Revista Poetizando

7.5.12

POETIZANDO Nº 44
(edição de outono)

 

No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
Volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

FERNANDO PESSOA
in: Cancioneiro
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AUTORES DO MÊS

MARÇO

ELIZABETH BARRETT BROWNING, poetisa inglesa, nasceu em Coxhoe Hall, perto de Durham, a 6 de março de 1806 e faleceu em Florença, a 29 de julho de 1861. Apesar da saúde extremamente fraca, conseguiu dedicar-se à literatura. Em 1846 sua vida teve grande impulso ao casar-se com o poeta Robert Browning, seu eterno amor. Passou a morar na Itália e defender a causa da liberdade política dos italianos. Foi considerada uma das melhores poetisas inglesas.
Algumas obras: Sonetos Traduzidos do Português (1850), Janelas da Casa Guidi (1851), Aurora Leigh (1856), Poemas Antes do Congresso (1860).

SONETO XXVIII

As minhas cartas! Todas elas frio,
Mudo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas
o fio da vida eis que retorno hora por hora.

Nesta queria ver-me - era no estio -
como amiga ao seu lado... Nesta implora
Vir e as mãos me tornar... Tão simples! Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: sou teu, e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito que todo inda estremece!

Mas uma... Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara,
Se o que então me disseste eu repetisse...
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ABRIL

JOSÉ ALBANO, poeta brasileiro, nasceu em Fortaleza/CE em 12 de abril de 1882 e faleceu em Montauban, França, em 11 de julho de 1923. Poliglota, possuidor de vasta cultura, versejava também em francês, inglês e alemão. Sua obra era composta de grande pureza lingüística e alto rigor formal. Ela foi reunida e editada em 1948 com o nome de Rimas de José Albano. Seus versos consistiam de redondilhas, canções, odes, alegorias, endechas, sonetos e comédias.


PRECE

Bom Jesus, amador das almas puras
Bom Jesus, amador das almas mansas,
De ti vêm as serenas esperanças,
De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras
O pecador ingrato e não descansas,
Para lhe dar as bem-aventuranças
Que os espíritos gozam nas alturas.

A mim, pois, que de mágoa desatino
E, noite e dia, em lágrimas me banho,
Vem abrandar o meu cruel destino,

E terminado este degredo estranho,
Tem compaixão de mim, pastor divino,
Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!
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MAIO

ALEKSANDER SERGEIEVITCH PUCHKIN, escritor russo, nasceu em Moscou a 26 de maio de 1799 e faleceu em São Petersburgo a 29 de janeiro de 1837 (datas do calendário antigo). É considerado o pai da literatura russa: poeta, romancista, dramaturgo, contista e ensaísta. Teve grande influência sobre os maiores escritores russos entre eles: Lermontov, Gogol, Tolstoi, Dostoievski. A Gogol, seu amigo, inspirou  os enredos de Almas Mortas e O Inspetor-Geral. Embora se destacasse em todas as áreas que atuou, Puchkin era essencialmente poeta, que segundo Dostoievki, “era o mais nacional e o mais universal dos poetas russos”. Vindo de família nobre russa, tornou-se figura de destaque não só nos meios literários, como na alta sociedade da capital russa. Foi casado com uma das mulheres mais belas da época, foi conduzido a intensa vida mundana, causando aborrecimentos e a sua própria morte em duelo com um membro da guarda real. Na adolescência viveu em ambiente literário, escrevendo seus poemas e obtendo grande sucesso, tendo a influência de Voltaire. Nessa época, preparou os primeiros esboços da novela em versos Ruslan e Ludmila publicada em 1820. Foram escritos poemas também com idéias libertárias. Com a publicação de Ruslan e Ludmila desencadearam ataques violentíssimos das escolas dominantes. Baseado em uma lenda nacional, o poema situa-se em ambiente russo e personagens russos. Com forte influência Byroniana, esceveu O Prisioneiro do Cáucaso, A Fonte de Baktchisarai e Os Ciganos. O primeiro grande romance russo, embora escrito em versos, Evgeni Onegin, é uma obra profundamente realista e nacional, sendo considerada a melhor obra da sua época, painel da sociedade russa de então, verdadeiro marco do romance realista russo do séc. XIX. Publicada em 1831, a tragédia histórica Boris Godunov, teve inspiração de Shakespeare, tendo o seu tema principal as relações entre as classes dominantes e a massa do povo. Pela complexidade de sua trama e impacto, esse drama constitui um dos pontos mais altos da literatura russa. Na década de 30, apesar de sua vida mundana, produz Contos de Belkin, O Festim no Tempo da Peste, Contos de Fadas, O Cavaleiro de Bronze, A Filha do Capitão, A Dama de Espadas. Puchkin, usava em sua poesia expressões e lendas populares, enriquecendo seus versos com a riqueza do idioma russo, o que era inconcebível até então. Foi o primeiro a introduzir na literatura russa a própria Rússia: sua paisagem, seu povo, sua fala, sua alma. Puchkin, como criador, é a principal fonte da grande literatura russa. A sua obra A Filha do Capitão, inspirou Guerra e Paz de Tolstoi. Enquanto que A Dama de Espadas, desencadeou Crime e Castigo de Dostoievski.
Algumas obras: A Aldeia (1819), Ruslan e Ludmila (1820), O Prisioneiro do Cáucaso (1822), Os Ciganos (1827), Poltava (1828), Contos de Belkin (1830), Boris Godunov (1831), Evgeni Onegin (1833), O Festim no Tempo da Peste (1833), Contos de Fadas (1833), O Cavaleiro de Bronze (1833), A Filha do Capitão (1833), A Dama de Espadas (1934).

A FLOR

Acho, entre as folhas de um volume,
Despetalada e murcha flor.
E devaneio estranho assume
Todo meu ser interior.

Abriu-se aonde? Em que primavera?
E muito floresceu? E a mão
Que a acolheu amiga, ou não era.
E pô-la aqui com que intenção?

Em sinal de terna entrevista
Ou de separação fatal?
Ou de excursão, longe de vista?
Ao bosque escuro, à paz rural?

Estarão vivos ele e ela?
E seu recanto, onde a supor?
Ou já morreu o moço e a bela,
Como esta misteriosa flor?
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Folk-Lore

O TEMPO DO SONHO
(Folk-Lore australiano)

No começo a Terra era uma planície nua. Tudo era escuro. Não havia vida nem morte. O sol, a lua e as estrelas dormiam embaixo da terra. Todos os ancestrais eternos também dormiam, até que eles acordaram de sua própria eternidade e saíram à superfície.
Quando os ancestrais eternos se levantaram, vagaram pela terra, às vezes sob a forma de animais – como cangurus, emas ou lagartos -, às vezes com forma humana, às vezes meio animal e meio humano, às vezes meio humano e meio planta. Dois desses seres, autocriados a partir do nada eram os Ungambikula. Vagando pelo mundo, encontraram pessoas feitas pela metade. Tinham sido criadas a partir de animais e plantas, mas não passavam de montes informes, jogados e amontoados perto do local onde poços de água e lagos salgados podiam ser feitos. Essas pessoas estavam todas emboladas, sem membros ou rostos.Com suas grandes facas de pedra, os Ungambikula esculpiram cabeças, corpos, pernas e braços.
Fizeram os rostos, as mãos e os pés. E finalmente os seres humanos foram terminados. Cada homem ou mulher foi feito a partir de uma planta ou animal, e cada pessoa deve fidelidade ao totem do animal ou da planta do qual foram feitos – a ameixeira, a semente do pasto, os pequenos e grandes lagartos, o papagaio, o rato.Quando terminaram seu trabalho sagrado, os ancestrais voltaram a dormir. Alguns voltaram para suas casas subterrâneas, outros se transformaram em rochedos ou árvores.Os caminhos percorridos pelos ancestrais são caminhos sagrados. Em cada lugar por onde o ancestral passou, deixou o traço sagrado de sua presença – um rochedo, um poço, uma árvore.Pois o Tempo do Sonho não está somente no passado, pois é o eterno Agora. Entre cada batida do coração, o Tempo do Sonho pode voltar.
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entrevista

“Todo mundo tem a arte dentro de si.”

Cosme Custódio da Silva


Membro de diversas entidades literárias, autor de três livros e co-autor em cento e quatro oportunidades, detentor de títulos e prêmios. Edita o zine O Garimpo.


P - Quem é Cosme Custódio?


C. C. S. - Fui deixado cair pela cegonha, em Salvador, no dia 27 de setembro de 1954, dias de São Cosme e São Damião, sem ser gêmeo, e aqui vivo assistindo a essa pornochanchada de baixo nível chamada Brasil. Casado, três filhos, dois netos, gosto da família, amigos, ler, escrever, andar, correr, viajar.


P - Como se deu sua formação poética?


C. C. S. - Sou um fazedor de versos autodidata, sem a preocupação de academismos, arcadismos, neo-concretismo e outros ismos.


P – O que te motivou a escrever poesia?


C. C. S. - Fui apresentado aos poetas lá no curso ginasial, com tarefas para serem executadas. Daí tomei gosto, até que veio a necessidade de aproveitar ao máximo a capacidade de criar e tentar compreender o sentido de viver e suas relações, ou não.


P – Para quem os poetas escrevem?


C. C. S. - Primeiro para si mesmos, introspectivos que são. Depois, para os seus pares, males e amores.


P – Como vê os concursos, prêmios e eventos afins?


C. C. S. - Tem muita vigarice no meio, muita gente ganhando dinheiro em cima daqueles que sonham em ganhar um grande concurso e ser guinado à carreira. Até mesmo num concurso como o Prêmio Jabuti tem mecanismos escusos, quando editor, curador, concorrentes e jurados não se entendem. Imagine naqueles de menor expressão!


P – A internet interferiu em seu processo criativo? E na divulgação do trabalho?


C. C. S. - Não. Nem sequer sou um viajante, não obstante compreender que a internet permite uma assimilação fantástica de conhecimento. Divulgo o zine O Garimpo: e-mail - putzgrilla@oi.com.br.


P – Poesia e vida se complementam?


C. C. S. - Complementam-se e se confundem. A vida sem poesia seria Pelé sem Tostão, goiabada sem queijo, feijão sem arroz, Dom Quixote sem Sancho. Poesia não é só o que está escrito. Ali tem som e ritmo, espaço e tempo, fluidez e ruptura, como a vida.


P – A arte é própria do artista? Ou todo mundo é artista?


C. C. S. - Como artista plástico bissexto, acho que o artista já nasce, evolui, enriquece, ganha notoriedade e respeito. Mas num sentido amplo, todo mudo tem a arte dentro de si, pois que ela é subjetiva, de Lina Bo Bardi a Volpi, de Carybé a Di Cavalcanti; das rendeiras do Ceará aos oleiros da Bahia; do Parangolé de Oiticica aos artesãos de Olinda.


P – Acha importante o intercâmbio entre escritores? E seus leitores?


C. C. S. - Sim, mas eles não se topam, são pedantes, egoístas, metidos a besta, semideuses, afetados, pisam em ovos. Os leitores só os encontram em noites de autógrafos, Feiras e Bienais.


P – Qual a diferença entre arte e entretenimento?


C. C. S. - Nem todo entretenimento configura-se em arte, mas toda arte entretém, educa, ensina, faz pensar.


P – A literatura contribui para melhor compreensão do mundo?


C. C. S. - Tomemos como exemplo da Grécia Antiga para os dias de hoje. O quanto nos deu a literatura, apesar do bicho que é ainda o homem! Sem ela não estaríamos aqui.


POEMAS:


AMOR DE AMANHÃ

Que prol terá a vós
Para tanto bem me querer
Pois sou corda de cegos nós
Sem o teu amor merecer

Pensai bem no que ides fazer
Deixai de lado se para o meu cuidar
A verdade dir-te-ei mesmo a lhe doer
E perdoe-me se a ti não sei loar

Sinto o quanto é bom o vosso coração
Longe de minh’alma dele troçar
Quem sabe não esteja co’a razão

Mesmo sem hoje formaremos um par
Amanhã se preciso for, pedirei perdão
E vos desejarei aves do mundo d’amor cantar


FINO TECER

Sentada em pequeno tosco banco
Junto à parede azul mofada
Tece Santinha quieta no canto
Roupa branca pelo uso amarelada

Rama de luz que entra pela janela
E a agulha rápida no tecido entranha
A linha aos poucos se desenovela
Entrelaçando que nem sutil aranha

Da vitrola chuva de música soando
Enfeitando o ambiente de alegria
A criança aos pés seus brincando

Sem interromper com paciência urdia
E o tempo com pressa passando
Querendo a noite fenecer o dia


FRAGILIDADE

Somos todos quixotescos
de atitudes fortuitas
e pensamentos grotescos
cavalgando em rocinantes
pangarés
trôpegos, vacilantes
Degladiamos
contra moinhos sem ventos
imóveis, inúteis
lançando nossas lanças
toscas, tortas
cegas ao vazio.
Somos todos sanchos
de panças vazias
e mentes ocas
de atitudes impotentes
vítimas de nós mesmos

MEU NOME É ANGOLA

Levanto âncoras
Iço velas
Singro águas
E ares
O mar sangra de emoção

Deixarei saudades no porto
Mas, trago-me no coração
Ao encontro do meu amor
Desde outrora
Em versos exposto

Penetrarei Angola
Sem armas, sem dardos
Sem grilhões, sem argolas
Mas, com elos e laços
E ímpetos de amor

PESSOA E EU

Sou uma pessoa só
Que curte Pessoa
Sem os heterônimos
Só ele
Eu sozinho

Seus versos
Soam-me à mente
Ecoam-me o corpo
E, se verdade escondem
Não é o que sinto

Cubro-me com o teu chapéu
Vejo através das tuas lentes
Uso da tua gravata
E, sem bravata
Pito do cachimbo teu
Contaminou-me, Pessoa
Um só em tantos
Mas, somente ele
Singularmente
Entretanto

COSME CUSTÓDIO DA SILVA
Matatu/BA
e-mail: putzgrilla@oi.com.br
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27.11.11

BODAS DE PÉROLA



Dez anos Poetizando... Dez anos garimpando pérolas literárias Brasil adentro, conhecendo e divulgando velhos e novos autores. Durante todo esse tempo, que passou rápido, porque o que é bom costuma passar rápido, exercemos, como bem diz Lígia Fagundes Telles, o ofício da paixão. Agradecemos a todos os que estiveram conosco nessa trilha de luz e ajudaram a remover as pedras do caminho, separar o joio do trigo, contar estrelas e, sobretudo, AMAR, a paz e a poesia!
Abraços e beijos nos corações.
Eunice e Walmor

Santos/SP - Verão - 2011.
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POETIZANDO Nº 43
(edição de Verão)

Foto de Walmor Dario


Saudoso já deste verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
       Na lembrança invertida
       De quando hei de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
       Em que hei de errar, sem flores,
       No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda,
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
       Antes que com a curva
       Diurna da ampla terra.
 
RICARDO REIS
(FERNANDO PESSOA)
in: Ficções de Interlúdio
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AUTORES DO MÊS

DEZEMBRO

GUSTAVE FLAUBERT, escritor francês, nasceu em Rouen em 21 de dezembro de 1821 e faleceu em Croisset, perto de Rouen, a 8 de maio de 1880. Filho de um cirurgião, Flaubert cresceu no meio de todas as misérias humanas e delas se afastou ao ingressar no Colégio Real, sendo entusiamado pela poesia e pelo romance. Apaixonou-se aos 15 anos por Elisa Schlésinger – casada, com um filho, e 15 anos mais velha que ele. A paixão o acompanhou por toda a vida, inspirando-o, anos depois, uma literatura romântica, entremeada de melancolia. Em 1840, freqüenta os cursos da Faculdade de Direito, abandonando os estudos desiludido com os acontecimentos da Revolução de 1848. Ao escrever a obra Madame Bovary, criou-se um processo por “ofensa à moral pública e religiosa” que o levou a julgamento. Ao ser perguntado em júri quem teria sido o modelo do personagem, sua resposta foi histórica: “Madame Bovary sou eu.” Essa obra é considerada um dos mais importantes romances da literatura francesa, sendo considerada perfeita obra de arte. Retirou-se para seu sítio em Croisset, dedicando os restantes 30 anos de sua vida ao trabalho literário, em quase solidão total.     
Algumas obras: Madame Bovary (1857), A Educação Sentimental (1869).

FRASES:

* “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia social.”
* “Ninguém deve pensar que sentimento é tudo. A arte não é outra coisa além da forma."
* “Tenha cuidado com a tristeza. É um vício.”
* “O que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele.”

* “Talento significa uma enorme paciência.”* “E depois, não lhe parece [...] que o espírito vagueia mais livremente por aquela extensão sem limites, cuja contemplação nos eleva a alma, e nos dá idéias do infinito, do ideal?
* “Porque as suas convicções filosóficas não impediam suas admirações artísticas; nele, o pensador não subjugava o homem sensível.”
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JANEIRO


VIRGÍLIO DOS REIS VÁRZEA, escritor brasileiro, nasceu em Desterro/SC a 6 de janeiro de 1862 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ a 29 de dezembro de 1941. Pertenceu à primeira fase do movimento simbolista, tendo convivido com Cruz e Sousa. Foi Inspetor da capitania do porto de Desterro em 1885 e deputado estadual por Santa Catarina de 1902/1904. Sua obra reflete o contato com o mar.
Algumas obras: Traços Azuis (1884), Tropas e Fantasias, em colaboração com Cruz e Sousa (1885), Mares e Campos (1895), Contos de Amor (1901), Os Argonautas (1909), Nas Ondas (1910).

MANHÃ NA ROÇA (fragmento)

Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta deslumbradoramente, como uma gema de ouro flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio de listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal: Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas.
Abrem-se as casas. Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa, de canjirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça no ar frígido, ruminam ainda restos de grama numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco do beiço tremido, fazendo burrr e sacundindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado. Um carro atopetado de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas [que se avolumam e vegetalizam enterradas] chia monotonamente, em direção ao engenho, solavancado pela aspereza do caminho... E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.
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FEVEREIRO

CHARLES DICKENS, escritor inglês, nasceu em Landport, Porthsmouth, a 7 de fevereiro de 1812 e faleceu em Gadshill, Rochester, a 9 de junho de 1870. Desde criança foi fascinado pelas leituras de Fielding, Cervantes e outros, vivendo em grandes dificuldades financeiras. Seu pai foi preso por dívidas e Charles ia visitá-lo em Marshalsea, o cárcere dos devedores insolventes. Dickens só conseguiu terminar os estudos, graças a uma herança inesperada recebida pela família. Dedicou-se ao jornalismo e a reportagem e, em 1833, publicou crônicas humoristas sob o pseudônimo de Boz. Começou a publicar seus obras em fascículos, obtendo grande sucesso. Escritor consagrado e célebre, foi recebido pela rainha da Inglaterra como “rei das letras inglesas”. Criou uma prosa original, rica em simbolos, tendo influência dos romances góticos, criador de personagens inesquecíveis.
Algumas obras: Oliver Twist (1838), Nicholas Nickleby (1839), Barnaby Rudge (1841), David Copperfield (1849 – 1850), Grandes Esperanças (1861).

FRASES

* “Ninguém pode achar que falhou a sua missão neste mundo, se aliviou o fardo de outra pessoa.”
* “A amizade da mulher para com o homem é um beco sem saída, para o qual a empurrou o engano do amor.”
* “Se não existissem más pessoas, não haveria bons advogados.”
* “Renda anual de vinte libras, despesa de dezenove libras, dezenove xelins e seis pence, resultado: felicidade. Renda anual de vinte libras, despesa anual de vinte libras e seis pence, resultado: desespero.”
* "Acidentes acontecem até nas melhores família.”
* “Uma vaga noção de tudo, e um conhecimento de nada.”
* “Qualquer pessoa é capaz de ficar alegre e de bom humor quando está bem vestida.”
* “As coisas mais bonitas no mundo são sombras.”
* “Só quero ser livre. As borboletas são livres.”
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HERMANOS


LOS ANILLOS FATIGADOS

Hay ganas de volver, de amar, de no ausentarse,
y hay ganas de morir, combatido por dos
aguas encontradas que jamás han de istmarse.

Hay ganas de un gran beso que amortaje a la Vida,
que acaba en el âfrica de una agonía ardiente,
suicida!

Hay ganas de... no tener ganas, Señor;
a ti yo te señalo con el dedo deicida:
hay ganas de no haber tenido corazón.

La primavera vuelve, vuelve y se irá. Y Dios,
curvado en tiempo, se repite, y pasa, pasa
a cuestas con la espina dorsal del Universo.

Cuando las sienes tocan su lúgubre tambor,
cuando me duele el sueno grabado en un puñal,
¡hay ganas de quedarse plantado en este verso!

CÉSAR VALLEJO
(1892-1938)
Poeta peruano
in: Los Heraldos Negros, 1918
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entrevista

“A Arte transforma o indivíduo.”

Escobar Franelas


Escobar Franelas, 42 anos, escritor, videomaker e fotógrafo amador. Membro da União Brasileira dos Escritores (UBE) desde 2004.
Tem o livro "hardrockcorenroll" (poesias, SP:Scortecci, 1998) e participação em diversas coletâneas.
Atualmente é um dos articuladores do núcleo Fora do Eixo - Letras, em São Paulo, e colaborador da Revista Ounão (SP), e do jornal O Grito (Monteiro Lobato, SP).
Prepara os originais para o lançamento do romance "Antes de Evanescer" ainda esse ano.

P - Quem é Escobar Franelas?


E. F: - Sou nascido, crescido e ainda hoje morador da zona leste de São Paulo. Desde criança sou meio dominado por amor devoto às letras. Mesmo quando sonhei ser jogador de futebol, na adolescência, esse jogador também seria poeta, com certeza. E depois, quando enveredei profissionalmente pelos caminhos da audiovisual, desde então meu grande anseio tem sido sincronizar essas duas paixões: a literatura e o cinema.

P - Como se deu sua trajetória na poesia?

E. F: - Os primeiros versos eram de um típico enamorado adolescente que, sem saber como cortejar uma garota, escrevia poesias sofríveis na expectativa de impressionar alguma menininha. A devoção às letras, contudo, levou-me até os jornaizinhos da escola, depois aos fanzines. Daí pulei para os jornais de bairro. Enfim, essa foi minha trajetória, até chegar à Antologia Poéticas de Pinheiros (1989), minha primeira incursão, digamos, "mais profissional" pelo mundo da arte literária. Tinha 20 anos, àquela época.

P - Crê que a poesia tem que ser um agente de transformação pessoal?


E. F: - Acredito que a transformação social mais visível vem pelas mãos da política, mas como toda mudança social é, sim, de caráter pessoal, então acredito que a poesia, a filosofia, a Arte (assim mesmo, com maiúscula) em estado bruto, têm esse poder de transformar o indivíduo.

P - Todo talento é nato ou um aprendizado?


E. F: - Diria que toda vocação só pode ser equacionada no mundo das exigências civis e formais, daí que ela exige, sim, muita dedicação, estudo, planejamento e transpiração. Mas se todo esse esforço não estiver acondicionado no princípio do "insight" instigador, então não será arte, no máximo ciência ou artesanato.

P - Qual a importância da leitura para quem escreve?


E. F: - Não consigo conceber um cineasta que não assista filmes, ou, pelo menos, não dê conta de conhecer tecnicamente como funciona o universo da  produção  cinematográfica. Assim como não vejo bulhufas de escritor no cara que não se dispõe a ler e interpretar através da palavra o mundo à sua volta.

P - Tem acompanhado os novos autores?

E. F: - Sim, com certeza. Não abro mão da leitura dos ditos clássicos, assim como tento dividir meu tempo com a leitura do novo, para que a mente seja sempre arejada pela disputa entre essas duas (e outras) escolas.

P - A internet interferiu em seu processo criativo? E na divulgação dos trabalhos?

E. F: - Sinceramente, não consigo perceber se a internet influencia a confecção ou produção de meus trabalhos, mas reconheço que dentro do aspecto marqueteiro, a internet pode ser uma ótima ferramenta.

P - Como é seu processo criativo? Existe inspiração?

E. F: - Não sei dizer como funciona o "start" em minhas criações. Às vezes uma frase solta numa conversa dentro de casa, um papo qualquer que ouço dentro do metrô, ou mesmo algo falado num filme, enfim, qualquer coisa pode atingir um determinado ponto em minha memória que anela-se a outras sensações e daí surge uma tênue linha divisória que eventualmente pode se tornar um poema, um conto ou uma crônica (até mesmo um romance!), dentro das vertentes que se abrem em meu imaginário.
Da mesma forma que às vezes o título nasce antes da peça, às vezes acontece o contrário, vem o texto e o título se recusa a chegar!

P - Acha importante o intercambio entre poetas/escritores/leitores?

E. F: - Sim, sem dúvida. Não existirá o artista se não houver a contemplação de sua obra e a interatividade que se inicia a partir da "leitura" que o público faz de determinado trabalho. E da troca que há entre os iguais.

P - Que tipo de criação pode ser considerada artística?

E. F: - Aquela que o "artista" diz ser "arte", não poderá nunca ser negada. Poderemos sempre discutir nossos conceitos e preferências, mas jamais teremos, enquanto humanos, poder para julgar e negar a condição de "arte" à qualquer feitura que tenha essa definição, pois não há critérios teóricos ou práticos, que imponham ou impeçam alguém de divisonar o que é ou deixa de ser "arte".

P - Para que serve a poesia?


E. F: - Para me levar à loucura ou me tirar dela. Para me levar ao éden sem ter que apelar à existência de algum deus. Para que eu goze sem precisar do esforço do corpo ou da mão. Para que eu possa fruir a vida com vários verbos lindos: sublimar, curtir, sublevar, extasiar, sonhar...

P - Deixe uma mensagem para os novos jovens poetas/escritores.

E. F: - Escrevam! Sempre! Não haverá talento à mostra se não houver o diálogo entre artista e público. E mesmo que a relação entre eles seja de  vaia ou aplauso, provocação ou comedimento, isso não tornará esse artista maior ou menor. A indiferença e a inexistência de diálogo é que tiram o caráter criador do artista.

P - Deixe, se quiser, um contato (e-mail, site, etc.)

E. F: - Algumas experiências que tenho feito na área de fotografia estão postadas no blogue vs. eu: http://escobarfranelas.blogspot.com assim como há vários sítios na internet que têm trabalhos meus.


DOIS

                                                           “olho muito tempo o corpo
                                                           de um poema” (Ana C.)

é tudo rimar

das estrelas que te olham divagar
senti-las em teus olhos é cintilar

CANÇÃO

de fato houve uma fuga da ilha maomau
nada demais um bando doméstico
temos tido tantos por aí

se acaso você vir numa nuvem cinza
dessas que ofuscam o sol
tudo mais já terá sido dito
e olha que nem fomos muito longe

longe demais
tenho tido tantos sonhos

A TRAVE DO OLHO

essa forma belicosa de dizer adeus
reafirma a estrutura da porta
a extensão do olhar
a distensão do abraço

ERIGIR

os jovens concluem

a maturidade
sub
trai

tudo

DUB

céu que pode orgasmar orvalhos
ou vice (-) versos

AMOR ENCANTO ÊXTASE

vibra o verbo no anverso
desta página

ó infinita finitude de sempre


silêncio

O MITO DA CRIAÇÃO

ousar: despertar
as partes da pétala
enquanto o instante vai construindo
eflúvios narcisos

amar: desarmar ânimos daninhos
incrustados na entrada
do sol na porta
: há balbúrdia de águas
no instrumento de veiculação
da notícia

alma: mito a justificar
uma criação

arma: cria de ânimos
danosos

lama: imaginar que não é mundo
o mundo das idéias

ESCOBAR FRANELAS
São Paulo/SP
in: hardrockcoreNroll
e-mail: efranelas@yahoo.com.br

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NOVOS


SONHO – REALIDADE

                                                         Na casa abandonada
O mistério rondava
Paredes sujas, escadas rangendo
Pisos desgastados...
A varanda toda coberta
Por vegetação emaranhada!
Outrora, nesse lugar
A alegria morava...
Crianças brincando, adolescência apontando
Jardim todo em flor.
Casa arrumada
Lençóis esticados, bem brancos
Toalhas engomadas
Panelas no fogão
E o cheiro da comida gostosa
Preparada com o coração.
Mas, o tempo passando
Transformou
De roldão

Num sopro, qual vendaval
Crianças em gente grande!
E os sonhos?
Ficaram ali no quintal
Entre as goiabeiras, as pipas
O cavalinho de pau
A rede, Papai Noel
O presépio e a Árvore de Natal...

JAÍRA DE OLIVEIRA PRESA
Santos/SP
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EXÍLIO DO SILÊNCIO

No entardecer
Escrevo os sentimentos
Nas asas das palavras
Traço símbolos
Na paisagem solitária.
Os gestos
Ferem as mãos
E meus dedos fazem palavras.
Meus olhos
Buscam imagens no ruído
Da tarde e no declínio do tempo
Busco os caminhos do
Exílio do silêncio.

LUIZ FERNANDES DA SILVA
João Pessoa/PB
in: Exílio do Silêncio
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Minha poesia é vazia de espelhos:
Por dentro paredes silenciosas
Refletem vãos desinteresses.
Pouquissimamente profunda
E de pensamentos tortos
Se caracteriza.
Já há os que cantam tudo
E sobre tudo divagam
Sem chegar a parte alguma.
A mim basta ouvir silêncios
E transformar interstícios
Em quase coisa nenhuma.

 BENILSON TONIOLO
Campos do Jordão/SP

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O ASILO

Remanso de fotografias antigas
Universo desacelerado
Geometria de pequenos mundos
          compartimentados
no paralelismo monótono de camas e
          criados-mudos
atulhados de saudades exaustas.

Às vezes, um sorriso tímido brota
como cicatriz feliz num rosto
e lágrimas correm de olhos azuis celestes
nos leitos de sulcos escavados pela
         mesma dor.

O dia acaba sem calendário
e a noite é, apenas, mais um utensílio
de solidão pendurado num sono sem amanhã.

LUIZ ANTÔNIO MARTINS PIMENTA
(1942 – 2004)
Santos/SP
in: Catedrais
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TARDE VAZIA

Pedra molhada
na onda que vem
Pintura inesperada
branca espuma

e o olhar de alguém

Rua deserta
e o silêncio vem
na tarde nua
que o vazio contém

Folhas dispersas
sombras no chão
passos ausentes
e solidão

REGINA ALONSO
Santos/SP
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Tuas emoções
mesmo secretas
e solitárias
já são um adultério

Tu ficas distante

Distância é situação indeterminada.

CARLOS CASSEL
Caçapava do Sul/RS
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PRÉ-PARTO

As formas do por vir estão inscritas
no corpo líquido do tempo.

Ás águas correm sobre as águas. Águas
de lama e limo e lodo, águas salobras
de pranto e sangue e sombra,
águas de fogo.

(Um telescópio temporal calmara
os nossos desvarios?)

                      Futuros
                   sob as águas
                 olhos atônitos
                       vigiam.


ANDERSON BRAGA HORTA
Brasília/DF
in: Cronoscópio
Civilização Brasileira/Pró-Memória
Instituto Nacional do Livro
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a fome


recobrou o olho
e este tinha fome
a fome insaciável dos olhos

e o olho cobrou a fome
desde os tempos imemoriais da fome

o quanto dar de comer ao olho
se este não se sacia

quanto de velhas fotografias
tanto de livros amarelos
jornais dobrados até se tornarem quebradiços
cartas de amor não correspondido
e flores e frutos secos guardados em gavetas

quanto de moedas antigas
de quinquilharias

a fome voraz de papéis velhos
e dedos envelhecidos
óculos para miopia

de tantos e todos tempos e temperos
que calaram em renascimentos

e ai se destilou o dia
com a luz coada
de olhares furtivos pela janela
e seus vidros ensebados e turvos
cor que se esmaecia

EDSON BUENO DE CAMARGO
Santo André/SP
in: www.umalagartadefogo.blogspot.com

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MÓBILE

forma espiral
com ilusão
de círculo
etéreo de riso
abanando emoção
de mistério
me surpreende o móbile
a proporção instigante

gravita movimentos
realidade aleatória
e desequilíbrio aparente

oscila,
oscila
sem alterar a harmonia
e o caos do crepúsculo de um dia
antigo de barco, de remo e de rio
nos escombros da igreja
incendiada

ERNANI FRAGA
São Paulo/SP
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por tão nadas sou feliz
um pouco de sol no mato
um beijo bom de língua
uma porção de risos
se houver um céu aberto
mais feliz serei ainda
por quase nada e tudo
quase tudo é sempre
tão deserto mesmo dentro
do teu longe tão incerto
nem assim estar por perto
nem assim estar presente

EUNICE MENDES
Santos/SP
in: Calendário de Estações – primavera
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O BLUES

Não venham me condenar pelo blues!
Não venham!
O que eu quero é poder
dizer que o som é do Mississipi, do Delta, do New Orleans.
É do guitarrista negro que toca a emoção,
que sente o sentimento e evoca o coração.
Da negra velha que faz a roupa do negro velho
que toca o violão.
Da boca desdentada que grita o blues,
dos dedos magros,
da pele magra,
da pele em ossos,
dos ossos. Blues.
Ontem, eu ouvi um blues e fiquei bem.

WALMOR DARIO SANTOS COLMENERO
São Vicente/SP
in: Poemas Bluseiros
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MAR

Eu te reverencio pela doce provocação
de tuas ondas inquietas,
que insistentemente me vêm beijar os pés
na branca areia da praia.

Eu te reverencio por embalares os pescadores
com suas jangadas, no leito de tuas águas,
para buscarem o pão de cada dia.

Eu te reverencio por trazeres para cá
tantos irmãos e por proporcionares
aventuras e sonhos de tantos.

Eu te reverencio por teus mistérios,
tua magia, teu poder, tua beleza, com
esse azul refletido da imensidão do céu.

DEISE DOMINGUES GIANNINI
São Vicente/SP
in: Alma Aberta
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 PAISAGEM DOMÉSTICA

a razão do poema
está na pedra
que sela
o silêncio
à   espera  do  rio

 DINOVALDO GILIOLI
Florianópolis/SC
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SE EU FOSSE POETA

Se eu fosse poeta...
eu roubaria
a luz dos astros,
o perfume das flores
e o declinar das tardes sonolentas,
para te oferecer, num beijo de três pétalas,
o meu sorriso
                      em flor...

Mas eu não sou poeta, meu Amor!

ANDERSON DE ARAÚJO HORTA
(1906 – 1985)
Brasília/DF
in: Invenção do Espanto                                            
Edições Galo Branco
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CENÁRIO TEATRAL


Nos becos os sonhos escondidos transmutam-se.
E riscamos Cinderelas, cavalos brancos e príncipes.
O cachorro companheiro espreita pedindo afeto
e caminhamos de sapatos sujos, rotos,
amargando o frio das ruas.
A noite vai e volta e o dia não nos ilumina.
Embolados em jornais ou cobertos em trapos,
montamos um cenário teatral,
escondidos nas sucatas de automóveis.
Os estômagos tocam a música da fome
e se contorcem bailarinos
numa dança de revolta e oração.

Os Deuses de costas nos testam
e andarilhos, revivemos a Divina Comédia.

TERESINHA TADEU
(1941 – 2001)
Santos/SP
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MENSAGEM... MILAGRE DE NATAL!

Renasce, em cada Natal,
A sublime redenção;
Jesus, o Ser especial,
É a nossa salvação!...
Natal de Jesus envolve
A luz que nos ilumina
E um sentimento nos move
A fortaleza divina.
Natal símbolo de Paz,
Compreensão, humildade...
Esta mensagem nos traz
A essência da verdade...
Um Natal p’ra reflectir,
Com profunda adoração;
O Milagre... que o porvir,
Exalta Nobre Missão!...

 MARIA ROMANA
Faro – Algarve/Portugal
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LEMBRANÇAS DO FUTURO 

Confesso que me sinto desconfortável quando ouço notícias sobre a venda de lugares em filas no INSS. Pessoas sem escrúpulos fazem da doença e da miséria dos outros um meio de obter algum lucro, perpetuando a famosa Lei do Gérson.
Penso, então, nos velhos e no papel subalterno que lhes foi destinado neste filme nacional, com produção pobre e sem efeitos especiais. Pois ser velho, neste país, é depender das migalhas da aposentadoria, dos parcos e deficientes serviços de saúde e ingressar no ostracismo cultural e existencial, salvo raríssimas exceções.
Relegado pelos filhos, muitas vezes confinados em instituições geriátricas, o idoso parece fazer um estágio para a morte. Carente de carinho e consideração assiste manhãs e noites se sucedendo e espera por um domingo de visitas, quando elas acontecem...
Que ironia, nas sociedades tribais o trato com o idoso é mais civilizado. Nestes grupos, eles representam os sábios, os pajés, aqueles que transmitem a tradição oral a seus descendentes. Vistos como repositórios de sabedoria, gozam de posição e prestígio.
Nos países orientais, o culto aos antepassados influenciado pela educação e a religiosidade continua muito presente. Fotos de avôs, tataravôs e antepassados, adornam os altares e oferendas são endereçadas a eles. Os jovens se dirigem aos mais velhos de forma respeitosa, quase cerimonial.
Infelizmente, estamos no Brasil, onde ter quarenta anos é quase sinônimo de aposentadoria profissional. País em que o essencial para a mídia é um corpo sarado, as intrigas do show business, o rosto sem rugas, esses signos de juventude e futilidade...
Do alto de meus quarenta e seis anos, olho adiante e sinto vertigens. Que país irá me aguardar quando as rugas mapearem meu rosto, a aposentadoria abrir as portas e meus lapsos de memória aumentarem...
Enquanto isso, teimosamente escrevo e tento dar um testemunho de meu tempo. Quem sabe não aspiro a esta “imortalidade”, a ser desencavada nos chips e semicondutores do futuro. Uma nova Era de Aquarius, magicamente, a unir jovens e maduros, todas as tribos, como naquela “aldeia global”, que Marshal Mac Luhan falava. O futuro dirá...

RICARDO MAINIERI
Porto Alegre/RS
in: www.mainieri.blogspot.com
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A TEMPESTADE

A Graça

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira

Como pode alguém escrever sobre o corpo amado? Fazer da pele páginas? Transformar em texto as marcas mais secretas, a geografia dos poros, a arqueologia das cicatrizes? Embalsamar as pernas em letras? Não. As palavras mamilo, coxa, mão, bunda, dorso, ombro, lábio, buceta, pelo, umbigo, pescoço, é preciso esquecê-las para não turvar este corpo. Como pretender que os pequenos abismos das consoantes possam acolher as superfícies desta paisagem, com seus tremores e nervuras? Como nomear, descrever, narrar este corpo que entre lençóis se esconde e se anuncia? Sequer ouso tocá-lo. Olhar não basta. Como um menino doente que, às escondidas, abre a janela do quarto e, mesmo quando a chuva e a noite dissolvem a cidade, imagina velocípedes, pique-bandeira, bilosca, carrossel, piscina, passeio de mãos dadas, cinema... A visão do corpo amado é minha hora mais silenciosa. Para que tocá-lo? Para que escrevê-lo? Ainda em febre, olho através da chuva. Tremores ínfimos parecem ventos, o rumor dos lençóis faz tremer as nuvens, os olhos fechados não prometem menos que o sol. Afinal, não é um corpo o que vejo assim distante, mas os volumes de uma inteira biblioteca, jamais escrita. Como traduzir o barulho dos cabelos na fronha, as cintilações do escuro acenando nas unhas, a linhagem das orelhas, a prosódia líquida da perna esquerda? Afinal, não é um corpo, mas uma minúscula tempestade, um oceano encolhido no aquário – e qualquer mão brusca pode entorná-lo. Por mais que estenda o braço, não consigo tocar o corpo que amei. Amo. Por mais palavras que tenha, não posso escrever este corpo que me dá as costas e se oferece. Como todas as coisas bem guardadas, ele soube se perder na região difícil desta cama. As palavras nada podem, vacilam entre o espelho e a penumbra. Quando muito, as minhas mãos estremecem e recuam com medo das sombras. Desde e para sempre nu, como cobrir de palavras este corpo que parece dançar nas poças d’água e abrir a janela para a chuva, senão quando súbito estremece e grita sob os relâmpagos e tapa os ouvidos para o trovão e se esconde na cabeceira da cama?  Um animalzinho só susto: músculos encolhidos, excesso de olhos. Para o banquete do medo, enfim o corpo banal, diário – da cadeira, da mesa, da rua, do vestido. Agora poderia descrevê-lo, nomeá-lo. Talvez narrar o ricto, o ridículo da dor menor, este mundo infantil e hospitalar escondido debaixo dos lençóis. Mas não. Sorrio, rio, gargalho. Fico alto. Ela se levanta da cama e me olha, nua como nenhuma mulher ousara. Enorme e física, os olhos numa altura que não alcanço. Enrola-se no lençol e desaparece na porta do banheiro. Volto a ser aquele menino doente. E já não há janela.

FERNANDO FIORESE
Juiz de Fora/MG
in: Aconselho-te Crueldade
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LANÇAMENTO DE LIVROS

A escritora Eunice Mendes lançou dois livros da quadrilogia
CALENDÁRIO DE ESTAÇÕES
:

* CALENDÁRIO DE ESTAÇÕES: primavera

* CALENDÁRIO DE ESTAÇÕES: verão

O Valor de cada exemplar é de R$ 17,00 (via Correio)
Qualquer informação entrar em contato com a autora:

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INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Além das seções da revista POETIZANDO e dos novos poetas,
você poderá encontrar na revista impressa:
Frases, Prosa, Biografias, Conto e muita poesia...
UNIDADE: R$ 10,00
VIA CORREIO: R$ 12,00
ASSINATURA ANUAL: R$ 35,00
CONTATO: walmordario@ig.com.br
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