de ser quem é
.: um outro quadro
por si pintado.

A cara nova
já não se engaja
nos tantos "ismos"
feitos somente
para enquadrar
os quadros
versos
até pessoas
o pobre mundo.

Na luz, o quadro
é como todos
: mero quadrado.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
__________________

HAICAIS

Primavera plena!
Pelos muros dos jardins,
As flores transbordam.

*

No quintal ao lado
Grudadinhas nos galhos
Flores de maçãs.

*

Noite misteriosa -
Do infinito desprende-se
A estrela cadente.

MARLY BARDUCO PALMA
São Vicente/SP
in: 7ª Antologia -
Grêmio de Haicai
Caminho das Águas
________________

ANTÍGONA

O carinho que tenho por ti,
Por teus cabelos longos,
Não me arrebata nem encanta:
Antes, me preenche.
Por teus olhos que se escondem,
Mãos que crispam-se ao vento,
Meu coração se completa.
Teu nome me vem à boca,
E uma Lua se escancara
À menção que se insinua.
Te busco pelos arquivos
Onde tudo está vazio:
Falta-me rever teus dedos.
Em tudo que é te apresentas,
Em tudo que falta te ausentas.

Mas não afugento o carinho,
Nem o terno amor que te devo.
Conforta-me saber que és,
Que existes, que habitas
E anulas o vácuo que havia.
Na curvatura dos cílios,
Nas arcadas das memórias,
Na profundeza dos versos
Que moram dentro da alma.
A ternura que eu sinto
E que por ti cultivo
A cada dia me basta.

Lembrar é como uma infância
Passada à beira da praia
na liberdade dos ventos.
O gosto quente das brisas
É como fechar os olhos
E ver-te rindo um segundo.
Não sabes, é certo, dos versos
Que fizemos em silêncio.
Do beijo que não tivemos,
Do abraço que não trocamos,
É feita a história mais viva.
Meu afeto permanece.
Em algum lugar permanece.

Na escuridão permanente da noite
Exercito o esquecer-te.
Quem te devolve é o dia
Com seu movimento lento
Do poema que encenaste.
Antígona, desperta agora,
Onde quer que horizontes
Teu corpo branco de música.
Passaramente beijo os olhos que não vejo.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_________________

uma pessoa comum sentada num café sou eu
cadeiras na calçada, cabelos ao vento e ao sol
pensamentos livres feito nuvens pelo céu
passos sem pressa, palavras perdidas
histórias entrecortadas, vestígios de vidas
tudo perfeito e bem arrumado
as árvores, o vento, as flores nos vasos
tua espera, tua ausência, tua presença ao sol
nada mais querer senão amar
pois foi assim que tudo começou
como em qualquer outro lugar
à margem sombria destas árvores ao sol

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
___________________

ESPERANÇA

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Quando nasce a esperança
o irreal vira real,
os pensamentos tornam-se eternos,
os amores tão modernos,
o mundo colossal.
O meu desejo fica mais forte
ao rever teu coração,
o capitão leva seu barco rumo ao norte
e eu morrendo de paixão.

Quando nasce a esperança
o velho fica mais novo,
o poema é escrito mais sentido,
a fé é dividida com o povo,
o romance é escrito e lido.
Os meus olhos ficam mais brilhantes,
as luzes brilham mais ao léu,
a vida não é mais de antes,
nem o poema no papel.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________

JOGO CEGO

Balançando-se, a velhinha
se debruça
sobre a tela.
No chão, o novelo
espera.
O tecido retesado
nos bastidores.
A linha pendendo
frouxa
na espera.
Não sabe o tecido a mão
que de pontos pontos pontos
o estrela.
A linha não advinha
que quadro pinta. Se
desenovela.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
____________________

LUZ E TREVAS

As nebulosas são oficinas de mundos
e por isso vivem prenhes de estrelas.

Algumas se desprendem,
e saem girando feito doidas,
como frutos maduros
soltos de árvores pejadas e fantásticas.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Para que tanta luz,
se a humanidade quer viver nas trevas?

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

ALDEBARÃ

O amor me inventou no novo tempo;
sou corpo de estrelas e poeira de luar.
Vim para ficar.
O sol da manhã inaugurou minha jornada:
estou no mar derramado
nas franjas de espuma esparramadas na areia
na claridade fecunda e feliz da lua cheia.
Estou no ar, no vento, na leve aragem
na força invisível da fé e da coragem.
Estou na boca farta de versos do poema
que o poeta dedicou à alma gêmea.
Estou nas águas ancestrais dos rios
que correm para dentro
nas árvores tão altas
que me fazem enxergar seu centro.
Estou na canção enternecida dos amantes
nas brumas de um passado tão distante
na luz clara e promissora do amanhã
que brilha como a alfa aldebarã.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
__________

RIO DO SONO

Rio, por quanto tempo mais?
Donizete Galvão

Rio que lav(r)a-me:
túmulo de anzóis
no meio da corrente
com suas placentas gigantes
fazendo nascer em mim
um mar de oferendas.

No ovário desse leito
dorme entre areias exaustas
o menino-náufrago
que um dia foi devorado
por cardumes de sonhos.

O chão sob essas águas
me afaga
(ou me afoga)
entre mercúrio, bauxita e miasmas,

mas a superfície trêmula
apre(e)nde no meu silêncio
as lições de se perder nos oceanos.

Os rios de mim me levam
mas não limpam
a rugosa poeira dos meus anos.

RONALDO CAGIANO
São Paulo/SP
____________

AÇÃO E REAÇÃO

Sem mágoa, dei trégua
e com a régua medi léguas
de versos ternos e eternos,
com traços de laços e lanças.
Com a lente vi mente de gente
que fecha com flecha
os recursos e cursos da vida.
E na revista com vista
da cidade, a verdade e a idade
da razão, da ação e reação,
tive a impressão que a pressão
da dança, balança
o universo de versos dispersos.
Era segredo o meu medo.
Deletei.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
_____________

DIVISÃO

Exilei a normalidade
em crepúsculos
distantes.

Dividi dias
mofados
em compassos
sem harmonia.

Estacionei
minha segurança
em algum bar desta cidade.

Não desanimei.

Abri os braços
saudando a primavera.
que murmurava
flores & luz
impregnando os caminhos.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
_______________________

Se vem hoje a dor
Escondo a lua nas nuvens
Ninguém mais a vê

*

Se o amor vier
A lua vai nos banhar
De prata e azul

*

Se o amor não vier
Nem todas as luas cheias
Me farão feliz

*

A lua redonda
Inebria corações
Ficamos tão tontas...

*

Suave é a noite
Raios da lua tão branca
Clareiam espíritos

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

TROVAS

O que sinto e é verdade
ninguém poderá supor. . .
lá fora, digo amizade,
cá dentro, ressoa amor!

*

Por não mais poder criar,
Deus arrematou seu plano,
pondo o amor para ocupar
o melhor do ser humano.

*

A espera é confiança
de que vem o desejado. . .
Quem sabe ter esperança
pode ter o que é sonhado.

FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
in: Branduras
___________

pandorga
homem sonha
menino acorda

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
______________

SAUDADE DO POETA

Odeio o estrelismo deslumbrado
de lânguidas madames
poetando
esparramadas no sofá.

Odeio o estrelismo deslumbrado
dos saraus intermináveis
e de platéias surdas.

Odeio o estrelismo deslumbrado
de apogeus repetitivos
regados a bacardis e anis.

Odeio o estrelismo deslumbrado
do poeta que explode
num choro convulsivo
um poema de Camões.

Trago em mim a saudade do poeta
que arrancava do peito
o sentimento esfarrapado,
plantando versos na alma
como quem planta flores.

DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO
e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto, Estilos de Época
e muita poesia...

UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO: walmordario@ig.com.br
___________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Cerimônia das Flores
* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris

Valor: R$ 15,00 (cada)

* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio

Valor: R$ 5,00 (cada)

* Nuvens de Sol

Valor: R$ 10,00

****************

De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...

Valor: R$ 5,00 (cada)
_________________

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa

- Modelo: A4,
para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta

- Modelo: A4,
para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
___________

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos

- Modelo: Oficio 9, 4 páginas,
edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog: http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
CONTATOS: walmordario@ig.com.br
_____________________________

13.9.08

POETIZANDO Nº. 30
(Edição de Primavera)


ROSA

Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim
E nas faces também tinha
Duas rosas de carmim.

Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou essas que unindo estás?...

Ela fitou-me sorrindo,
Ainda mais enrubesceu;
Depois, ligeira fugindo,
De longe me respondeu:

"Não dou-te as rosas das faces
Nem as que tenho na mão:
Daria, se me estimasses,
As rosas do coração."

AFONSO CELSO
______________


AUTORES DO MÊS

Setembro

AUTA DE SOUZA, poetisa brasileira, nasceu em Macaíba/RN em 12 de setembro de 1876 e faleceu em Natal/RN em 7 de fevereiro de 1901. De linguagem muito simples, direta, comunicativa e mística produziu uma obra de profundo sentimento religioso. Seu texto aproxima-se muito do Simbolismo, sendo descoberto pelos críticos católicos.
Obra: Horto (1900)

CANTIGA

Meu sonho dourado e leve,
que buscas tu a voar?
Um ninho branco de neve
onde me deixem cantar.

E em busca das nuvens belas
lá vai meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.

Pergunto ao sonho, chorando:
Por que foges a cantar?
E ele responde, cantando:
Porque não quero chorar.

E em busca das nuvens belas
foi-se meu sonho a cantar...
Meu sonho cor das estrelas,
meu sonho cor do luar.
__________________

Outubro

ÁLVARO DE CAMPOS, heterônimo de Fernando Pessoa, poeta português, segundo o autor "nasceu em Tavira no dia 15 de outubro de 1890 (à 1:30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois foi feito o horóscopo para essa hora, está certo), é alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se, cara raspada, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado do lado. (...) Como escrevo em nome desses três? (...) Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê."
Algumas Obras: Ultimatum (1917), Aviso por Causa da Moral (1923).

ÀS VEZES

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

ÁLVARO DE CAMPOS
in: Ficções do Interlúdio
___________________

Novembro

JOHANN FRIEDRICH von SCHILLER, dramaturgo e poeta alemão, nasceu em Marbach, Württemberg, a 10 de novembro de 1759 e faleceu em Weimar a 9 de maio de 1805. Estudou medicina na Academia Militar de Stuttgart lendo Klopstock, Rousseau e Shakespeare. Não agüentando a disciplina militar, fugiu da escola fixando-se em Weimar. Em 1794 começou amizade com Goethe, que divulgou seu trabalho. Na evolução da literatura alemã ocupa um lugar de primeira ordem. Apesar de não ser poeta lírico, foi brilhante orador em versos. Suas peças provocaram entusiasmo revolucionário aprofundando suas convicções políticas. Algumas Obras: Os Bandoleiros (1781), A Conspiração de Fiesco em Gênova (1783), Intriga e Amor (1784), Don Carlos (1787), Poesias (1800 – 1803), Wallenstein (1800), Maria Stuart (1801), A Donzela de Orleans (1802), A Noiva de Messina (1803), Wilhelm Tell (1804).

ODE À ALEGRIA (fragmentos)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
(...)
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conseguiu uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo mundo.
(...)
Alegrias bebam todos os seres
No seio da natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
(...)
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
(...)
_____________________________


HINO

Em sentido literário, o hino pode ser definido como um poema ou cântico lírico de invocação e adoração, exprimindo os mais altos sentimentos. Celebra uma divindade, um personagem ilustre, fenômeno da natureza ou algo notável. Em suas origens, ele está vinculado ao culto religioso, tanto no Ocidente como no Oriente, associando-se ao canto ou dança.
Alguns autores: Homero, Píndaro, Calímaco, Cleanto, Mesômedes, Tertuliano, Eusébio.


HINO À DOR

Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam. . .

És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!

Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.
Com os corpúsculos mágicos do tato
Prendo a orquestra de chamas que executas. . .

E, assim, em convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!

AUGUSTO DOS ANJOS
in: Outras Poesias
_______________

LETRAS

LUA BRANCA

Ó lua branca de fulgores e de encanto,
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
vem tirar dos olhos meus, o pranto
Ai vem matar essa paixão que anda comigo,

Ai! Por quem és, desce do céu, ó lua branca
Essa amargura do meu peito, ó vem e arranca
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração.

E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada,
A sua luz então me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada

Ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo...
Ela partiu, me abandonou assim
Ó lua branca, por quem és, tem dó de mim!...

CHIQUINHA GONZAGA


Obra composta em 1911, traz a união da suavidade da melodia com a letra simples, produzindo um dos mais belos momentos da Música Popular Brasileira.
____________________________________________

HERMANOS

ADIÓS, RÍOS; ADIÓS, FONTES; (fragmento)

Adiós, ríos; adiós, fontes;
adiós, regatos pequeños;
adiós, vista d'os meus ollos,
non sei cándo nos veremos.

Miña terra, miña terra,
terra donde m'eu criei,
hortiña que quero tanto,
figueiriñas que prantei.

Prados, ríos, arboredas,
pinares que move o vento,
paxariños piadores,
casiñas d'o meu contento.

Muiño d'os castañares,
noites craras d'o luar,
campaniñas timbradoiras
d'a igrexiña d'o lugar.

Amoriñas d'as silveiras
que eu lle daba ô meu amor,
camiñiños antr'o millo,
¡adiós para sempr'adiós!

¡Adiós, gloria! ¡Adiós, contento!
¡Deixo a casa onde nascín,
deixo a aldea que conoço,
por un mundo que non vin!

Deixo amigos por extraños,
deixo a veiga pol-o mar;
deixo, en fin, canto ben quero...
¡quén puidera non deixar!

ROSALÍA DE CASTRO
Poetisa Galega
____________


MULHER

COMO TE AMO?

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

ELIZABETH BROWNING


ELIZABETH BARRETT BROWNING, poetisa inglesa, nasceu em Coxhoe Hall, perto de Durham, a 9 de março de 1806 e faleceu em Florença a 29 de julho de 1861. Produziu uma das melhores poesias da Inglaterra. Foi casada com o poeta Robert Browning.
Algumas Obras: Janelas da Casa Guidi (1851), Aurora Leigh (1856), Poemas antes do Congresso (1860).
________


POETAS PORTUGUESES

SONETO

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

VIOLANTE DO CÉU


VIOLANTE DO CÉU, nome adotado como freira dominicana por Violante Montesino, poetisa que nasceu em Lisboa em 1601 e faleceu na mesma cidade a 21 de janeiro de 1693. Tornou-se freira em 1630, Sua arte poética tinha grande poder verbal, intelectualizando temas líricos com grande sinceridade.
Algumas obras: Rimas (1646), Parnaso Lusitano de Divinos e humanos Versos (1733).
_____________________________________

ERÓTICA

NA PENUMBRA

Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,
Lembras-te? . . . apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo. . .

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

RAIMUNDO CORREIA

RAIMUNDO DA MOTA AZEVEDO CORREIA, poeta brasileiro, nasceu em um navio na baía de Mogúncia/MA a 13 de maio de 1860 e faleceu em Paris a 13 de setembro de 1911. Formou um dos grupos mais fortes da poesia parnasiana brasileira. Algumas obras: Primeiros Sonhos (1879), Sinfonias (1883), Versos e Versões (1887), Aleluias (1891).
______________


FOLK-LORE

O fato mais característico do folclore santista é a Fonte do Itororó, que existia no sopé do Monte Serrat, perto do início da escadaria. Há séculos ela era procurada por sua água límpida e cristalina que brotava da rocha. Enquanto Santos não tinha serviço de abastecimento, a bica do Itororó servia o povo. Ela tornou-se lendária, pois diziam que quem bebesse de sua água não deixaria mais a Cidade. A biquinha do Itororó ficou tão famosa, que a Prefeitura mandou urbanizá-la. Tempos depois ela secou. Mas ficou eternizada na cantiga de roda, que ainda hoje se escuta na boca do povo.


Recorde-a:

Fui a Itororó
Beber água e não achei
Achei bela morena
Que no Itororó deixei

Aproveite minha gente
Que esta noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada.
_____________________

LENDAS INDÍGENAS

MIRIXORÃS

Mirixorãs, são as prostitutas existentes nas tribos de índios brasileiros. Elas são escolhidas entre as meninas mais bonitas – duas ou três cada geração. São consagradas numa linda cerimônia, não podem mais se casar. São mulheres de todos, são mulheres de ninguém, são mulheres de si mesmas, porque se fazem desejadas por todos os homens. Elas não causam ciúmes nas mulheres casadas. Ao contrário. Em certas épocas elas aconselharão os maridos a procurarem as mirixorãs que serão boas e carinhosas com eles.
____________________



SOBRE FÁBULA

A fábula é um dos jeitos mais antigos de contar estórias! Foram descobertos vários registros no Egito e na Índia, em livros sagrados como o Pantchatantra, que é escrito em sânscrito e em livros que revelavam os segredos do sucesso na vida política, como Calila e Dimna. Do Oriente para o mundo ocidental, vamos ter Esopo - o nome do mais famoso fabulista. Outro nome bem conhecido é Jean de La Fontaine - mas esse é bem mais "moço", nasceu na França, em 1621. Agora, entre um e outro, entre Esopo e La Fontaine, existiram muitos outros homens interessados na Fábula - e, é claro, depois deles também. As fábulas querem dizer e dizem muito em poucas linhas. Podem ser em prosa ou em versos; seu título apresenta de imediato os personagens que tomarão parte da trama e a gente pode, assim, imaginar o conflito que está para acontecer. É da fábula que nasce "a moral da estória" - na verdade, um conselho ou um julgamento sobre os fatos que acontecem na vida que nos é dado pelo narrador.
________________________________________

No dia 12 de setembro, junto com o lançamento da revista literária artesanal POETIZANDO nº. 30, houve também a apresentação do novo livro da poetisa e artista plástica EUNICE MENDES: CERIMÔNIA DAS FLORES. Segue um poema desse trabalho que dá título ao livro.

CERIMÔNIA DAS FLORES

eu era a menina
que todas as tardes
sentava no muro do jardim
e oferecia uma flor
a quem passasse no meu portão

tinha em mãos
um grandioso bouquet
de margaridas
cravos
rosas
violetas
lírios amarelos
e bocas de leão

fossem homens ou mulheres
crianças ou velhos
ricos ou pobres
eu lhes dava uma flor
do meu jardim
e recebia sorrisos
coroados de sol;
alguns, surpreendidos,
não compreendiam de imediato
a singeleza do gesto
e me olhavam atordoados e inquietos

- a flor insistia em minhas mãos

eu era a mensageira das flores
que todas as tardes
sentava no muro de casa
e celebrava a vida com esperança
nada sabia das outras vidas
e isso me fascinava
porque cada uma delas
não era eu
havia uma intensidade
nos seus universos desconhecidos
que me encantava e embevecia
como se inconsciente soubesse
que só me completaria ali: no outro

queria que aquelas mãos desconhecidas
apenas se estendessem para as minhas
e simplesmente recebessem
o que lhes ofertava com alegria

entre mim e o outro
coloquei uma flor:
- ponte e convite

com o passar do tempo
as flores foram se tornando outras coisas
mas a intenção do gesto persistia
a mão gratuita estendida
ofertando possibilidades

as mãos brancas e finas
de dedos longos e magros
mãos cheias de anéis
mãos que desenhavam
e faziam bordados
teciam flores de papel
e passarinhos de barbante
mãos que escreviam
pareciam de menina ainda
de unhas curtas e pequeninas
pintadas de dourado
pintadas de branco pérola
mãos que recortavam
coloriam
construíam coisas inúteis
- as mesmas mãos das flores

mãos que tanto pediam
cartas
conchas
caixas
a se tornarem
pássaros
nuvens
peixes

as mesmas mãos das flores
fazem do antigo gesto um poema:
ponte e convite

- a flor insiste em minhas mãos
__________________________

NOVOS

RESTOS

Tudo o que em mim há muito já não sinto
- dor ou prazer, ânsia de morte ou vida -
persigo em meu interno labirinto,
para levar bem rápido à saída...

O que já não afirmo ou já não minto,
e o ego já não crê nem já duvida
- frações sem uso do apagado instinto
ou partes mortas da razão perdida -

já não me servem, pois são trastes fúteis.
Como algo que parou de funcionar,
são sentimentos para sempre inúteis.

Como tantos restos em minha alma escura,
vou procurar-me sem jamais me achar
ou encontrar-me sem qualquer procura.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
___________________

DESPERDÍCIO

O POEMA
QUE SE PERDE
NO CLÍMAX DO INSTANTE
É COMO UM LIVRO ESQUECIDO
ABANDONADO
QUE VAI MOFAR NA ESTANTE

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________

SONETO SETENTISTA

Setenta foi a década do escuro,
contra a liberação que a precedia.
Enquanto a precedente foi do dia,
a ditadura atinge o grau mais duro.

Regime militar detrás do muro
da lei de segurança e covardia.
Cercada, a intelligentsia se escondia,
e o cidadão pensava estar seguro.

Não me exilei, mas fiz oposição
dum modo panfletário original,
mistura de vanguarda com calão.

Fanzine de poesia marginal
foi precursor da mídia, desde então,
no que esta tem de forma e de informal.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
________________________________

VIGÍLIA

Quando a vida
Tomba
Tomba
Tomba
Pietà
em meus braços
De
caída
Plena
em pleno
cansaço
Oh
não
adormeço
(a morte
espreita
meus passos)

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
_________________________

NA ARQUITETURA do amor
és mais do que cornija
Não te abandonas
como ninho ausente
de não dormidas andorinhas

Provocas
o humilde ventre
e os seios indetidos

Nem sequer
na divina corrida
ficas quieta
olhando para o céu

No entanto
na geometria
aparentemente fria
das colunas vivas
és uma cornija

Mas voas
um céu interior
onde os ventos
são presos
na posse.

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

CÉU FASHION

O vento acabara de pentear as nuvens,
Quando olhei o céu.
Dois pássaros serviam de presilhas.

MADÔ MARTINS
Santos/SP
__________

DESA(R)MADO

Vou desa(r)mado
ao teu encontro
sem risos
sem festas.

Com sal
nos olhos cansados.

Levo sob os ombros
escombros de sonhos.
Cidades devastadas
dentro de mim.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
__________________________

PARADOXO

Sentimento, amor, é utopia
Nesta era de feras fabricadas.
Isto é coisa somente de poesia,
Deletério de vidas fracassadas.

Nesta era de impulsos bestiais,
Onde o amor é o escudo dos vencidos,
Ser forte é ter olhos glaciais,
Ser fraco é ter olhos distraídos.

Ser forte é calçar umas botinas,
Portar em cada mão uma granada
E o coração na ponta de uma espada.

Ser fraco é deitar-se nas campinas,
Sem se importar se existem duas Chinas,
E doido amar uma mulher amada!

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Antologia Poética
__________________

TROVAS

Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.

*

Se na aflição se padece,
busque em Deus a solução...
A calma do céu nos desce,
no intercâmbio da oração.

FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
in: Gotinhas de Orvalho
____________________

MINOTAURO

para Guido Guerra

Na casa de Asterion
mitos e belas donzelas tramam
contra o Amor.

Esfaqueado,
Teseu perambula
entre
muralhas
inutilmente lúcido.

CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
__________________

Do alto das torres do tempo as nuvens observam
Languidamente o anônimo passar dos dias
E dos homens.

Moldam-se em ondas alucinadas
Redesenham figuras no espaço
Sobre os autômatos caminhares humanos.

Formam ursos, carros, totens,
As nuvens e seu destino
De parecer o que não são

Como os homens.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_____________________

SAL MORA

Meu pote velho de sal.
Velho, até que se quebre.
Açúcar não colocaram
no bojo de tuas entranhas.

No rosa, branco, marrom
moldaram flores barrocas.
Destino, ser doce ou salgado!
Mistério insondável da vida.

De insetos te protegendo
dois parafusos sustentam
a tampa da árvore já morta,
na placa "sal", que enferruja.

Meu pote velho!
Comerás muitos sacos de sal
e abrigarás a salmoura
por seres sua morada.

Velho sal!
De colher em colher
te doas... mas tornam
a salgar o pote.

Pote velho, pote velho,
mãos sem forças
que te enroscam,
esquecidos do mel.

O homem segura o pote.
Os deuses seguram o homem.
De sal igualmente contidos
desmanchando-se na mesma sorte.

Da água ambos vieram,
na água eles se dissolvem,
e a terra é que engolirá
a amargura dessas vidas.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
__________

MANIA

Pelo tempo que me resta,
vocês terão que agüentar:
esta mania cantadeira
composições
versos livres
Não consigo me calar.

A inspiração me persegue
em qualquer canto ou lugar.
Já nem sei onde me encontro.
Sei que posso imaginar.

E monto nesse cavalo
galope alago, sem parar.
Presa nas crinas do sonho,
canto livre pelo ar!

A poesia corre solta.
Invade casas, jardins.
Senta no banco da praça
- ao meu lado. Nunca se afasta de mim.

Vou escrevendo pelo mundo afora:
vento água areia...
- qualquer vão. Até emudecer meu canto
e calar meu coração.

REGINA ALONSO
Santos/SP
___________

POEMA QUASE TEOLÓGICO

Cansaço
deste cansaço. Deste
fitar horizontes fechados,
crernãocrer para lá do paredão de treva
imensidades lúcidas. Cansaço:
peixe no mar do inumerável,
adstrito ao zero da esfera. Cans-
aço: casulo no infinito,
não rompê-lo. Prévio
cansaço
do inútil arranhar o espaço, - o tempo
incólume.
No tempo
erguem-se decisivas as muralhas da treva.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_______________________

PAZ

As pombas comeram milho
nas mãos do mendigo purulento.
Pombas sem fel.
Quanta ironia!
Comeram o milho e, agradecidas,
deixaram em sua pele
a virose agressiva e fatal
que aos poucos levou
ao panteão imortal
seus ossos de milho.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
_________

flamboyant

Nem palavra nem árvore. Flamboyant é bote, boiando acima da tarde.

˚
No período de floração, flamboyant é flama. Convém manter as crianças à distância. Os amantes nem tanto.

˚
Flamboyant cresce à margem do dicionário. Parce que il ne parle pas, il flambe.

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO
Juiz de Fora/MG
in: Dicionário Mínimo
___________________

DESCOBERTA

Final de tarde.
Pelas alamedas verdes
vou caminhando triste,
solitária de mim,
numa tristeza de final de primavera,
de mudança de tempo,
de saudade.
Os olhos grudados ao chão,
sem rumo,
vou simplesmente caminhando...
Remoendo a tristeza de ser triste.
A noite
ligo a televisão e percebo
na pauta de um jornal, a repórter
mostrando o viço dos roseirais,
das palmeiras,
das margaridas, enfim,
da beleza majestosa que emoldura
as alamedas onde passeei minha tristeza.
Naquele instante
dei-me conta que a vida,
abraçada a mim naquele trajeto,
tentava me trazer de volta.

DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP
__________

O POSSÍVEL DA MEDIDA

Retocar
a seiva
do verbo.

Reflectir
no oculto
da face.

Retirar
o sentido
da rima.

Reservar
o rebordo
da espera.

Remeter
à farsa
da fala.

Recear
o toque
no seio.

Reportar
ao trauma
do signo.

Restringir
na proporção
do medo.

Requerer
o oposto
da questão.

E repesar
o possível
da medida.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
______________

para minha vó

ainda dou meu tempo aos jardins
e espero os brotos dos jasmins
no mês de maio
cobrir o chão de estrelas brancas
para em minhas mãos virar perfume
depois de secas em sachês bordados

minha vó também recolhia
as pequeninas flores perfumadas
e entre as suas mãos guardava
o encanto infantil de as ter juntado

agora estou sozinha em seu jardim
e as mãos dela às minhas
parecem haver se acrescentado
a mesma esperança
adormecida nas flores do jasmim
sonha acordada em mim
feito estrelas brancas perfumadas

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Cerimônia das Flores
________________________

DUNAS III

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Não sou um tiranossauro dos poemas.
Só quero exprimir o que sinto.
Não quero que tapem minha boca, nem esquemas.
Quero dizer verdades, não minto.

Vamos arrasar os malfeitores,
os que corrompem os poetas juvenis,
não daremos tréguas aos salteadores,
que habitam nos brasis.

Marcharemos companheiros, sem temor.
Versejando na terra da inspiração
e no soneto alado da canção!

Porque o pó fétido do mal amado
pulveriza o poema de amor,
mas no fim ele morre, acabado.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________

ANSIEDADE

Sentir na boca e na barriga
a emoção que sente,
toda noite,
a mulher do atirador de facas.
Até que a angustia da espera
cresça tanto
que o desvio da arma
passa a ser desejado.
Mas se teima a destreza
em ser milimétrica
no perfil,
vai o corpo de encontro
à rota determinada.
Como se fosse inexorável
morrer de medo
ou de coragem.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: www.sergioantunes.art.br
________________________

Segredo é uma coisa
que se conta
para poucas pessoas

e essas poucas pessoas
contam para outras
poucas pessoas

e essas outras
poucas pessoas
só contam para algumas
poucas pessoas

Segredo é uma coisa
que muitas pessoas
podem ficar sabendo

DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
_______________

SONETO DO MAR

E me é doce olhar tuas águas
e enxergar nelas uma luz latente
azul e verde, simultaneamente:
nestas cores afogo minhas mágoas.

Esqueço da vida os dissabores
e me encontro comigo próprio
sem precisar de qualquer ópio
só me enxergando nas tuas cores

Sinto que o amor fica muito perto
quando bem perto eu fico do mar
E você, quando vem me encontrar?

para este amor fica mais certo
para este amor se consumar
no brilho, no sal, nas cores do mar.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
____________

Sobre a areia e o mar
Passeia a lua tão cheia
Dando paz demais

*

Sobre os prédios altos
Reflete a lua de prata
Seu manto de luz

*

Se vem hoje o amor
Prometo à lua no céu
Amá-lo prá sempre

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
__________

MAR

Eu te reverencio pela doce provocação com tuas ondas inquietas, que insistentemente me vêm beijar os pés na branca areia da praia.
Eu te reverencio por embalares com a canção de tuas ondas, os pescadores com suas jangadas, no leito de tuas águas, para buscarem o seu pão de cada dia.
Eu te reverencio por trazeres tantos irmãos de tantos outros lugares que procuram a realização de seus sonhos.
Eu te reverencio por teus mistérios, tua magia, teu poder e tua beleza, com esse azul refletido da imensidão do céu.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
Santos/SP
__________

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO
e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto,
Estilos de Época e muita poesia...

UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO:
walmordario@ig.com.br
_________________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Cerimônia das Flores
* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris
Valor: R$ 15,00 (cada)

* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio
Valor: R$ 5,00 (cada)

* Nuvens de Sol
Valor: R$ 10,00

****************

De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...
Valor: R$ 5,00 (cada)
_________________

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes
O Poeta
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
___________

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes
Escritos - Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog:
http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
CONTATOS:
walmordario@ig.com.br
____________________________________

14.6.08

Revista Poetizando nº 29
(Edição de Inverno)

A pálida luz da manhã de inverno,
O cais e a razão
Não dão mais ‘sperança, nem menos ‘sperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.

No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem menos sossego sequer,
Para o meu ‘sperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.

20/11/1929

FERNANDO PESSOA
in: Poesias Coligidas
______________

AUTORES DO MÊS

Junho

CLÁUDIO MANUEL DA COSTA, poeta brasileiro, nasceu no Sítio da Vargem, distrito da cidade de Mariana, em 5 de junho de 1729 e faleceu em 1789. Exímio sonetista, de influência acentuadamente camoniana. No colégio dos jesuítas estudou filosofia. Na Arcádia Romana tinha o nome acadêmico de Glauceste Satúrnio. Com vinte anos embarcou para Portugal, com destino a Coimbra, em cuja Universidade se formou em cânones. Entre 1753 e 1754, no Brasil, advogou em Vila Rica, onde também exerceu o importante cargo de secretário do Governo. Por sua idade e boa lição clássica, exerceu ali uma espécie de magistério. Aos sessenta anos foi comprometido na chamada Conjuração Mineira ou Inconfidência. Preso, suicidou-se na cadeia. Algumas Obras: Obras (1768), Vila Rica (1839, póstumo).

SONETO

Nise? Nise? onde estás? Aonde espera
Achar-te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar-te desespera!

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera
Entre esta aura suave, que respira!
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai-me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde!
Ah como é certa a minha desventura!
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?

in: Sonetos Escolhidos
______________

Julho

LAURINDO JOSÉ DA SILVA RABELO, poeta brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro a 3 de julho de 1826 e faleceu na mesma cidade a 28 de novembro de 1864. Filho ilegítimo, mulato, levou vida extremamente infeliz. Depois de ser padre e militar, formou-se em medicina na Bahia. Serviu como cirurgião do Exército e foi professor de Gramática, Geografia e História na escola anexa à Militar. Lutou sempre com a penúria e teve grandes amarguras pela perda de parentes e amigos que amava. Sua poesia foi melancólica e satírica, angariando alguns desafetos. Orador e boêmio, conseguiu popularidade em sua época, sendo conhecido como "poeta lagartixa", pelo seu aspecto físico. É o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras. Algumas Obras: Trovas (1853), "Tese" – Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias (1867 – póstuma), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (1872 – póstuma), Obras Completas (1946 – póstuma).

AS LÁGRIMAS

Lágrimas, lágrimas tristes,
Não deixeis os olhos meus,
Que por vós eternamente,
Aos prazeres disse adeus.

Para ter indisputáveis
Direitos ao nosso amor,
Arranquei-vos da minh’alma,
Sois filhos, de minha dor.

Minha vida, agreste planta
De desertos areais,
Ao sol das paixões vivendo,
Expira-se a não regais.

Para ter indisputáveis
Direitos ao nosso amor,
Arranquei-vos da minh’alma,
Sois filhos, de minha dor.
____________________

Agosto

FELIPPE Daudt D’OLIVEIRA, poeta brasileiro, nasceu em Santa Maria da Boca do Monte/RS a 23 de agosto de 1890 e faleceu em Auxerre, França, a 17 de fevereiro de 1933. Desde jovem fez parte do grupo simbolista gaúcho. No Rio de Janeiro colaborou na revista Fon-Fon (1911 – 1915). Sofreu influências de Antônio Nobre e Cesário Verde. Aderiu ao Modernimo. Depois de participar da revolução constitucionalista de 1932, exilou-se na França. Sua obra foi editada pela Sociedade Felippe D’Oliveira criada por amigos. Algumas Obras: Vida Extinta (1911), Lanterna Verde (1926).

E
NCRUZAMENTO DE LINHAS

Núcleo de convergência no bojo da
noite oval.
Lanterna verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada.)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas
metades
a espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da
chaminé
as estrelas inúteis à
propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista
fosse daltônico
a locomotiva teria parado.

in: Lanterna Verde
_______________

CANTO

O termo é derivado do latim "canère", cantar. Emissão musical da voz, que pode utilizar ou não a palavra, e manifestar-se sobre a forma de melodia, canção, recitativo, ária, etc. O canto se apresenta de maneiras variadas, ele aproveita a riqueza dos timbres e pode atingir os mais altos níveis de emoção artística. Poesia que se pode cantar; poesia lírica. Composição poética de estilo nobre.

O CANTO DO AMOR

Eis de que é feito o canto sinfónico do amor
Há o canto do amor de outrora
O ruído dos beijos perdidos dos amantes ilustres
Os gritos de amor das mortais violadas pelos deuses
As virilidades dos heróis fabulosos erguidas como peças antiaéreas
O uivo precioso de Jasão
O canto mortal do cisne
O hino vitorioso que os primeiros raios de sol fizeram
cantar a Mémnon o imóvel
Há o grito das Sabinas ao serem raptadas
Há ainda os gritos de amor dos felinos nas selvas
O rumor surdo da seiva trepando pelas plantas
O troçar das artilharias que coroa o terrível amor dos povos
As ondas do mar onde nasce a vida e a beleza
O canto de todo o amor do mundo

GUILLAUME APOLLINAIRE

GUILLAUME APOLLINAIRE (1888 – 1918)
Pseudônimo de Wilhelm Kostrowitzki, escritor francês, publicou vários livros: entre eles "Alcools" (1913), "Caligrammes" (1918) e a peça teatral "Les Mamelles de Tirésias".
_________________________________________________


LETRAS

CASINHA PEQUENINA
(Folclore Popular)

Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu
Tinha um coqueiro do lado
Que coitado de saudade já morreu
Tinha um coqueiro do lado
Que coitado de saudade já morreu
Tu não te lembras das juras e perjuras
Que fizeste com fervor
Tu não te lembras das juras e perjuras
Que fizeste com fervor
Do teu beijo demorado prolongado
Que selou o nosso amor
Do teu beijo demorado prolongado
Que selou o nosso amor
Tu não te lembras do olhar que a meu pesar
Dou-te o adeus da despedida
Tu não te lembras do olhar que a meu pesar
Dou-te o adeus da despedida
Eu ficava tu partias tu sorrias
E eu chorei por toda a vida
Eu ficava tu partias tu sorrias
E eu chorei por toda a vida

CASINHA PEQUENINA é considerada uma modinha lírica e sentimental. Tem sua origem no século XVIII. Ela foi lançada em 1906 e teve várias gravações. Atribuída a autor desconhecido, a "Casinha Pequenina" teve a origem pesquisada podendo ser seu criador o paraense Bernardino Belém de Souza. Carteiro e pianista, Bernardino tocou em navios e divulgava nas viagens suas composições. A verdade é que nunca se soube quem é o autor da canção, apesar do sucesso.
______________________________

MULHER

À NOITE

Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.

FRANCISCA JÚLIA

FRANCISCA JÚLIA DA SILVA MUNSTER, poetisa brasileira, nasceu em Xiririca/SP em 31 de agosto de 1874 e faleceu em São Paulo/SP em 1º de novembro de 1920. Considerada a maior poetisa parnasiana brasileira, tendo como tema principal a natureza, descrevendo com objetividade e grande precisão formal.
Obras: Mármores (1895) e Esfinges (1903).
_________________________________


POETAS PORTUGUESES


DIDO
(fragmento)

(...)
Doces despojos
Tão bem logrados
Dos olhos meus,
Enquanto os fados,
Enquanto Deus
O consentiam,
Da triste Dido
A alma aceitai,
Destes cuidados
Me libertai.
Dido infelice
Assaz viveu;
D’alta Cartago
O muro ergueu:
Agora nua
Já, de Caronte,
A sombra sua
Na barca feia
De Flegetonte
A negra veia
Sulcando vai.

CORREIA GARÇÃO
in: Obras Poéticas e Oratórias

PEDRO ANTÔNIO CORREIA GARÇÃO, nasceu a 29 de abril de 1724 em Lisboa e lá faleceu em 1772. Estudou com jesuítas e na Universidade de Coimbra. Foi membro da Arcádia Lusitana com o pseudônimo Coridon Erimanteu. Foi perseguido e preso pelo marquês de Pombal por motivos não esclarecidos, falecendo na prisão no mesmo dia em que se expedira a ordem de soltura. Insinua-se que a prisão teve causa de natureza mui particular e não política. Escritor purríssimo, compôs dissertações, discursos acadêmicos, sonetos, odes, epístolas, sátiras e duas comédias.
Obra: Obras Poéticas (1778).
______________________




ERÓTICA


A UMA MULHER AMADA

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala. . . eu quase morro. . . eu tremo.

SAFO

SAFO, em grego: Sapphó, poetisa grega, nasceu em Mitilene, na ilha de Lesbos a 625 a. C. e lá faleceu a 580 a. C. Pouco se sabe de sua vida, apenas que chefiou um grupo de mulheres que adoravam as Musas e Afrodite, segundo suas poesias. Tornou-se uma poetisa muito famosa sem dúvida por ser mulher, mas sobretudo pela qualidade excepcional de sua inspiração (numa cultura em que as mulheres não concorriam com os homens em tais atividades). Seus poemas incluíam hinos aos deuses e ao casamento escritos em dialeto eólico de várias métricas, entre elas a sáfica, chamada assim em sua homenagem; versos que cantaram exclusivamente o seu grande amor, de um companheirismo entre as mulheres, unindo realismo psicológico e uma grande nobreza de sentimentos. Só poucos fragmentos de poemas restaram até hoje. O poeta inglês Swinburne a colocou entre os maiores poetas da literatura universal.
___________________________________________


FOLK - LORE


TROVA POPULAR:
Composição lírica, ligeira. Cantiga, canção; Quadra popular.

Exemplos:

Fui pro mar colher laranja,
fruta que no mar não tem;
vim de lá todo molhado
das ondas que vão e vêm.
_______________________

Não tenho medo de homem
nem do ronco que ele tem;
o besouro também ronca,
e não faz mal a ninguém.
_______________________

Você diz que sabe muito,
lagartixa sabe mais:
ela sobe na parede
coisa que você não faz.
_______________________

Todo mundo se admira
do macaco andar a pé,
o macaco já foi homem,
pode andar como quiser.
_______________________

Você diz que sabe muito,
borboleta sabe mais:
anda de perna pra cima,
coisa que você não faz.
______________________

Eu te vi e tu me viste
tu me amaste e eu te amei,
qual de nós amou primeiro
nem tu sabes, nem eu sei.
_______________________

Quem me dera ter agora
um cavalinho de vento,
pra dar um galopinho
aonde está teu pensamento.
_______________________

Não sei se vá ou se fique,
não sei se fique ou se vá,
indo lá não fico aqui,
ficando aqui não vou lá.
________________________

Você me chamou de feio
sou feio mas sou dengoso,
também o tempero é feio
mas faz o prato gostoso.
________________________

Essa noite eu tive um sonho
que não me sai da lembrança
sonhei que vi a saudade
abraçada com a esperança.
_________________________________

ORIENTE



DINASTIAS SONG, YUAN E MING

De 906 a 1644, sucederam-se as três primeiras dinastias: Song, Yuan e Ming. Durante esses séculos, a China sofreu invasão dos mongóis e ganhou impulso uma poesia patriótica e nacionalista.
O teatro e o romance passaram também a serem cultivados, através de dramaturgos como Tung-kia e Tang Hien-Tsu, e romancistas como Lo Pen e Che Nai-Ngan, autores de algumas obras-primas da literatura universal.

DINASTIA TANG

Em 589 a dinastia Han foi substituída por um governo frágil e conturbado, que durou até 618. Subiu então ao poder a dinastia Tang, que governou até 906.
A esse período, considerado por muitos críticos a época mais rica e exuberante da literatura chinesa, pertencem poetas como Wei, Li T’ai Pó, Tu Fu e Pó-Kü Yi. O primeiro notabilizou-se por seus poemas de inspiração budista; os outros três tornaram-se famosos no mundo todo graças às traduções de seus poemas líricos e de critica social.
Na prosa, merecem destaque os contistas Chen Ki-tsi, que procurou utilizar a linguagem simples do povo, Yan-Tien, autor de histórias eróticas, e Li Tchao-Wei, criador de contos onde o real se mistura ao fantástico.
___________________________

FÁBULA

O LOBO E O CORDEIRO

Um lobo viu um cordeiro bebendo no rio e quis devorá-lo através de um motivo bem fundamentado. Assim, colocou-se mais acima e depois acusou-o de turvar a água e não permitir-lhe beber.
O cordeiro disse que bebia com o extremo do lábio e, além disso, não é possível do lado de baixo turvar a água do lado de cima.
O lobo, falhando na acusação, disse:
- Mas no ano passado você injuriou meu pai.
E quando o cordeiro respondeu que nessa época nem tinha nascido, o lobo disse:
- Se você tem justificativas demais, não te comerei de menos.

ESOPO
in: Fábulas

ESOPO, em grego: Aisōpos, em latim: Aesōpus, fabulista grego, viveu provavelmente no séc. VI a. C. Acredita-se que tenha sido escravo em Samos, no séc. VI, obtendo alforria viajou para o Oriente. Viveu na corte de Creso, mas foi condenado à morte e atirado do alto da rocha Hiampéia. Calcula-se que nas edições modernas gire em torno de 359 fábulas. Esopo é considerado o pai da fábula.
______________________


NOVOS


NÓS QUE SOMOS LIVRES

nós que temos água tratada em casa
nós que não sabemos o que é passar fome
nós que morreremos lá pelo ano 2032
nós que somos manipulados pela mídia
nós que não seremos salvos no juízo final
nós que ainda não ficamos loucos
nós que estamos destruindo o planeta
nós que resistimos à invasão americana
nós que zombamos dos bêbados
nós que somos egoístas, por isso não queremos morrer
nós, os indiferentes, parasitas da máquina estatal
nós que nos consideramos sapiens
nós que falamos muito de nós mesmos e pouco das coisas
nós que nos humilhamos perante deus
nós que temos dinheiro para comprar livros
nós que somos bons de cama e infelizes no amor
nós que às vezes plantamos árvores
nós do carro importado-fetiche, do celular-fetiche,
da grife-fetiche
nós que vamos à missa, mas torturamos
nós que tratamos as crianças como imbecis
nós que somos fracos, por isso nos unimos
nós que temos esperança no ser humano
nós que sofremos de fadiga neurótica
nós os salvadores da pátria, ah que pátria...
nós que temos vergonha por sermos honestos
nós que quase fomos escravizados por hitler
nós que não entendemos as formigas nem os tijolos

NICOLAS BEHR
Brasília/DF
in: Primeira Pessoa
_______________

POSSE

O MAR QUASE INFINITO
PROVOCA TODA A EXTENSÃO DE NOSSO OLHAR
NOSSA IMAGINAÇÃO TRABALHA LEVE
E NOSSO CORPO FLUTUA

NA TERRA PISANDO FIRME
DELA OUVIMOS QUASE UMA SÚPLICA
FICA
ME POSSUE
SOU TODA TUA

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
________________

SONETO TROPICALISTA

Uma antropofagia, até tardia,
tornou a nossa música salada
de fruta, nacional ou importada,
naquela tropicália de alegria.

Sessenta foi a década do dia:
solar, viva na cor, iluminada.
Criou-se como não se cria nada.
Valia tudo e tudo, então, valia.

Caetano, Gil, Mutantes, circo e pão.
Modernantiga guarda, esquerdireita.
Barroco’n’roll. Mambossa. Rumbaião.

Eu era adolescente, e, certa feita,
senti num festival que uma canção
é letra, e tudo nela se aproveita.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
_____________________________

MAIS ALTO

Subir ao palco
vertigem
arrepio na espinha
Sob a luz dos refletores
na ponta dos dedos
a folha treme
Ler inflamado
enquanto nos bastidores
a alma desmaia
Dizer num salto
- Mais alto!
aquilo que ninguém escuta
Exibição pública
do corpo presente
guarda-móvel de multidores
Objeto incandescente que fala

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
_______________________

O MURO

O muro erguido –
alto
grave
cinza.
O muro evoca
um eco de distâncias.
Pasto agreste
de livres lagartixas
o muro
imóvel
solidário
gasto
com fendas fundas
como feridas
- chagas
do tempo instável.
O muro está
no ponto exato
: símbolo da vida
estagnada
igual
jamais mudada.
Muro
posto entre dois
o divisor
cruel e frio
(dirão alguns)
porém o muro
um sonho esconde
: cair por terra
ser como ponte
: um claro traço
de união.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
__________________

TROVA

Abre-se o céu num sorriso,
nesta manhã de bonança,
e eu sinto que o paraíso
cai, sobre mim, de esperança.

HUMBERTO DEL MAESTRO
Vitória/ES
in: Trovas, Haicais e outros poemas
__________________________

GALOS DE BACH

para Ilma Fontes

Na brisa desta tarde
uma canção outonal
partiu sem deixar vestígios.

E este silêncio devorador?
Não mais os galos de Bach
prenunciarão alvoradas.

CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
________________

MÁSCARAS DE SAL

Ando na madrugada
escutando meus passos
Peregrina dos sonhos
que acalento
Os bons, os justos, os fartos dormem
e nada entendem de poesia
(que diferença faz?...)
Privilégio, achar-se poeta
passando anônima
na multidão que sobrevive
carregando máscaras de sal.
Devoro quixotescamente o brilho
e as almas dos loucos me assistem.
Quero constar nos anais
do meu bairro
e derramo passadas
com focos de luz
que vão-se junto
com minha sombra.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
________

GÊNESIS

As águas
do meu útero
continuam poderosas.
São águas da Vida
que já brotaram filhos.
Hoje, meu oceano interior
parteja poesias.
Há um eterno marulhar
dentro de mim...

NEIVA
PAVESI
Santos/SP
_________

DENTRO

Vejo-me por fora do meu dentro
Mente bóia que flutua
e não vê
nem mesmo quando
entro.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
___________

Da tua boca vem o hálito das flores
E a liberdade secreta que ela exala
Mantém-se úmida entre os dentes semi-abertos

Da tua boca o gesto silencioso
O grito insone, o grito pálido
Que a alma amorosa repele

Da tua boca o instante imenso
Escorre como um filete d’água
Por entre os rumos da língua

Boca tua, boca tua, canteiro
Interminável, caminho enrubescido,
Pátria dos desejos mais inteiros

Recebedora da palavra muda
Luz e sombra e manhãs e sóis
Tua boca, boca minha, mar de amores

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_________________

TERRA-MÃE 1

Entrou ladrão na casa de Maria.
Levou tudo, doutor,
num prédio de 3 andares
sem elevador.

José foi assaltado na rua.
Não entregou os tênis.
Atiraram nele, doutor,
e deixaram a namorada nua.

Cadê a ambulância?
O anjo protetor?
Cadê a justiça?
. . . Cadê você, doutor?

MADÔ MARTINS
Santos/SP
in: Doce Destino
_____________

MEU RITMO

O sol, em bola de fogo.
O mar, em águas de prata.
Caminhando na calçada,
vou compondo a serenata.

Meus pés vão marcando o ritmo,
nas pedras do calçamento.
É música, somente música
- o que me vai no pensamento.

Quando chego ao fim da rua,
já está pronta a canção.
No banco, aguardo a lua
- luz para a interpretação.

A noite, chega apressada
em busca dos versos meus.
Humilde, vou me levantando,
ensaiando um adeus.

E uma pauta de estrelas
enche o ar de poesia
- minha canção corre solta
até raiar um novo dia!

REGINA ALONSO
Santos/SP
_________

PLANO MÉDIA ZERO

Professores pastam
Salários
Alunos relincham
Idéias
O Estado quer sangue
Nos livros

"Manchem todas as páginas
Sobre democracia"

A República quer reinar
Com o plano
MÉDIA ZERO

"Exilem seus cérebros
Antes do voto
Burros não lêem
Burros não falam
Apenas relincham
Apenas empacam
Mas neguemos o pasto
Pra que voltem a nos carregar"

Burguesia é
Nobreza
Presidente é
Vossa Majestade
Aluno é
Um selvagem
Uma anarquia manipulável
Pelo sistema monárquico de nossa República
E escola é
Como aula de química
Temos liberdade de escolha
Mas só na teoria.

CARLOS BRUNNO SILVA BARBOSA
Valença/RJ
in: ¿ Not or Not Ser?
________________

O TEMPO

Soa a hora, sonora,
no relógio de pêndulo.
Que sabemos do tempo?

O tempo não se deixa capturar.
E pulsa, no escuro,
como um grande pássaro.

Inútil acender o dia.
Passa (e não passa) o tempo.
Mas
não fluvial, nem nuvens: como

as correntes marinhas
no mar imóvel,
flui o tempo em si mesmo.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_____________________

AMIGOS A PARTE

Um amigo é um pedaço do que somos no espelho.
Num olhar de esgueiro, o espelho reflete surpresas.
Embora nos revele sempre os mesmos.
Um silêncio que passa por baixo do vidro
Por dentro do brilho do outro olho no aço alheio.

Um companheiro quando se torna inimigo se excede
em suas sobras, sobretudo quando saboreia a ceia
das suas vitórias e torce por sua queda e arrota sua derrota.
Um ex-amigo é um atalho para um atoleiro.

Um amigo é uma linha reta, uma festa, por inteiro
Nenhum retalho em volta. É um poço em um rosto.
Refletido no abismo. E quando morre o amigo,
sobra no espelho aquele que mais perdemos na vida,
Nós mesmos.

ILMA FONTES
Aracaju/SE
___________

o silêncio
e as palavras
espalhadas no papel

o silêncio
e a janela
entreaberta para o céu

o silêncio
e a canção ausente
de outra janela

o silêncio
e a paisagem lá fora
atravessada de carros
ritmo de martelos
som de sinos

o silêncio
pousado na mobília
cheio de olhos acesos
numa cumplicidade de espelhos

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Aurora Gris
____________

DUNAS II

A Luiz Antônio Martins Pimenta

Fomento o poema e ele nasce vivo!
Vasculho na memória o meu passado
e o cantar que procuro é como um livro,
embora um tanto velho e acabado.

Mas, insisto. Quero viver no universo o que me cabe,
e encontrar na amada o bem que quero,
no grande desejo de quem sabe
ou na sapiência que espero.

Encontro um belo par de olhos juvenis,
mas no entanto, infantis,
tal qual rosas num jardim.

Mas, não é isso! O que espero é algo mais,
um pouco de saudade, alegria e paz.
Quem sabe não encontro dentro de mim?

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_____________

PENSAMENTO

"Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro"
Arnaldo Antunes


pensamento ou pensaminto,
penso no nada que sinto.
penso tanto, penso pouco
penso até ficar rouco.
penso muito, penso apenas
penso em iras serenas.
penso que sim, logo penso que não;
pressinto o que pensa o coração.
sonho agora, penso depois
vejo amor e somos dois.
penso entretanto, penso pois é
e sustento que assim é que é;
penso que fico, penso que parto
e fujo fechado no quarto.
penso que levo, penso que trago
repenso no tanto que estrago.
reparto logo, reajo comigo
se penso que já não consigo;
olho por baixo, penso por cima
e resolvo a razão da rima.
penso assim, penso assado
pensamento que vem de lado.
penso de longe, pouso aqui perto
e refreio um pensamento incerto.
penso que faço, penso que fiz
pensamento que se contradiz.
penso que fui, logo anoitece,
pensamento que se merece.
penso o reverso, fico deserto;
e erro ao pensar sempre certo.
penso a frio, penso a quente
não penso muito raramente...
penso, que raio! penso que rio,
repouso no som do vazio.
penso que caio, sorte madrasta;
e penso que pensar não basta.
penso que então, penso que tento
pensamento a cem por cento.
penso enfadado, penso que enfim;
repenso naquilo que pensa em mim.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
_____________

FELIZ o Homem
sua memória
em cone azul
de sombra

Talvez a sombra
que traz o sono
ou a surpresa
do sonho

Quem sabe o sonho
com suas asas
simples (memória
de vôo)

que de tão alto
se deslocando
espreme a sombra
nos muros

que não protestam
que não sorriem
que não conhecem.

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_______________

CONFISSÕES PLATÔNICAS

A curva da estrada
filtrava sonhos
ensolarados.

Você não vinha
pelas veredas
de meus pensamentos.

Se escondia
nas nuvens
no limo das pedras
para zombar de meu amor.

Deixando o coração
relógio perdido
na coreografia das horas.

Você não veio
tristeza pincelou
meus olhos.

E um rio
correu solto
no coração.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: http://www.mainieri.blogspot.com/
_______________________

ANÚNCIO

Perdeu-se
uma mulher branca,
estatura mediana,
um pouco menor que minha cama,
um pouco maior que meu lençol.
Loira,
feita de trigo e pão,
de presente e de futuro.
Recompensa-se bem
por qualquer informação.

Trajava saia azul
e tinha uma constelação
( ou marca de café )
na barra da saia
que brilhava de noite.

Sinais característicos, alguns
que só eu conhecia
ou reparava neles.

Falava comigo, na língua do pê
e era minha cúmplice
nas viagens e nos portos.

Recompensa-se bem
por qualquer informação,
ainda que seja mentira.

Tinha jeito de quem me amava
mas desapareceu
numa tarde de novembro
sem explicação.
Ou, para ser franco,
explicar, explicou,

eu é que não acredito.

SERGIO ANTUNES
São Paulo/SP
in: http://www.sergioantunes.art.br/
______________________

SANTOS PROTETORES

Orquestra de araras, Festas de orquídeas.
Estufas com efeitos vitais; Josés e meninos.
Fotossínteses ao piscar dos flashs.
Crianças brincam, Corre cotia.

Ninfa nua, canto da natureza.
Francisco de Assis, recanto.
Árvores meditam longe do machado
Das almas carentes de Machado.

Famílias passeiam fora da jaula.
Pássaro formoso, cauda aberta em leque.
Macaco Aranha. Arranha-céus. Monopólio.
Deus proteja o Orquidário!

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
in: http://www.mandandobrasa.blogspot.com/
_____________________________

OLHOS DE MAR

Nasceu perto do rio
Ali na cachoeira
O menino de olhos de mar
Afável maneira
De pescaria, assobio, brincadeira
De roubar melancia
De escalar pinheira
De nadar, do rio, à beira

Um dia, por vocação estradeira
Foi à Bahia buscar sua raiz
Foi, na madeira, mestre e aprendiz
Aprendiz e mestre a vida inteira!

"Mudança? Casamento? Bodas?
Vai mobiliar a casa toda?
Fazemos o jogo completo!
Luiz XV, Provençal ou o reto!
Cama, cômoda, penteadeira
Mesa, buffet, cristaleira
O baú para a moça caprichosa
O preço? Moleza, minha rosa!"

O menino de olhos de mar
Por amar suas meninas
E um desejo de se alargar
Resolveu arriscar
Decidiu se mudar
E foi a vida fincar
Lá pros lados do mar
Que agora seus olhos podiam espelhar

E começou mais uma vez
E mais outra
Quantas preciso for!
Não se entregava nem no humor!
A tática era assobiar
E não guardar rancor
"Se entrega Corisco!
- Eu não me entrego não!"

Amava o amor
Amava, amou
Amava música de amor!
A casa quieta
A noite cai
Ouve Luiz Vieira
"Sou menino passarinho
Com vontade de voar..."
E voou.

JOSELITA RODRIGUES
Santos/SP
_________

TARDES DE ANDALUZIA

Serenas tardes em Andaluzia
tão belas, plácidas, nós dois a sós. . .
presenciando o dia que morria
testemunhando o amor que havia em nós. . .

As mãos nas mãos, tardes de Andaluzia. . .
faz tanto tempo, mas não esqueci
que neste amor tanta beleza havia
e quanta graça eu encontrei em ti.

Naquelas tardes em Andaluzia. . .
os nossos sonhos, beleza tamanha,
eram perfeitos, plenos de magia
da maviosa "tierra lá de Espanha".

Nas tardes que recordo Andaluzia
ainda revejo no meu pensamento,
teu vulto claro como a luz do dia
se destacando contra o firmamento.

Vou retornar, tardes de Andaluzia. . .
mas já não sei se posso te encontrar,
tu foste aquele amor que eu queria
e floresceu assim à luz do luar.

Ai, caras tardes em Andaluzia,
da Espanha minha vivo a recordar,
presa de imensa e atroz melancolia
e dos teus olhos verdes cor do mar!

SOPHIA LEITE CRUZ
(em memória)
Santos/SP
in: Hispanidade – 1ª Antologia
_______________________

UM POEMA PARA SOPHIA

Eis que surge fulgurante
mais uma estrela no infinito...
Uma luz, que brilha nesse instante
na eterna glória do Senhor Bendito.
Em sua trajetória semeou o amor,
que nos seus versos farta-se a colheita.
E no seu jeito franco encantador
trazia o lirismo sempre à espreita.
O verso metrificado com maestria,
a elegância das palavras são
como música em suave harmonia
a diluir-se em cada coração.
Poeta, com certeza tens guarida
nesse momento nos braços de Jesus.
Obrigada pelo instante em nossa vida
Maravilhosa, SOPHIA LEITE CRUZ

DALVA DE ARAÚJO
Santos/SP
_________

E A POETA ANÔNIMA VAI...

Vai prá cá e prá lá, inquieta,
Corta os ares como seta
Tem os mares como meta,
Mais rápida que um buscapé
Ninguém sabe como é...
Traz de visível a máscara lilás
Disfarce perfeito
Para um gostar de amar sem jeito,
Em toda parte ela se esconde
Está em simples casebres,
Nos castelos, nas mansões,
Nas igrejas a ouvir sermões...
Sempre quer melhores condições,
A paladina ama as multidões
Planta a flor da revolução,
Repete nos pátios pregões
Clama inadiáveis soluções
Diverte cantando canções
E declama poemas de amor
Para alegrar corações sem paixão

Mas não pára, à procura de uma casa sua
Ainda que não própria, não importa,
Um lugar em que o sonho não aborta
Lustres com luz do sol e da lua,
Sofás de nuvens, portas abertas
Para deixar passar a brisa nua
Soprar a realidade quando crua
Enquanto no horizonte não aparece,
Mergulha nas fontes da internet
Além do espaço, tempo e preces
Pousarão um dia seus passos
No topo do prédio mais alto
Que a catedral de qualquer capital
E na paisagem privilegiada
Saciará a visão cansada
Com a paz que só a casa almejada traz

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP


INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas,você poderá encontrar na revista impressa: Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto, Estilos de Época e muita poesia...
UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO:
walmordario@ig.com.br
_______________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

* Flores e Frutos
* Sonhares
* Aurora Gris
Valor: R$ 15,00 (cada)
* Sino dos Ventos
* Lua na Janela
* Espaços do Vazio
Valor: R$ 5,00 (cada)
* Nuvens de Sol
Valor: R$ 10,00

De Walmor Dario Santos Colmenero:

* Um Poeta na Rua
* Memórias
* Versos Vivos
* Das...
* O Homem Natural
* A Mulher Natural
* Poeminhas
* Proverbinhos
* Expressões Impressas
* Bagagens de Ontens
* Poemas Bluseiros
* Tributo Vivo
* A Multiplicação do Nada
* Um Poeta na Itália
* Um Poeta na Espanha
* Lá Fora Adentro
* Out-Real
* Pedras no Chão
* Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...
Valor: R$ 8,00 (cada)

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa - Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta - Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir, edição trimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos - Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Dario Santos Colmenero
Blog:
http://www.fanzineescritos.blogspot.com/
UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00
CONTATOS:
walmordario@ig.com.br

10.3.08


Revista Poetizando nº 28
(Edição de Outono)


Uma névoa de outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu,
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono,
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como,
Mas entre mim e ver há um grande sono,
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta

(...)

6/11/1932

FERNANDO PESSOA
in: Poesias Coligidas
__________________

AUTORES DO MÊS:

MARÇO

ANTÔNIO GONÇALVES TEIXEIRA E SOUSA,
escritor brasileiro, nasceu em Cabo Frio/RJ a 28 de março de 1812
e faleceu no Rio de Janeiro/RJ em 1º. de dezembro de 1861.
Situa-se na primeira fase do Romantismo.
Filho legítimo de um português, apenas fazia os seus primeiros
estudos quando se viu obrigado, pela precária situação econômica
da família, a abandoná-los e adotar a profissão de carpinteiro.
Por alguns anos exerceu este ofício no Rio de Janeiro,
para onde viera de Itaboraí com o fim de nele aperfeiçoar-se.
Cinco anos depois regressou à terra natal. Aos vinte anos
achou-se só no mundo, com escassíssimos bens que herdara o pai.
Senhor de si, voltou aos estudos com o mesmo antigo ardor
e o mesmo mestre, o cirurgião Inácio Cardoso da Silva,
professor régio em Cabo Frio, e também poeta, cujos versos
Teixeira e Sousa mais tarde reuniu e publicou.
Algumas obras: O Filho do Pescador (1843),
Os Três Dias de Noivado (1844).

SONETO

Vi o semblante teu, morri de gosto,
Amei-te e tu regeste a minha sorte;
Tu foste a minha estrela, e meu norte;
Que mágico poder tem o teu rosto!

Foste ingrata, mudou-se o teu composto,
Sofri da ingratidão o cruel corte,
Anelei no meu mal a torva morte;
Que mágico poder tem o desgosto!

Choras arrependida?... Ó! não, serena,
Serena o rosto teu meu doce encanto;
Que mágico poder tem tua pena!

Resistir aos teus ais... quem pode tanto?!
Que te adore outra vez amor ordena;
Que mágico poder não tem teu pranto!
_____________________________

ABRIL

PAULO GONÇALVES,
pseudônimo de FRANCISCO DE PAULA GONÇALVES,
poeta, dramaturgo e jornalista brasileiro,
nasceu em Santos/SP a 2 de abril de 1897
e faleceu na mesma cidade a 8 de abril de 1927.
Colaborou com "A Cigarra", "Novíssima", "Vida Moderna" e outras.
Foi considerado o último dramaturgo a figurar no grupo simbolista,
destacando em suas peças: a despedida, a renúncia e o abandono.
Algumas obras: Yara (versos, 1922); 1830 (comédia, 1925);
O Cofre (teatro); As mulheres não querem algumas (teatro);
A comédia do Coração (teatro); Lírica de Frei Angélico (versos).
Deixou duas obras inéditas: As núpcias de D. Juan (teatro)
e Quando as fogueiras se apagam (teatro).

OS INCOMPREENDIDOS

Ó solitários príncipes de lenda,
Dolorosos irmãos de Antonio Nobre,
Tristes no manto de ouro, que vos cobre,
Sem ter um coração que vos entenda!

Em vossas almas, que ninguém desvenda,
Um sino plange em funerário dobre:
Wilde, humilhado; Cruz e Souza, pobre;
Quental, sem luz; Rudel, sem Melisenda...

Bendito vosso trágico destino!
Através da Beleza, ó torturados,
Vosso infortúnio se tornou divino!

Se tivestes assomos de revolta,
Não fostes mais do que anjos exilados,
Chorando, em desespero, pela volta!
____________________________

MAIO

RONALD DE CARVALHO, poeta e crítico literário,
nasceu no Rio de Janeiro/RJ em 16 de maio de 1893
e faleceu na mesma cidade em 15 de fevereiro de 1935.
Formou-se em Direito, estudou Filosofia e Sociologia.
Seguiu a carreira diplomática e trabalhou como jornalista.
Como autor, aderiu à vanguarda modernista portuguesa.
Participou da Semana de Arte Moderna,
sendo membro da Academia Brasileira de Letras.
Algumas obras: Luz Gloriosa (1913), Poemas e Sonetos (1919),
Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922), Toda a América (1926).

A UM ADOLESCENTE

Faze do instante que passa
Toda a tua inspiração;
Que o mundo cheio de graça
Caberá na tua mão!

Sê sóbrio: com um copo de água,
Um fruto, e um pouco de pão,
Nem sombra de leve mágoa
Cortará teu coração...

Ama a rude terra virgem,
Com todo o teu rude amor;
Pois colherás, na vertigem
De cada sonho, uma flor.

Sofre em silêncio, sozinho,
Porque os sofrimentos são
O mais saboroso vinho
Para a sombra e a solidão...

E quando, um dia, o cansaço
Descer ao teu coração,
Une à terra o peito lasso,
E morre beijando o chão.

in: Ronald de Carvalho; poesia e prosa
_____________________________

LIRA

Inspiração poética de cunho recitativo,
de alto teor melancólico e sentimental.
Grandes poetas usaram a forma da lira, entre eles, Fagundes Varela.

LIRA

Quando me volves teus formosos olhos,
Meigos, banhados de celeste encanto,
Rasgo uma folha da carteira, e a lápis
Escrevo um canto.

Quando nos lábios do rubim mais puro
Mostras-me um riso sedutor, faceto,
Encomendo minh’alma às nove musas,
Faço um soneto.

Quando ao passeio, no mover das roupas,
Deixas de leve ver teu pé divino,
Sinto as artérias palpitarem túmidas,
Componho um hino.

Quando no marmor das espáduas belas,
As negras tranças a tremer sacodes,
Ébrio de amor, sorvendo seus perfumes,
Rimo dez odes.

Quando à noitinha me falando a medo
Elevas-me do céu à luz suprema,
Esqueço-me do mundo e de mim mesmo,
Gero um poema.

FAGUNDES VARELA
in: Cantos do Ermo e da Cidade
________________________

LETRAS

CONVERSA DE BOTEQUIM

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
uma boa média que não seja requentada
um pão bem quente com manteiga à beça
um guardanapo e um copo d’água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
vá perguntar ao seu freguês do lado
qual foi o resultado do futebol.

Se você ficar limpando a mesa
não me levanto nem pago a despesa
vá pedir ao seu patrão
uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão.
Não se esqueça de me dar palito
e um cigarro pra espantar mosquito.
Vá dizer ao charuteiro
que me empreste uma revista, um cinzeiro e um isqueiro.

Telefone ao menos uma vez
para 34-4333
e ordene ao seu Osório
que me mande um guarda-chuva aqui pro nosso escritório.
Seu garçom me empreste algum dinheiro
que eu deixei o meu com o bicheiro.
Vá dizer ao seu gerente
que pendure esta despesa no cabide ali em frente...

NOEL ROSA

NOEL DE MEDEIROS ROSA, compositor brasileiro,
nasceu no Rio de Janeiro/RJ a 11 de dezembro de 1910
e faleceu na mesma cidade a 4 de maio de 1937.
Freqüentou o círculo boêmio dos compositores cariocas.
Letrista de grande originalidade destacou-se
pela combinação de lirismo e humor, marcado pela simplicidade.
Algumas músicas: Último Desejo, Três Apitos.
__________________________________

HERMANOS

TABARÉ (Fragmento)

Introducción

I

Levantaré la losa de una tumba;
e, internándome en ella,
encenderé en el fondo el pensamiento,
que alumbrará la sociedad inmensa.

Dadme una lira y vamos: la de hierro,
la más pesada y negra;
ésa, la de apoyarse en las rodillas,
y sostenerse con la mano trémula,

Mientras la azota el viento temeroso
que silba en las tormentas,
y, al golpe del granizo restallando,
sus acordes difunde en las tinieblas;

La de cantar, sentado entre las ruinas,
como el ave agorera;
la que, arrojada al fondo del abismo,
del fondo del abismo nos contesta.

Al desgranarse las potentes notas
de sus heridas cuerdas,
despertarán los ecos que han dormido
sueño de siglos en la oscura huesa;

Y formarán la estrofa que reve-le
que la muerte, piensa:
resurrección de voces extinguidas,
extraño acorde que en mi mente suene.

JUAN ZORRILLA DE SAN MARTÍN
Uruguai
in: Obras Completas
________________

MULHER

Estrela do nosso mar, clara e segura,
que o Sol do Paraíso na Terra ornaste
com o mortal manto sagrado, cobriste
com o teu véu virginal sua pura luz;
quem vê o grande milagre não mais liga para
o mundo vil, e desdenha os vãos e ímpios contrastes
do exército antigo, pois que armaste com o escudo
invencível da alta virtude a nossa natureza.
Nutriste o Filho de Deus no seio
de uma virgem mãe, e a partir de agora
ele brilha com a veste humana no Céu;
onde lá em cima sempre domina sereno,
e acende o vivo zelo do beato,
e do fiel servo, aqui, a cara esperança.

VITTORIA COLONNA

VITTORIA COLONNA, poetisa italiana,
nasceu em Marino, Roma, em 1490
e faleceu em Roma a 25 de fevereiro de 1547.
Identificou-se com o petrarquismo
(linguagem de Petrarca -
comum em quase todos os líricos do Cinquecento).
Escreveu poemas de inspiração mística
e o neoplatonismo vigente na época.
Foi muito admirada por Miguel Ângelo,
seu grande amigo espiritual, assim como outros poetas do seu tempo.
__________________________________________________

POETAS PORTUGUESES

O VISIONÁRIO OU SOM E COR

1

Eu tenho ouvido as sinfonias das plantas.

Eu sou um visionário, um sábio apedrejado,
passo a vida a fazer e a desfazer quimeras,
enquanto o mar produz o monstro azulejado
e Deus, em cima, faz as verdes primaveras.

Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
e erro como estrangeiro ou homem doutras eras,
talvez por um contrato irónico lavrado
que fiz e já não sei noutras subtis esferas.

A espada da Teoria, o austero Pensamento,
não mataram em mim o antigo sentimento,
embriagam-me o Sol e os cânticos do dia...

E obedecendo ainda a meus velhos amores,
procuro em toda a parte a música das cores,
– e nas tintas da flor achei a Melodia.

GOMES LEAL
in: Claridades do Sul
________________

ERÓTICA

SEIO DE VIRGEM
(fragmento)

(. . .)

O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
É o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios?

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter. . .
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

(. . .)

ÁLVARES DE AZEVEDO
in: Lira dos Vinte Anos
__________________

FOLK-LORE

DITADO POPULAR:
Dizeres ou sentenças breves, geralmente de conteúdo moral,
que nascem da experiência do homem em contato com o mundo
que o cerca.

Exemplos:

- Em casa de enforcado não se fala em corda.
- Quem não tem cão caça com gato.
- Macaco velho não bota a mão em cumbuca.
- Quem senta na garupa não pega na rédea.
- Pior cego é o que não quer ver.
- As aparências enganam.
- Em pé de pobre, todo sapato serve.
- Em terra de cego, quem tem olho é rei.
- Quem diz o que quer ouve o que não quer.
- Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento.
- Gaiola bonita não alimenta canário.
- Quem compra o que não pode acaba vendendo o que não quer.
- Em boca fechada não entra mosca.
____________________________

LENDAS INDÍGENAS

A LENDA DO ABAREBEBÊ

Em Peruíbe, cidade do Litoral Sul,
existe uma lenda sobre o Abarebebê (ou Abaré-Bebê).
Essa é uma palavra indígena e significa padre-voador.
Foi dada ao jesuíta Leonardo Nunes, porque ele andava
muito depressa, subindo e descendo a Serra do Mar.
O jesuíta morava num convento, que ficava ao sul
da praia de Itanhaém, na divisa com Peruíbe.
Ainda hoje existem as ruínas, conhecidas pelo apelido do religioso,
Abarebebê. Não há quem, naquela região, não conheça esse local
e não saiba da lenda que o envolve.
O povo conta que os jesuítas enterraram tesouro no Abarebebê
e que, uma vez por ano, na data da morte do padre-voador,
as ruínas do convento ficavam iluminadas.
A história, contada de uma geração a outra,
chama-se o milagre das luzes.
Na realidade, existe uma explicação:
provavelmente quando começa o verão,
os vaga-lumes (o certo é pirilampos) chegam aos montes
e parecem iluminar as ruínas.
Dizem os mais antigos que, nessas noites,
via-se o convento com suas paredes erguidas
e até o jesuíta no altar rezando missa.
____________________________

FÁBULA

A RAPOSA E O GALO
(Fábula de Airão/Portugal)

Uma raposa viu um galo pousado em cima de um palheiro,
e não podendo agarrá-lo começou a falar-lhe cá de baixo:
– Ó galo, tu não sabes? Veio agora uma ordem para todos
os animais serem amigos uns dos outros.
Nós cá as raposas já não temos guerra com os cães,
estamos amigos; e tu podes-te descer cá para baixo,
que eu já te não faço mal.
Estava nisto, quando vem uma matilha de cães,
e farejando a raposa, botam-se atrás dela.
A raposa ia sendo agarrada, mas fugiu o mais que podia.
O galo de cima do palheiro gritava-lhe:
– Mostra-lhe a ordem! Mostra-lhe a ordem!
A raposa, ainda de longe, lhe respondia:
– Não tenho vagar! Não tenho vagar.
E fugia por entre uns tremoçais, que já estavam secos,
que faziam uma grande bulha, e ela dizia:
– Ai, que rica festa! E logo hoje, que vou com tanta pressa.
___________________________________________

NOVOS

GALOS

para Adriano Eysen

De cor argêntea e brilhante
dois galos imóveis respiram
(talvez o tempo)
talvez antigos olhares.

Em silêncio de ferro e angústia
suas asas se curvam sobre mim
- resquícios do menino
habitante desta Casa.

CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
_________________

ARTÍSTICO

É MUITO DE COR
MEU GIRASSOL
SÍNTESE DO EXPLENDOR
AMARELO RELUZENTE
COR DE OURO

VAN GOGH PRESENTE

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
________________

O AMOR

Não é o amor os relâmpagos,
as cataratas do poeta.
Amor é coisa mais íntima
e mais discreta.

Nem é o amor as delícias
sem fel que pinta o poeta.
Amor é coisa mais áspera
e mais completa.

O amor é uma luta do eu
contra si mesmo.
(Sendo o outro o vencedor.)

Amor é quando o Universo,
sem reduzir-se,
que tem noites cabe no cálix da flor.

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
_____________________

INSÔNIA

inventei tantos mundos
e abri tantas portas
em minha insônia
que não encontro o caminho
para voltar pra dentro de mim

ADEMIR ANTONIO BACCA
Bento Gonçalves/RS
in: Plano de Vôo
_____________

DERRADEIROS PÓS

Época de ouro
de instantâneo ouro em pó
de competição e mesquinharia
Teu caso é insolúvel
Teu ocaso inevitável
Junta todas as quinquilharias
põe no museu tua mobília
Olha para os teus
pede perdão
e dize adeus

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
________________________

SAUDADES DE SANTOS

Em ti, sinto saudades tua.
Saudades de tuas casas baixas,
Dos corsos e carnavais de salão.
Saudades dos coqueiros, em filas sem fim...

Sinto falta dos amigos que (e)migraram,
Da poesia do comércio, do amor dos estrangeiros,
Do dramaturgo perdido na noite suja
E da fonte que corria levando a flor...

Saudades dos teus quilombos
Da tua força portuária,
Dos cobradores nos ônibus,
Da tua História de lutas.

Mas ainda temos teus jardins.
Horto, Orquidário. Olhar Caiçara.
Postos de salvação. De salvamento.
E a esperança que renasce com o teu cheiro de mar...

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
__________

NOITE

A noite é uma imenso cais
de cabeça para baixo
onde nada tem superfície
e tudo é profundo
onde as amarras dos navios
são presas a âncoras flutuantes
que levitam no espaço
à espera de guindastes de silêncio
sem tempo de atracação.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Eminércia
____________

LIBERDADE

Ai quem me dera
o sol chegar
e me pegar
na cama ainda.
Não dar ouvidos
ao despertador
a hora larga
coreografar
no espreguiçar
pra fora toda a carga.
Não dar café
não dar almoço
nem jantar
e a louça grande
a me espiar na pia
e o tanque cheio
quase a transbordar
fosse miragem
eu bem queria...
Ai quem me dera
ao menos por um dia
uma varinha de condão
mesmo com poucos dons
ou uma lâmpada que
não sendo de Aladim
me permitisse ao menos
o tapete voador
E se difícil tudo isso fosse
e nem sapatos de Cinderela houvesse
ao menos hoje, eu pudesse vadiar,
e a lição do Pedro de Moraes
mandar sem medo para os ares.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
_________

PROPICIATÓRIA

Caminha bem mansinho a madrugada,
foi-se a última nota da seresta,
poesia do silêncio é o que resta
ao espírito da noite estrelada.

Doce aroma evolando da florada,
que vem chegando a primavera atesta,
mesmo silente a natureza é festa
que explodirá divinal, na alvorada.

Mas, na alma do poeta o amor verseja,
com a lamúria que a solidão enseja,
em tanta beleza e suavidade.

Lá no céu, uma fatia de lua
jogando seus dengos de luz na rua,
clareia ainda mais esta saudade!

FERNANDO VASCONCELOS
Ponta Grossa/PR
______________

MORMAÇO

Lá fora
mormaço
cá dentro
o aço
das verdades
não sentidas.
Desejos e sobras
samba
letárgico.
Esperança de brisa
brasa
brahma
asfaltando a manhã
adormecida.
(a vida)

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: A Travessia dos Espelhos
______________________

IMAGEM

Esse rio que corre dentro
guarda
nossos corpos na aquática memória
sobre a pedra ao
sol da tarde
ainda quentes
: juntos.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
__________________

SONETO CASEIRO

Poema é como um plágio involuntário,
evoca alguma coisa que já foi dita
sem ter na consciência que repita
chavões tradicionais do adagiário.

Se digo que sou falso plagiário,
ninguém na panelinha me acredita.
Mas, se parafraseio alguma cita,
daquilo já me julgam proprietário.

Idéia não tem dono, só inquilino.
Se existe estelionato do intelecto,
na lei do inquilinato me vacino.

Já residi num prédio de concreto.
Morei também num mote fescenino,
mas hoje não motejo, só soneto.

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
____________________________

LIÇÕES DE CASA

- Meus irmãos, o que é destino?

Somos passageiros no trem da vida
no mesmo barco em rios diferentes

O destino é uma estação perdida
não temos guia mas vamos em frente

Por isso sempre canto no banheiro

A melhor festa não manda convite

Só na memória o tempo é prisioneiro

e o futuro sempre é o seguinte

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
____________________

SONETO DO AMOR MAIOR

Se o amor que eu persigo
não mais está ao meu alcance
e vejo que não há mais chance
de tê-lo junto comigo

eu choro lágrimas de sal
ao meu próprio desalento
e curto este vil momento
de angústia tão fatal

e pergunto a mim mesmo
qual será o meu fim...
e vou caminhando a esmo

numa estrada sem lembranças
buscando uma mínima esperança
de ter você junto a mim.

MARCELO LOPES
Guarujá/SP
___________

E SE O RISO

e se o riso sobe e se o sonho sua
sobre a tela ponho o esboço que faço
de te ver tão bela, de te ter tão nua
que sobre a imagem o teu cheiro ameaço.

e se pronta te dás quando na cama me cercas
e se na pele te velejo numa brisa tão pura
nos instantes que encontro, não deixo que percas
na forma dos mamilos a cor desta loucura.

e se queres que te aprenda quando vês que te vejo
e se exulto arfando à força de te amar
e se de noite te acendo e na penumbra te beijo
é no teu mar de desejo que me quero afogar.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
_____________

Chamem de amor a espera tola
O peito aflito, a noite cega
Chamem de amor o que não acaba,
O riso nervoso, o olhar perdido.

Chamem de amor a perna trêmula,
A mão que afaga, a vã procura,
Chamem de amor a mente confusa,
A boca seca, calor e fúria.

Chamem de amor o desejo, a busca,
O sono que nunca chega, o cansaço,
Chamem de amor tudo o que é profundo,
E o infinito, e vasto, e o raso.

Chamem de amor a lágrima insana,
Toda ternura e todo desespero,
O que já foi e o que ainda vai ser,
Chamem de amor tudo o que foi vida,

E sonho, e eterno, e a alegria infinita.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
_________________

POEIRA DOURADA

O menininho estava atrás da porta
e procurava pegar
a réstia de luz empoeirada.
Duas borboletas maiores
talvez ficassem cansadas
de bater inutilmente as asas.
Mas aquelas, não.
Porque o menininho era teimoso
e gostava de brincar com o infinito.

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
_________________

À LA NERUDA

Apesar da distância,
Ainda que ela dure para sempre,
Serei eternamente tua,
Prisioneira da nossa intimidade.

Pessoas mudam.
És outro, sou outra,
Mas pela vida seremos nós,
Nós apertados.

Do fundo das lembranças
Me falam tuas mãos,
As luvas grossas impedindo o toque.
Me falam teus olhos,
Que nem precisam me olhar.
E tua alegria,
Que é sempre um presente.

Temos uma história.
Somos uma história.
O tempo, nesse caso,
Corre de maneira diferente:
Valem somente os dias em que nos falamos.
Os outros são apenas formas de sobreviver.

MADÔ MARTINS
Santos/SP
in: Doce Destino
_____________

NOITE

Noctâmbula, noctívaga, noturna,
que sei eu o que sou? Gosto da noite
e por ela vagueio dentro e fora
de mim e nela adentro.

A noite oculta os sonhos
dos cônjuges no leito conjugal.
(Que mais podemos ocultar, que os sonhos?)
Escondo-me, na noite, de mim mesma:
vejo a outra que sou fora de mim
sem pés no chão, sem estômago, sem
o mínimo de senso e mesmo assim
ambígua.

Pela noite caminho o universo, caminho
o destino de ser
o que sou e não sou.
A noite é ponto
de chegada e partida do mistério
da luz: a noite é ponto
de pergunta: onde? O que é? quando? quem sabe?

Gosto da noite. A noite
não tem espelhos
nem respostas.

MARIA BRAGA HORTA
(1913 – 1980)
Brasília/DF
in: Geografia Poética do Distrito Federal
Thesaurus
_________

viver é estar à janela debruçada
numa tarde ociosa de domingo
diante da rua silenciosa
do ar parado e da ausência ou não
de risos, gestos, vozes
da mulher que passeia com seu cão
alguns carros riscando o chão
e uma canção de ontem na vitrola
dando outro tom ao que seria apenas paisagem
ao que seria apenas aqui e agora

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Aurora Gris
____________

DUNAS I

Será que sou o que sou,
a imagem no espelho refletida?
Que caminho sigo, que caminho vou,
a minha ânsia dividida?

Sou a canção do povo secular,
amargamente cantada em acalantos,
que um dia o povo irá cantar
em todos os becos, todos os cantos.

Basta! Quero o prazer de viver,
não tenho o amargor a me esperar,
não tenho a morte a me espreitar.

Chega! Da procura insaciável,
da louca visão de se querer
o poema pronto, inenarrável.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_____________

PULSAR

Sou parte
do Universo
sem fim
e
sinto em mim
o pulsar
de milhões de estrelas
que já
não existem mais.
No entanto,
seu eco
permanece
em minhas células
que se reproduzem
qual libélulas
espalhadas
em meu corpo.
A pulsar.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
__________

ANÔNIMO POETA

Bem-vindo, poeta anônimo!
O vento imorredouro do passado traz teus versos
Em ecos que despertam sentimentos.
A música terna que parecia esquecida,
Distorcida pelo tempo, volta a vibrar as cordas
Das liras em delírio.
Tuas palavras, azuis borboletas do espaço,
Em um raio laser vencem "seculus seculorum"
Vêm pousar em ouvidos embevecidos
Teu recado, até então desconhecido...
Sem conhecer tua vida nem teu nome
Compartilhamos os mesmos sentimentos,
Somos amigos no presente do momento
Em que não te vejo, nem sabes de mim,
Mas ouço pelas palavras que escreveste
Tua voz vinda de uma vida dissipada.
E ela renasce fresca e serena
E te sinto reviver dentro de mim...
Jamais sonhaste com minha existência,
Te foste muito antes,
Mas depois que partiste é que te escuto forte
Vencendo a própria morte.
O tempo não existe, poeta anônimo,
Para almas iguais que se completam.
Essa benção que finalmente
Faz o arqueiro atingir o alvo certeiro...
Agora, eu e teus versos das trevas somos um.
Com eles arrancaste as travas da eternidade,
Abriste as comportas de um coração solitário
Que se encheu de luz ao ouvir o canto longínquo
De um pássaro-canário...
Poeta sem nome, obrigada por me achar com teu poema.
Se pudéssemos decifrar este dilema
Veríamos que tua dor é a dor que me arrefece,
Teu amor é igual ao que me aquece...
Mas, quem és tu, afinal, que roubaste meu sentimento
Antes mesmo de eu nascer para inventá-lo?
Como conheceste o divino êxtase de um amor
Quando eu nem mesmo existia?
Ao ler o papel amarelado sinto-me teu clone
Trazido a este mundo por um tempestuoso ciclone...
Eu sou a cópia moderna mas esboço
De um quadro autêntico que ficou no fundo de um poço...

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
_________

POESIA SOCIAL

Vocês não sabem: tem gente que escreve cartas
e poemas em folhas de papel de pão, em envelopes usados,
virados pelo avesso; cartas sociais, que custam 1 centavo,
porque não têm dinheiro para despesas postais.
Tem gente neste país que come poesia com farinha...
Gente que, muitas vezes, nem têm farinha...
mas não dispensa a poesia. É como o feijão e o sonho.
E tem gente que se acha. E muita gente perdida.
Uns dizem que "os poemas após publicados não pedem permissão,
caminham sozinhos, como letras-pássaros-maduros".
Outros esbravejam por direitos autorais e saem por aí atirando
pedras nas vidraças erradas. Tudo bem, se foi uma grande empresa
que usou um texto para fins evidentemente comerciais;
mas se foi um modesto zineiro ou uma revista artesanal
que luta a duras penas para manter acesa a chama da poesia...
Saibamos considerar as devidas proporções!...
Vocês sabem que tem gente que escreve poemas
em pequenos pedaços de papel e os larga por aí, nos pontos,
nos bancos dos ônibus, nas praças, nas igrejas,
nas caixas de correio dos vizinhos, nos quadros de avisos das empresas?
Tem quem plastifique os poemas
e os cole no portão da própria casa. Outros, os deixam em sachês
"esquecidos" pelos teatros, bares, cinemas.
Há ainda os que os lançam ao mar, dentro de garrafas,
de um barco chamado Sonho...
E sabem para quê? Para que a poesia comece a ser lida na areia,
na água, no outro... Uns lançam versos ao vento,
outros em suntuosos coquetéis regados a vinho francês.
Vocês sabem que tem gente que foi marginal
e hoje se envergonha desse passado poético?
Existe quem só fale de si mesmo. E quem sabe ouvir.
É isto: existem uns e outros e cada qual navega na barca
que lhe convier. Estamos na nossa e venha o que vier,
mas que venha com amor, respeito e dignidade porque,
vocês sabem, AINDA EXISTE GENTE neste nosso país...

DACHA
Santos/SP
_________

DICAS DE LEITURA

AGOSTINA SASAOKA: www.gargantadaserpente.com
GLAUCO MATTOSO: www.sites.uol.com.br-glaucomattoso
AMARALVIEIRA: www.amaralvieira.com
RICARDO MAINIERI: www.mainieri.blogspot.com
RICARDO ALFAYA: www.alfayaliteratura.blogspot.com
REVISTA POÉTICA: www.revistapoetizando2.blogspot.com
SERGIO ANTUNES: www.sergioantunes.art.br
SILVIO CAMPOS: www.teiacultural.blogspot.com
LEANDRO LUIZ RODRIGUES: www.mandandobrasa.blogspot.com
ESCRITOS: www.fanzineescritos.blogspot.com
RENATO SUTTANA: www.arquivors.com
JORNAL DE POESIA: www.secrel.com.br/jpoesia
CARLOS MACHADO: www.algumapoesia.com.br
REVISTA CRITÉRIO: www.revista.criterio.nom.br
MARCELO DOLABELA DE AMORIM:
http://fotolog.terra.com.br/khneira
http://khneirazine.nafoto.net
http://khneirazine.zip.neth
ttp://khneira.blogspot.com

DENISE TEIXEIRA VIANA: www.deniseteixeiraviana.com
VALÉRIA EIK: www.conexaomaringa.com
_________________________________________________

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto, Estilos de Época
e muita poesia...
UNIDADE: R$ 8,00
VIA CORREIO: R$ 10,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00

CONTATO: walmordario@ig.com.br
_______________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

Flores e Frutos
Sonhares
Aurora Gris
Valor: R$ 15,00 (cada)

Sino dos Ventos
Lua na Janela
Espaços do Vazio
Valor: R$ 5,00 (cada)

Nuvens de Sol
Valor: R$ 10,00

De Walmor Dario Santos Colmenero:

Um Poeta na Rua
Memórias
Versos Vivos
Das...
O Homem Natural
A Mulher Natural
Poeminhas
Proverbinhos
Expressões Impressas
Bagagens de Ontens
Poemas Bluseiros
Tributo Vivo
A Multiplicação do Nada
Um Poeta na Itália
Um Poeta na Espanha
Lá Fora Adentro
Out-Real
Pedras no Chão
Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...
Valor: R$ 7,00 (cada)

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir,edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir,edição trimestral.
Editor: Walmor Colmenero

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos
- Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Colmenero
Blog: www.fanzineescritos.blogspot.com

UNIDADE: R$ 2,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00

CONTATOS: walmordario@ig.com.br

15.12.07

Revista Poetizando nº 27 (Edição de Verão)

No entardecer dos dias de verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão.
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir...

7/5/1914

ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA)
in: Ficções do Interlúdio
____________________

A
UTORES DO MÊS:

DEZEMBRO

SEVERINO PERYLLO DOLIVEIRA,
poeta, ator e artista plástico brasileiro,
nasceu em 4 de dezembro de 1898
na antiga povoação de Cacimba de Dentro,
município de Araruna/PB
e faleceu em 26 de agosto de 1930 em João Pessoa/PB.
Trabalhou em várias companhias artísticas do Nordeste.
Foi um dos iniciantes do movimento literário modernista na Paraíba,
publicando seus primeiros versos na revista Era Nova,
famosa por ter vários escritores consagrados.
Algumas obras: Canções que a Vida me Ensinou (1925),
Caminhos Cheios de Sol (1928), A Voz da Terra (1929).

ESCUDO

Perante olhos estranhos não desnudes
a tua alma – se tens uma alma honesta –
nem pagues com submissas atitudes
os louros que o teu mérito requesta.

Aos que te exalçam gestos e virtudes
louvando a tua vida assaz modesta,
ri, apenas, fazendo que te iludes
e ocultando-lhes tudo o que te resta.

Se a Glória te coroar a fronte insigne
deixa que a turba, em frêmitos, se digne
de te aclamar, porém nunca te esqueças

que, se o ideal por que triunfas for previsto,
esse enorme dragão de mil cabeças
pode fazer de ti um novo Cristo.
________________________

JANEIRO

EUCLIDES RODRIGUES PIMENTA DA CUNHA,
escritor brasileiro,
nasceu em Cantagalo/RJ a 20 de janeiro de 1866
e faleceu no Rio de Janeiro a 15 de agosto de 1909.
Cursou a Escola Politécnica e a Militar,
recebendo influência positivista.
Depois de grave incidente disciplinar foi preso e depois expulso.
Livre, resolveu dedicar-se aos estudos brasileiros,
trocando a carreira militar pela engenharia civil e pelo jornalismo.
Foi colaborador de O Estado de S. Paulo,
através do qual foi correspondente em Canudos/BA.
O assunto das cartas enviadas dali foi fonte de que se valeu,
entre 1898 e 1901, para escrever Os Sertões, sua obra-prima.
Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras
e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Foi assassinado em crime passional.
Algumas Obras: Os Sertões (1902),
Contrastes e Confrontos (1907), Perus versus Bolívia (1907),
Castro Alves e seu Tempo (1907),
À Margem da História (1909 – obra póstuma).

ONDAS

Correi, rolai, correi - ondas sonoras
Que à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim - trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai - que, audaz, por entre a treva
Do desânimo atroz - enorme e densa -
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma senda de luz que diz-se - Crença!
Ide pois - não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
- Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai - às plagas do Porvir!

[1883]

in: Ondas e outros poemas esparsos
____________________________

FEVEREIRO

VICTOR-MARIE HUGO, escritor francês,
nasceu em Besançon a 26 de fevereiro de 1802
e faleceu em Paris a 22 de maio de 1885.
Poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e orador.
Exerceu grande influência nos escritores ocidentais
especialmente os românticos. Entre seus seguidores,
no Brasil, destaca-se Castro Alves. À partir de 1822 teve extensa
atividade literária tanto como poeta quanto prosador.
Durante sessenta anos de atividade literária
é considerado como o maior da França
e apontado como um dos grandes escritores de todos os tempos.
Foi admirado por Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé.
Desfrutou em vida enorme conceito nacional e internacional.
Seu prestígio decorre de sua vertiginosa riqueza verbal.
Seus romances são uma espécie de poemas épicos em prosa.
Foi um grande orador. Em 1841 é eleito para a Academia Francesa.
Algumas Obras: Odes e Poesias Diversas (1822), Novas Odes (1824),
Cromwell (1827), Marion Delorme (1829), As Orientais (1829),
O Último Dia de um Condenado (1829), Folhas de Outono (1831),
Notre Dame de Paris (1831), O Rei se Diverte (1832),
Lucrécia Borgia (1833), Maria Tudor (1833),
Cantos do Crepúsculo (1835), Vozes Interiores (1837), Ruy Blas (1838),
Luzes e Sombras (1840), Os Castigos (1853), As Contemplações (1856),
Lenda dos Séculos (1859).

CANÇÃO (fragmento)

Mulher, quando em meus braços
Te escuto uma canção,
Não vês nos meus abraços
Profunda comoção?
É que o teu canto à mente
Me traz vida melhor...
Ah!
Cantai continuamente,
Cantai, ó meu amor!

(...)

Tradução: João de Deus
___________________

SERENATA

Composição poética, própria para o canto noturno.
Alguns autores: Catulle Mendés.

SERENATA

A madrugada ria-se em festim,
Tu me chamaste: "vem", e logo vim,
Mais tarde um pouco, "canta" me disseste,
E eu cantei tua graça, alma terrestre.
Mas veio a noite (Ó noite em que me vi!)
Tu me mandaste, "parte" e não parti.

CATULLE MENDÉS
Tradução: Augusto de Lima

CATULLE MENDÉS, poeta, dramaturgo, contista,
romancista e historiador francês,
nasceu em Bordéus em 1841
e faleceu perto de Saint-Germain-en-Laye em 1909.
Fundador da Revista Fantasista, que anunciou o Parnasianismo.
Romântico, sua obra apóia-se num erotismo torturado.
Foi condenado a um mês de prisão e uma multa de 500 francos,
por uma obra considerada imoral.
Teve morte trágica: o seu corpo foi encontrado no túnel ferroviário
de Saint-Germain, a 9 de fevereiro de 1909.
Algumas Obras: A Lenda do Parnaso Contemporâneo (1884),
As Loucuras Amorosas (1877), A Vida e a Morte de um Palhaço (1879),
O Rei Virgem (1881), As Poesias de Catulle Mendés (1892),
Contos Épicos e várias peças teatrais em versos.
____________________________________

LETRAS

GOSTO QUE ME ENROSCO

Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado!
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
Desprezam um homem
Só por causa da orgia!

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer!

Dizem que a mulher é parte fraca...
Nisto é que eu não posso acreditar
Entre beijos, e abraços e carinhos...
O homem não tendo
É bem capaz de roubar

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer!

SINHÔ

JOSÉ BARBOSA DA SILVA, mais conhecido como Sinhô,
compositor brasileiro,
nasceu no Rio de Janeiro a 8 de setembro de 1888
e faleceu na mesma cidade a 4 de agosto de 1930.
Foi chamado como "rei do Samba".
Algumas músicas: Pé de Anjo e Fala, meu Louro.
_____________________________________

HERMANOS

PROSIGUE EN EL MISMO ESTADO DE SUS AFECTOS

Amor me ocupa el seso y los sentidos;
absorto estoy en éxtasi amoroso;
no me concede tregua ni reposo
esta guerra civil de los nacidos.

Explayóse el raudal de mis gemidos
por el grande distrito y doloroso
del corazón, en su penar dichoso,
y mis memorias anegó en olvidos.

Todo soy ruinas, todo soy destrozos,
escándalo funesto a los amantes,
que fabrican de lástimas sus gozos.

Los que han de ser, y los que fueron antes,
estudien su salud en mis sollozos,
y envidien mi dolor, si son constantes.

QUEVEDO

FRANCISCO DE QUEVEDO Y VILLEGAS, poeta e prosador espanhol,
nasceu em Madrid a 17 de setembro de 1580
e faleceu em Villanueva de los Infantes a 8 de setembro de 1645.
Poeta lírico profundo e satírico. Deixou vasta produção poética.
Também extensa e diversificada é sua obra em prosa.
Escreveu numerosos textos políticos.
Algumas Obras: Os Sonhos,
História da Vida do Buscón, chamado don Pablos,
exemplo de vagabundos, e espelho de velhacos.
_____________________________________

MULHER

A PENA E O TINTEIRO

Uma pena presumida
de escrever grandes sentenças,
falava das suas obras,
tão sublimes como extensas.

- "Sem mim, disse ela ao tinteiro,
pouca figura farias:
cheio de um licor imundo,
sem mim, triste, que farias?"

O tinteiro injuriado
vazou toda a tinta fora,
e voltou-se para a pena
dizendo-lhe: "Escreva agora."

MARQUESA D’ALORNA

MARQUESA D’ALORNA,
pseudônimo usado por D. Leonor de Almeida e Lencastre,
poetisa portuguesa,
nasceu a 31 de outubro de 1750 em Lisboa,
onde faleceu a 11 de outubro de 1839.
Até os 18 anos viveu em convento,
por determinação do marquês de Pombal,
enquanto o seu pai cumpria pena.
Na clausura estudou ciências naturais, filosofia, literatura,
latim e francês. Tradutora e introdutora em Portugal
dos poetas românticos ingleses e alemães.
Seu outro pseudônimo era Alcipe.
Foi considerada "perigosa" pela polícia.
Seu estilo é neoclássico/pré-romântico. Exprime as "almas sensíveis",
a melancolia e a liberdade.
Obra: Obras Completas (1844 – 6 volumes)
__________________________________

POETAS PORTUGUESES

NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto,
- Dorme teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

ANTERO DE QUENTAL
in: Os Sonetos Completos

ANTERO TARQÜINIO DE QUENTAL
(Ponta Delgada, Açores – 1842/1893).
Foi considerada a personalidade moral
e intelectual mais completa de sua geração.
Místico, religioso, heróico, viril, social, combativo, político, filosófico.
Um dos pontos altos da poesia reflexiva em Portugal,
um porta-voz de todos os escritores portugueses.
Foi influenciado por Hegel, Proudhon, Victor Hugo, Michelet, Quinet.
Algumas Obras: Odes Modernas (1865),
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares (1871),
Primaveras Românticas (1872), Sonetos (1881).
____________________________________

ERÓTICA

ENCONTRO

O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim dos pelos
o lugar
caverna
doce e úmida.

ALMANDRADE
Salvador/BA

ANTÔNIO LUIZ M. MACHADO (Almandrade),
Artista Plástico, Arquiteto, Mestre em desenho urbano e Poeta.
Integrou coletivas de poemas visuais, multimeios
e projetos de instalações no Brasil e no Exterior.
Um dos criadores do Grupo de Estudos de Linguagem
da Bahia que editou a revista "Semiótica" em 1974.
Participou de várias mostras coletivas.
______________________________

FOLK-LORE

EXPRESSÕES POPULARES:

Dizeres ou sentenças breves, que nascem
da experiência do homem em contato com o mundo que o cerca.

Exemplos:

- Dar nó em pingo d’água (fazer algo muito difícil)

- Bicho-de-sete-cabeças (problema muito complicado)

- Fazer com o pé nas costas (fazer algo com facilidade)

- Deixar a peteca cair (desistir, desanimar)

- Dor-de-cotovelo (inveja ou ciúme)

- Matando cachorro a grito (estar em situação difícil)

- Mijar pra trás (desanimar, desistir)

- Ficar com a pulga atrás da orelha (ficar desconfiado)

- Pintar o sete (fazer muita bagunça)

- Maria-vai-com-as-outras (só fazer o que os outros fazem)

- Entrar pelo cano (se dar mal)

- Tomar chá de sumiço (desaparecer, ir embora)

- Tirar água do joelho (fazer xixi)

- Dar um riso amarelo (ficar sem graça)
_______________________________

LENDAS INDÍGENAS

A LENDA DA NOITE

A lenda da noite veio da região amazônica:
Ela diz que, no princípio, não havia noite, somente dia.
Os animais e todas as coisas falavam.
A filha da Cobra Grande, então casou-se com um moço que,
um dia, quis dormir. Mas a moça disse que não poderia
porque ainda não era noite.
O moço pensou que a noite não existisse e a jovem
disse-lhe que ela estava presa numa semente de tucumã,
com seus encantos e belezas.
A semente estava em poder de seu pai, a Cobra Grande.
O moço chamou seus três servos fiéis
e os mandou à casa da Cobra Grande pedir a noite.
Esta, ao entregar a semente, avisou que não abrissem a tucumã,
porque todas as coisas se perderiam.
Mas, enquanto os três voltavam, escutaram isto dentro do coco:
tem, tem, tem, tem. . . Xiii. . . Xiii. . . Quac. . . Quac. . . Quac. . .
Era o barulho dos sapinhos e dos grilos que cantavam à noite.
Eles resolveram, então, abrir a tucumã,
derretendo o breu que a fechava numa fogueira.
Imediatamente, escureceu e tudo se perdeu.
Como castigo, a Cobra Grande transformou os três em macacos,
identificados pelo povo como aqueles que vivem no Amazonas
e têm boca preta e riscos amarelos nos braços.
Esses riscos seriam o breu derretido que escorreu pelos seus braços.
___________________________________________________

FÁBULA

O SAPO E A COBRA
(Fábula africana)

Era uma vez um sapinho que encontrou um bicho comprido,
fino, brilhante e colorido deitado no caminho.
- Olá! O que você está fazendo estirada na estrada?
- Estou me esquentando aqui no sol. Sou uma cobrinha, e você?
- Um sapo. Vamos brincar?
E eles brincaram a manhã toda no mato.
- Vou ensinar você a pular.
E eles pularam a tarde toda pela estrada.
- Vou ensinar você a subir na árvore se enroscando
e deslizando pelo tronco.
E eles subiram.
Ficaram com fome e foram embora, cada um para sua casa,
prometendo se encontrar no dia seguinte.
- Obrigada por me ensinar a pular.
- Obrigado por me ensinar a subir na árvore.
Em casa, o sapinho mostrou à mãe que sabia rastejar.
- Quem ensinou isso a você?
- A cobra, minha amiga.
- Você não sabe que a família Cobra não é gente boa?
Eles têm veneno. Você está proibido de brincar com cobras.
E também de rastejar por aí. Não fica bem.
Em casa, a cobrinha mostrou à mãe que sabia pular.
- Quem ensinou isso a você?
- O sapo, meu amigo.
- Que besteira! Você não sabe que a gente nunca
se deu com a família Sapo? Da próxima vez, agarre o sapo e...
bom apetite!
E pare de pular. Nós cobras não fazemos isso.
No dia seguinte, cada um ficou em seu canto.
– Acho que não posso rastejar com você hoje.
A cobrinha olhou, lembrou do conselho da mãe e pensou:
" Se ele chegar perto, eu pulo e o devoro".
Mas lembrou-se da alegria da véspera
e dos pulos que aprendeu com o sapinho.
Suspirou e deslizou para o mato.
Daquele dia em diante, o sapinho
e a cobrinha não brincaram mais juntos.
Mas ficavam sempre ao sol,
pensando no único dia em que foram amigos.
__________________________________

NOVOS

DE ESTRADAS & ESTRADAS

as estradas que não percorri,
hoje não me cansam mais

o arrependimento
de não ter seguido por elas
cansou-me ao longo de intermináveis
noites de insônia

o que deixei de fazer,
o que não fui,
tudo o que não amei
e o que me fugiu por entre os medos,
foram fardos de frustrações
que carreguei em ombros calejados
pelas estradas que escolhi

agora,
na encruzilhada do que sou
com aquilo que queria ser
e com o que eu poderia ter sido,
chamo o garçon e peço mais uma dose:
a vida é assim mesmo,
está escrito em algum lugar:
nós nunca vamos,
é ela que nos leva ao seu bel prazer

as estradas que não percorri
foram aquelas que me cansaram mais

ADEMIR ANTONIO BACCA
Bento Gonçalves/RS
in: Plano de Vôo
______________

DULCE-COR

OS DIAS VIBRAM E BRILHAM
COM TODAS AS CORES

VENTO E CANÇÕES DAS ASAS

AS ABELHAS DANÇAM COM AS FLORES

NATUREZA – CONSÓRCIO FIEL
TRANSFORMA A BELEZA EM SEU ANEL
E RECEBE A DIVINA MENSAGEM

FAVOS GRÁVIDOS DE MEL

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
_________________

AVE MARIA

Afinal, voou.
Ela, que sempre conviveu
com santos que levitavam
e anjos habitantes das nuvens,
voou também.
Migrou da família religiosa,
dos padres que a freqüentavam,
dos beijos nas mãos obscenas,
das igrejas e roupas escuras.
Numa tarde de sol,
abriu a janela do 8º andar
e voou para a liberdade,
como um pássaro ateu.

MADÔ MARTINS
Santos/SP
in: Doce Destino
______________

RÉQUIEM PARA UM CORPO UTÓPICO

Nem luto
nem luto por esse corpo morto
objeto hipotético e suposto
posto que morto
antes mesmo de nascer
Nem monstro
nem mostro
sua face às sequiosas carpideiras
Não há disponível qualquer amostra
Mande um fax
de conta
Interpelem-se os escritos de Epicuro
Nem claro
nem obscuro
Encontrado morto ainda na relva
o incorpóreo corpo de um certo futuro

RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ
in: Rios (Coletânea de Poemas)
_______________________

VAZIO

Voam, velozes, vazios,
vagos, volúveis, os ventos.
E vai a vida voando
na vaga verde do tempo.

Ávidas aves vadias
vagam, navegam no vento.
E vão vagindo, vingando
na vaga voraz do tempo.

Alma! ai ave que vacila
na voz uivante dos ventos!
ai nave a vogar vazia
na vaga escura do tempo!

ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
______________________

LEGADO

De tudo o que foi meu, talvez me sobre
o trapo de um sorriso à flor da boca.
Ou nos meus olhos, sob a esfera oca,
o véu de sombras com que a luz se cobre.

Talvez me reste uma vontade louca
de ouvir os gritos de um tristonho dobre
vindo da torre de uma igreja pobre,
a repetir-me o quanto a vida é pouca.

Meu próprio Eu talvez me legue a mim
um gosto amargo de ilusão nos lábios
e ossos do sonho em cujo rastro eu vim.

Talvez me sobrem do meu estro em brasas
versos sem nexo e sem final... acabe-os
um par de pássaros rimando as asas.

SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ
in: Caverna dos Signos
___________________

SONETO HUMANISTA

Em tudo que é regime socialista
há pena capital e lei sumária.
Estranho é, pois, que a esquerda libertária
em defender bandidos tanto insista.

Não é direito humano. Qual a pista?
Só sabotagem, tática primária
de anarquizar a ordem, já precária,
duma democracia pluralista.

A esquerda quer aqui o que não fará
na hora em que tiver poder na mão.
Pena de morte, então, não será má.

Impunidade aqui; lá, paredão.
Dois pesos, duas medidas, lá e cá.
Assim é que se faz revolução!

GLAUCO MATTOSO
São Paulo/SP
in: Paulisséia Ilhada – Sonetos Tópicos
______________________________

SONHOS E PARDAIS

Somente de horas alegres
São feitos os dias da infância.

Florisvaldo Matos

Os pardais pousam sonhos e paisagens
no meu quintal.

Quintal solar de águas frescas,
carambolas maduras vestindo o chão,
goiabeiras vermelhas evocando desejos.

No meu quintal pousam paisagens e pardais
sonhos vindos do oriente
pergaminhos e epigramas samurais.

CLEBERTON SANTOS
Feira de Santana/BA
in: Lucidez Silenciosa
_________________

ESPERA

Mudo
o telefone
me observa
na sala escura

Sem cura
o coração
coleciona
perfumes distantes.

A mão treme
o corpo
sintoniza
pele
beijos
auroras.

Uma lágrima
desponta
nos olhos.
Madura.

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: A Travessia dos Espelhos
______________________

NORMAIS

As pessoas normais
Jogam buraco na saleta
Com gente explodindo na tela
As pessoas normais
Tomam sucos vermelhos nos copos
Sem suspeitarem jamais
De sua co-autoria As pessoas normais
Passivas, folheiam corpos
Amontoados em fios de sangue
E comem seus hambúrgueres
Recheados de mostarda e catchup
As pessoas normais
Riem do nada
Lavando suas mãos como Pilatos.
Os loucos? Ah! Os loucos!
Estão presos nos pavilhões
E nada sabem...
As pessoas normais...

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
___________

É PRECISO NO VERSO SURPREENDER...

Só com palavras não se faz poesia,
É preciso no verso surpreender,
Conversar com o mundo todo dia,
Chorar, sorrir, mas sobretudo crer.

Como faz o artesão com a gema bruta,
Fazer poesia é lapidar a vida,
Não é prazer, é sina, é cicuta
Envenenando a quem lhe dá guarida.

Poesia não se faz de imediato,
Nem é palco futuro de sucessos;
Exige muita teima, muito tato...

Esculpindo venturas e tropeços,
Ser poeta é restar no anonimato
Arrastando a alma nos degraus dos versos!...

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Antologia Poética
_________________

Do alto da noite serrana
Estou vazio e invoco meus amigos:
Responde o gemido das ondas
Da minha terra abandonada.
Ficaram todos.
Alguns sob a areia, outros sobre os bancos.
Por entre os meio-fios das ruas que desbravamos
Havia as noites frescas e os dias ensolarados.

Resta em mim o cheiro de dama-da-noite
Os prédios tristes e mudos da orla
E o toque salgado do vento.

Meus amigos preenchem-me o centro do espirito,
Pois trazem consigo o som do motor das balsas.
A fumaça do diesel, o vulto dos peixes podres,
As pedras esperançosas lançadas
Contra o oceano na noite escura.

Meus amigos arrastaram-me
À eterna condenação de ser poeta
Com seus sorrisos de bondade,
Suas mãos de infinita leveza,
Seus olhos de úmida amizade,
Que hoje tanto me faltam.

Ainda lá permanecem, eu sei.
Guardam minha distante casa,
Correndo pela mesma praia
Atrás de seus filhos e do tempo.
Mas guardam meu lugar até que eu volte
E preenchem meu peito vago de menino
Com a gratidão que eu trago inseparável
Por terem sido meus para sempre.

BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP
__________________

O AR DO MAR

o
ar
do
mar
que
me
estava
a
dar
na
cara

foi
um
ar
que
me
deu.

FERNANDO AGUIAR
Lisboa/Portugal
______________

ROTEIRO PARA MAIS UM DIA
(DE NATAL) NA CIDADE GRANDE

Amanheceu sobre a cidade
e no entanto
nada de novo aconteceu
de fato
nas mesas de uns é a mesma alegria
a vida se baseia em Coca-Cola
jeans, motocas. hot-dog e mixto-quente
e a mesa de quem vive ao avesso
é feita de crianças comendo
o pão que o diabo amassou...

Entardeceu sobre a cidade
nas praias de Copacabana
Búzios, Ipanema
biquínis enfeitam os olhos
de quem tapa o sol com a peneira
no outro extremo
crianças peladas, sobrevivem barrigudas
e solitárias...

Anoiteceu sobre a cidade
e as estrelas mais parecem enfeites no céu
visto da janela do 8º. andar do edifício de luxo
às 0:00 horas na Missa do Galo
muitos agradecem ao Senhor pela ceia nossa
de cada dia
em outras paragens
pastores aproveitam para gigolar Deus...

Mas hoje é Natal
tudo normal, nada de mal:
- Rezemos!

ROGÉRIO SALGADO
Belo Horizonte/MG
in: Exalando Cheiro de Lua Nova
__________________________

DEPOIS plantou-se feno
e nunca mais nasceu
outro berço de feno

Depois plantou-se trigo
(Quantos trigais maduros
tremem de fome e frio!)

Depois falou-se tanto
que as estrelas fugiram
e os montes se abaixaram

E nos lençóis de linho
(outrora foram linho)
outros corpos ficaram.

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto
Edições Galo Branco
__________________

ainda é quase noite e não dormi
olho lá fora e vejo uma aurora gris
quase chove e ainda não há sol
não sei se o que me sinto é ser feliz
ou se não sei se sonho ou não dormi
o que dá no mesmo se me invento
porque a verdade é também mentir
nesse dia quase ainda noite nessa aurora gris
não me importa o tanto nem o todo
tenho aqui tudo que sempre ou nunca quis

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Aurora Gris
______________

ODE

O verso estava na calçada.
O poeta não achou.
Estava escrito nele
que a vida é assim...
Um vai e vem constante
ou amor dilacerante
nos olhos de algum coração.
Estava escrito
que o amor dos mal amados,
deve sempre ser aproveitado,
deve ter a mesma ação.
Estava escrito
que alguém passou pela vida
e viveu só, em despedida,
partiu e não foi feliz;
nunca foi amado,
seu coração ficou petrificado...
Isso o verso diz...
E o poeta passou e não leu...

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Tributo Vivo
_______________

METAMORFOSES

Semi analfabeto em país de analfabetos vira professor;
Curioso em país de ignorantes vira doutor;
Bandido em país de criminosos ganha cem anos de perdão;
Política no país dos mensalões vira profissão;
Vendedora no país do consumo vira rainha;
Drogas em país sem lei é farinha;
Travesti no país da mentira vira mulher;
Espoliação em país sem governo vira imposto;
Emprego no país da informalidade vira exploração;
Favela no país do turismo sexual vira ponto turístico;
Assentamento no país do latifúndio vira invasão;
Alimentação em país de esfomeados vira plano de governo;
Esporte no país do despreparo vira comércio;
Violência no país da injustiça vira espetáculo;
Teatro no país das concessões vira shopping center;
Seção de senado em país de espectadores vira programa de auditório;
Jornalismo no país da alienação vira fuxico;
Malha ferroviária no país das transportadoras vira sucata;
Música em país sem harmonia vira batuque;
Impunidade no país do jeitinho vira imunidade;
Habitação no país dos sem teto vira sonho;
Lixo no país do desperdício vira comida;
Cesta básica em país de desempregados vira prêmio;
Férias anuais no país das terceirizações viram privilégio;
Rio em país de merda vira esgoto;
Quer mais? Leia os jornais...

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
Santos/SP
___________

LIÇÕES DE CASA

- Meu pai, o que é Deus?

Deus? É quem manda baixinho
gostar de basquete

É quem manda um dia
depois do outro e no meio
todas essas estrelas

Deus é quem faz as flores
e também põe no cemitério
a alegria dos coveiros

É quem manda existir paisagens
e essa indústria de sóis nascentes

Deus é o piloto mais experiente
com tantas rotas pra tantas viagens

Deus é quem pára a chuva
se compro guarda-chuva
e é Deus que faz chover
se o guarda-chuva esqueço

Deus é quem me ampara
e ri do meu tropeço
e umas coisas me esconde
outras diz na cara

Deus? É enfim quem faz
a vida desse jeito
sem pé nem cabeça
do começo ao fim perfeita
porque é assim

DOMINGOS PELLEGRINI
Londrina/PR
in: O Tempero do Tempo
_____________________

PONTO FINAL

Caminho pela margem esquerda
do rio da Vida...
conto, compassadamente,
os passos que dou
e vou
rumo ao mar onde deságua
a mágoa
do sou, não sou.
Conto, vagarosamente,
as pedras do caminho:
algumas deixo de lado
e carrego outras como um fardo
fruto amargo
das sementes que plantei...
E fico admirada. Nem sei
como o fiz
e qual o juiz
tão justo em sua sentença
que faz minha consciência
avaliar meu trajeto
nesse rio tão incerto
que deságua
no tranqüilo mar aberto
onde serei, afinal,
um breve ponto final.

NEIVA PAVESI
Santos/SP
___________

DESTINO

Busco sempre a poesia,
como a luz do sol
atrás do dia.

Alinhavo palavras e rimas
para tecer os meus versos
- dentro e fora de meu ser.

Minha alma se enaltece
e cada linha que traço
leva um pedaço de mim.

Pronta a composição,
recomeço a minha lida.
Afinal, sem o meu canto,
talvez nem tivesse vida.

REGINA ALONSO
Santos/SP
___________

HAICAIS

Casa mutante
caracol amanhece
feliz da vida.
***
Na mata virgem
suinã camuflada
ninguém percebeu.
***
Na serra deserta
alegre piquenique
lanches e doces.

MARIO AZEVEDO ALEXANDRE
São Vicente/SP
in: São Vicente – Pétala do Oriente
____________________________

SE DÁ PARA COMPLICAR, POR QUE SIMPLIFICAR?

Saiu do INSS aborrecida, porque o médico lhe recomendara RPG,
por causa da coluna. Perto da CPFL olhou na bolsa
e viu que trazia o RG e o CIC. Ainda bem,
pois iria ao BCN tentar receber o FGTS, para poder pagar o IPTU,
o ISS e o ICM, que estavam em atraso.
No HSBC pagaria a prestação do CDHU. Pior mesmo era essa tal de CPMF.
Que absurdo! Quem teria inventado: o FHC ou o ACM?
Bom, esqueceu o assunto e pegou um ônibus da CSTC que tinha FM,
se bem que preferia o AM da CBN,
porque assim ela saberia as novas do MST
e os comentários do PT a respeito.
Desceu em frente ao IBGE, a um quarteirão do CCBEU e,
na banca de jornais leu um artigo sobre a CPI do PC,
outro sobre a OTAN e soube o que acontecia na OEA.
Esses americanos!... No oriente outra notícia:
a OPEP aumentava o preço do combustível.
No outro jornal leu que era tempo de receber o PIS.
Iria saber direitinho sobre isso.
Leu também as decisões do BNDES à frente do dólar.
Este ano o PIB estava lá em cima. Que bom!
Atravessou a rua para comprar um CD e um DVD do KLB.
"Puxa vida! Esses meninos cantam super bem".
Nisso foi atropelada por um BMW. Chamaram um PM que fez um B.O.
(contra a vontade). Depois ela iria à DP reclamar do PM
e quem sabe até mandaria um e-mail para o STJ.
Acabou por relevar e voltou para casa.
Ligou a TV, deitou-se no sofá e viu um programa no SBT
e depois outro na VTV.
Que dia aquele! Foi pior do que quando está na TPM. Pode?

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
_______________

EU E O MAR...

Manso o mar beija a areia
Docemente a idéia clareia,
A branca espuma pelo ar salpica
No rosto um bom gosto de sal,
A onda nos pés descalços
Leva longe o desgosto vacilante,
Que vem... e que vai...
/na maré replicante...
O esplendor do sol na água purpurina
Reflete o apogeu do amor celebrado
Em claras noites de beleza celestina
Ah! a paz que traz o mar poente...
E seu marulhar nas manhãs quentes
Faz a gente ser de tudo capaz!
Quando contemplo o mar
O passado lembro em instantes
Mas deixo ir no horizonte distante,
Quando no mar mergulho
Me entrego às ondas balouçantes
E com um suspiro me alivio dos entulhos,
Embalada pelo canto das sereias
Desfruto a intimidade das baleias
No reino azul da corte de Netuno...
Ato bem o amor que quis a um gatuno
A tesouros ocultos no fundo das águas,
E só quero dançar com o mar opalino
-Único a dar à minha mágoa trégua-
Enlaço meu príncipe submarino
E diluo mágoas de uma trajetória torta
Na alegria de saber que não estou morta,
Depois de afogar medos e segredos,
Serei noiva amada e fiel,
Surfarei em vagalhões de mel,
Ah! Vou já me casar com o mar!

NEUSA MARIA CONFORTI SLEIMAN
Santos/SP
________

NOTA:

No dia 14 de DEZEMBRO
houve o lançamento do livro de poemas:
AURORA GRIS
de Eunice Mendes
na Aliança Francesa de Santos

Eis aqui alguns poemas do livro:

***

meu olhar busca um ninho
como pássaro
que perdeu o espaço

seu vôo é nítido
seu pouso é vário

nada altera na paisagem
enquanto o vento vibra
na vidraça
seu ritmo
é quase vidro
e se estilhaça
meu olhar é presa fácil

onde pousa encontra um tiro

***

meu olhar
prelúdio de avessos
sobre a matéria
parece pousar ausência

longe porém
sobrevoa essências
atravessa paredes
costura redes

de corpo e alma
emenda fins e começos

***

na natureza
nada agride
tudo em suspenso
é repouso

nada me aflige
não penso, pouso

________________

DICAS DE LEITURA

AGOSTINA SASAOKA:
www.gargantadaserpente.com

GLAUCO MATTOSO:
www.sites.uol.com.br-glaucomattoso

AMARALVIEIRA:
www.amaralvieira.com

RICARDO MAINIERI:
www.mainieri.blogspot.com

RICARDO ALFAYA:
www.alfayaliteratura.blogspot.com

IRACEMA ANANIAS:
www.iracemananiaspoeta.spaces.msn.com

REVISTA POÉTICA:
www.revistapoetizando2.blogspot.com

SERGIO ANTUNES:
www.sergioantunes.art.br

SILVIO CAMPOS:
www.teiacultural.blogspot.com

LEANDRO LUIZ RODRIGUES
www.mandandobrasa.blogspot.com
_____________________________

INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Crônica, Conto, Estilos de Época
e muita poesia...

UNIDADE: R$ 7,00
VIA CORREIO: R$ 9,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00


CONTATO:
walmordario@ig.com.br
_____________________________

OUTRAS PUBLICAÇÕES DO SELO ARTESANIA

LIVROS:

De Eunice Mendes:

Flores e Frutos
Sonhares
Aurora Gris
Valor: R$ 15,00 (cada)

Sino dos Ventos
Lua na Janela
Espaços do Vazio
Valor: R$ 5,00 (cada)

Nuvens de Sol
Valor: R$ 10,00

De Walmor Dario Santos Colmenero:

Um Poeta na Rua
Memórias
Versos Vivos
Das...
O Homem Natural
A Mulher Natural
Poeminhas e Proverbinhos
Expressões Impressas
Bagagens de Ontens
Poemas Bluseiros
Tributo Vivo
A Multiplicação do Nada
Um Poeta na Itália
Um Poeta na Espanha
Lá Fora Adentro
Out-Real
Pedras no Chão
Qualquer Semelhança... Não é Mera Coincidência...
Valor: R$ 7,00 (cada)

FOLHAS POÉTICAS:

A Poetisa
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editora: Eunice Mendes

O Poeta
- Modelo: A4, para xerocopiar e distribuir,
edição trimestral.
Editor: Walmor Colmenero

FANZINES:

Árvore Azul (7 edições)
Editora: Eunice Mendes

Escritos
- Modelo: Oficio 9, 4 páginas, edição bimestral.
Editor: Walmor Colmenero
UNIDADE: R$ 1,00 + selo de R$ 00,1 (um centavo)
ASSINATURA ANUAL: R$ 10,00

CONTATOS:
walmordario@ig.com.br